A Caixa Econômica Federal desistiu de levar ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) um pedido de dissídio coletivo contra os bancários em greve e decidiu reabrir a mesa de negociação com as entidades que representam a categoria. A decisão foi comunicada na noite de domingo (13), em resposta a um ofício enviado pela Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro ligada à Central Única dos Trabalhadores).
A paralisação nacional teve início na quinta-feira (10), depois que os trabalhadores rejeitaram a proposta apresentada pelo banco público. O movimento segue por tempo indeterminado e mantém agências da Caixa paralisadas em diferentes regiões do país.
Além de informar a retomada das negociações, a instituição também sinalizou que irá suspender as sanções anunciadas anteriormente. A mudança na postura abre espaço para uma nova rodada de conversas entre o banco e os representantes dos trabalhadores, em meio a um dos principais impasses da campanha: as condições do Saúde Caixa, plano de assistência médica utilizado pelos empregados.
Saúde Caixa é o principal ponto de conflito
Embora a proposta apresentada pela Caixa tenha incluído diferentes benefícios financeiros e medidas relacionadas à assistência médica, o plano de saúde continua sendo o principal obstáculo para um acordo.
Entre os pontos oferecidos pelo banco está a ampliação de sua participação no custeio do Saúde Caixa. O teto de contribuição da instituição passaria de 6,5% para 8%, numa tentativa de ajudar a enfrentar o déficit do plano.
A proposta também prevê que os empregados contribuam com um percentual sobre o salário-base, variando entre 2,30% e 4,10%, de acordo com a faixa etária. Além disso, haveria cobrança por dependente, com valores entre R$ 480 e R$ 660, também conforme a idade.
Para os trabalhadores, a discussão é especialmente sensível porque o plano de saúde representa um benefício importante na vida funcional e familiar dos empregados da Caixa. Mudanças nas regras de contribuição e coparticipação podem ter impacto direto no orçamento mensal.
Caixa ofereceu prêmio de R$ 3 mil
A proposta rejeitada pelos bancários também contemplava medidas de caráter financeiro. Entre elas estava o pagamento de um prêmio de reconhecimento de R$ 3 mil por empregado.
A Caixa havia proposto ainda o pagamento, em 18 de setembro, do salário reajustado, da Participação nos Lucros e Resultados (PLR), do Super Caixa e do próprio prêmio de R$ 3 mil.
A intenção era apresentar um pacote que combinasse ganhos imediatos para os trabalhadores com mudanças estruturais relacionadas ao plano de saúde.
Mesmo diante desse conjunto de medidas, a categoria decidiu rejeitar a proposta em assembleias realizadas pelas bases sindicais.
Em São Paulo, Osasco e região, considerada a maior base da categoria, a proposta foi rejeitada por 68% dos votos.
Medidas para reduzir déficit do plano
A Caixa também apresentou alternativas para tentar contribuir com o equilíbrio financeiro do Saúde Caixa nos próximos anos.
Uma das propostas prevê a antecipação da parcela de responsabilidade do banco referente à 13ª mensalidade dos anos de 2028, 2029 e 2030. O objetivo seria utilizar esses recursos para ajudar na cobertura do déficit existente no plano.
Outra medida envolve o Programa de Assistência Médico-Supletiva (PAMS). A Caixa propôs o pagamento de valores relacionados ao programa a partir de 2027.
O banco também anunciou R$ 236 milhões em ações de prevenção à saúde, com início previsto para janeiro de 2027.
A proposta inclui ainda a criação de grupos de trabalho para discutir melhorias na eficiência do plano, suas fontes de financiamento e a possibilidade de estabelecer um modelo que destine ao Saúde Caixa parte dos resultados relacionados à produtividade.
Mudanças previstas no Saúde Caixa
A proposta apresentada pela instituição também estabelece alterações específicas nas regras de utilização do plano.
Entre elas está o aumento do valor da consulta em pronto-socorro, que passaria de R$ 75 para R$ 150, fora do teto estabelecido. Ao mesmo tempo, a proposta prevê isenção de coparticipação em atendimentos de telemedicina.
Também seria aberta uma janela de 90 dias para adesão de titulares que atualmente estão fora do plano. Porém, a proposta estabelece que, depois do cancelamento da adesão, não seria possível retornar ao Saúde Caixa.
Outro ponto é a mudança no teto anual de coparticipação. O limite passaria de R$ 3.600 para R$ 4.800 por grupo familiar.
A proposta prevê ainda recadastramento anual obrigatório e estabelece um teto de 9% por grupo familiar, além de regras específicas para dependentes indiretos e um piso de R$ 50 por beneficiário.
