O empreendedorismo só tem sentido quando consegue transformar esforço em oportunidades concretas, renda e qualidade de vida. Essa é uma das principais avaliações do presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares, ao analisar os avanços e desafios enfrentados pelos pequenos negócios no Brasil. Para ele, o desenvolvimento do empreendedorismo depende não apenas da iniciativa individual de quem decide abrir uma empresa, mas também de um ambiente econômico capaz de oferecer segurança, previsibilidade, acesso ao crédito, tecnologia e informação.
Em entrevista à Agência Sebrae de Notícias, Rodrigo Soares destacou a importância da atuação do Estado na organização da economia e defendeu a simplificação das regras para permitir que os empreendedores tenham melhores condições de iniciar, manter e ampliar seus negócios.
“O empreendedorismo só tem sentido se gerar rentabilidade, qualidade de vida e renda digna para as pessoas”, afirmou.
A declaração ocorre em um momento simbólico para o ambiente dos pequenos negócios no país. Em 2026, a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, estabelecida pela Lei Complementar nº 123/2006, completa 20 anos. O marco legal contribuiu para consolidar um tratamento diferenciado para as micro e pequenas empresas e abriu caminho para iniciativas que posteriormente modificaram profundamente a relação dos pequenos empreendedores com o mercado e com o poder público.
Lei Geral mudou ambiente para pequenos negócios
Segundo Rodrigo Soares, a criação da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas esteve relacionada à regulamentação de direitos estabelecidos pela Constituição Federal de 1988. Naquele período, havia uma intensa discussão no Congresso Nacional sobre a necessidade de construir um ambiente econômico mais simples e adequado à realidade de quem pretendia empreender.
O atual presidente do Sebrae participou diretamente das discussões enquanto exercia seu segundo mandato como deputado federal pela Paraíba. Ele relembra aquele período como uma fase de intenso debate parlamentar, com audiências públicas e discussões envolvendo diferentes setores da sociedade.
A proposta de simplificação, segundo ele, não deveria ser confundida com precarização. O objetivo era reduzir obstáculos e, ao mesmo tempo, preservar direitos e criar condições para que novas formas de atividade econômica pudessem se desenvolver.
A partir da Lei Geral, foi criado o Simples Nacional, regime tributário voltado às micro e pequenas empresas. Dois anos depois, em 2008, surgiu o Microempreendedor Individual (MEI), mecanismo que facilitou a formalização de milhões de trabalhadores que atuavam por conta própria.
Brasil ampliou número de pequenos negócios
Duas décadas depois da aprovação da Lei Geral, o empreendedorismo passou a ocupar um espaço ainda maior na economia brasileira.
De acordo com Rodrigo Soares, o Brasil se tornou a segunda maior nação empreendedora do mundo, segundo a Pesquisa GEM, considerada uma das principais referências internacionais sobre empreendedorismo.
O crescimento também pode ser observado na quantidade de pequenos negócios formalizados. Segundo os dados apresentados por ele, o país tinha aproximadamente 2,5 milhões de pequenos negócios formalizados quando a legislação foi aprovada. Atualmente, esse número chega a cerca de 25 milhões.
O potencial de expansão permanece elevado. Conforme dados citados pelo presidente do Sebrae, existem ainda mais de 43 milhões de brasileiros que gostariam ou pretendem empreender.
Por trás desses números existem histórias diferentes. Algumas pessoas abrem uma empresa porque identificam uma oportunidade de mercado. Outras começam um negócio por necessidade, buscando uma alternativa diante das dificuldades de inserção ou permanência no mercado de trabalho.
Empreender também significa buscar autonomia
Para Rodrigo Soares, o empreendedorismo pode funcionar como uma ferramenta de inclusão econômica e de melhoria das condições de vida.
Quem empreende pode encontrar uma oportunidade para aumentar a renda e conquistar maior autonomia na organização do próprio tempo. No entanto, essa possibilidade depende de condições que permitam ao negócio sobreviver e crescer.
Dados apresentados pelo Sebrae indicam que a renda de um empreendedor formalizado chega atualmente a cerca de R$ 6,4 mil. Para o presidente da instituição, o papel do Sebrae é justamente apoiar esses empreendedores para que possam transformar suas atividades em fontes sustentáveis de renda.
“O empreendedorismo oferece liberdade na gestão do tempo e uma oportunidade de aumentar a renda”, destacou.
A formalização, nesse contexto, deixa de ser apenas uma exigência burocrática e passa a ser apresentada como uma porta de acesso a novos mercados.
Formalização abre portas para novos mercados
Um dos desafios ainda existentes é fazer com que o empreendedor enxergue a formalização como uma oportunidade e não somente como uma obrigação.
Segundo Rodrigo Soares, dados do Sebrae apontam que uma pessoa formalizada pode alcançar rendimento até três vezes maior. Mesmo assim, muitos trabalhadores permanecem inicialmente na informalidade por receio de assumir custos, responsabilidades ou compromissos antes de saber se a atividade terá continuidade.
A possibilidade de testar o negócio antes da formalização é um dos motivos apontados para esse comportamento.
Por outro lado, estar formalizado permite ao empreendedor acessar mercados que exigem documentação fiscal. Entre eles estão grandes empresas e o próprio poder público.
O mercado de compras governamentais representa uma oportunidade de grande dimensão. Segundo o presidente do Sebrae, o poder público movimenta aproximadamente R$ 1 trilhão por ano, criando um espaço significativo para empresas que estejam preparadas para fornecer produtos e serviços.
Crédito continua sendo um dos principais obstáculos
Apesar dos avanços, o acesso ao crédito permanece entre os principais desafios para os pequenos negócios brasileiros.
Rodrigo Soares afirma que, em 2023, aproximadamente 78% das micro e pequenas empresas não conseguiram acessar crédito. Embora novos mecanismos tenham sido criados posteriormente para tentar ampliar o financiamento, a dificuldade permanece significativa.
Segundo ele, atualmente a parcela de empresas que não consegue acessar crédito estaria entre 60% e 70%.
Nesse cenário, a taxa de juros aparece como um dos fatores de maior impacto sobre os empreendedores. Quando o dinheiro fica mais caro, investimentos em equipamentos, expansão, contratação, estoque e inovação se tornam mais difíceis.
Para quem está começando um pequeno negócio, o custo do crédito pode representar uma diferença importante entre conseguir crescer ou permanecer limitado à operação básica.
Inovação amplia oportunidades
Outro ponto destacado pelo presidente do Sebrae é a relação cada vez mais próxima entre empreendedorismo, inovação e novas tecnologias.
A digitalização da economia permitiu que oportunidades antes concentradas nos grandes centros chegassem a diferentes regiões do país. Cursos superiores, técnicos e profissionalizantes também passaram a alcançar um público mais amplo, contribuindo para o desenvolvimento de novas competências.
Nesse ambiente surgem startups e negócios baseados em tecnologia, mas a inovação não está restrita às empresas de tecnologia. Pequenos negócios tradicionais também podem utilizar ferramentas digitais para melhorar vendas, gestão, atendimento e relacionamento com clientes.
O Sebrae, segundo Rodrigo