Essas alterações estão entre os pontos que precisam ser analisados na retomada das negociações.
Reabertura da mesa muda cenário da greve
A decisão de não recorrer ao TST representa uma mudança importante no cenário da paralisação. Em vez de buscar uma solução judicial para o conflito coletivo, a Caixa optou por voltar ao diálogo com os sindicatos.
Segundo informações repassadas pelo sindicato dos bancários de São Paulo, a resposta encaminhada à Contraf-CUT reconheceu a importância da negociação coletiva e reafirmou a manutenção dos canais permanentes de diálogo com as entidades trabalhistas.
Apesar disso, ainda não havia, até a publicação das informações, uma data definida para a próxima reunião entre os representantes dos trabalhadores e a direção da Caixa.
O banco, procurado para comentar a nova etapa das negociações, não havia se manifestado até a publicação do material. Em posicionamento anterior, a instituição afirmou que buscava construir um entendimento capaz de contemplar os interesses das partes envolvidas.
Agências continuam paralisadas
Enquanto as negociações não avançam para um novo acordo, a greve continua afetando o atendimento presencial da Caixa em diferentes partes do Brasil.
O movimento foi iniciado depois da rejeição da proposta apresentada pelo banco e permanece por tempo indeterminado.
Para minimizar os impactos da paralisação, a Caixa orienta os clientes a utilizarem os canais digitais e eletrônicos disponíveis. Entre as alternativas estão o aplicativo da instituição, o internet banking e o atendimento pelo WhatsApp.
Também permanecem disponíveis o Caixa Tem, os terminais de autoatendimento, o Banco24Horas e os canais telefônicos do banco.
A orientação é especialmente importante para clientes que precisam realizar pagamentos, consultar informações ou utilizar serviços que possam ser acessados de forma remota.
Situação é diferente no Banco do Brasil
A greve dos bancários também atingiu o Banco do Brasil, mas de maneira diferente. No caso da instituição, a paralisação ocorreu de forma parcial e alcançou algumas unidades e estados.
Em São Paulo, o funcionamento foi considerado normal. A categoria aprovou a proposta apresentada pelo Banco do Brasil e encerrou a paralisação na sexta-feira.
Ainda assim, segundo as informações apresentadas pelos trabalhadores, o movimento permanecia ativo em 18 bases.
A situação demonstra que as negociações ocorreram de forma distinta entre as instituições financeiras, mesmo dentro do contexto mais amplo da campanha salarial dos bancários.
Bancários de bancos privados já têm reajuste definido
Enquanto Caixa e parte das bases do Banco do Brasil ainda enfrentam impasses, os trabalhadores dos bancos privados já tiveram o reajuste salarial definido.
A convenção coletiva da categoria foi assinada na quarta-feira (9), garantindo reajuste salarial acima da inflação para aproximadamente 500 mil bancários.
O mesmo percentual de reajuste será aplicado aos benefícios oferecidos aos trabalhadores, incluindo vale-alimentação, vale-refeição e auxílio-creche.
A definição encerrou a negociação para os empregados das instituições privadas e estabeleceu as condições econômicas previstas na convenção coletiva.
Negociação será decisiva para o fim da paralisação
A decisão da Caixa de desistir do dissídio coletivo no TST e retornar à mesa de negociação cria uma nova possibilidade de entendimento com os bancários.
Para os trabalhadores, o principal desafio será encontrar uma solução para o Saúde Caixa que preserve o acesso ao benefício e, ao mesmo tempo, contribua para a sustentabilidade financeira do plano.
Para o banco, a negociação envolve a necessidade de equilibrar suas responsabilidades com os empregados e as condições financeiras da instituição.
Enquanto não houver um novo acordo, a greve continua. A expectativa agora se concentra na próxima reunião entre Caixa e entidades sindicais e na possibilidade de construção de uma proposta capaz de ser submetida novamente à categoria.
O fim da paralisação dependerá, portanto, da capacidade de as duas partes avançarem nos pontos que permanecem em aberto. Entre eles, o financiamento do Saúde Caixa ocupa posição central.
A reabertura do diálogo, porém, representa uma mudança relevante no conflito. Ao abandonar, neste momento, a possibilidade de recorrer à Justiça trabalhista para solucionar a disputa, a Caixa sinaliza que pretende buscar uma saída pela negociação coletiva.
Para milhares de bancários, a expectativa é que essa nova etapa permita transformar o impasse em um acordo que preserve direitos, garanta maior segurança em relação ao plano de saúde e estabeleça condições capazes de encerrar a paralisação nacional.











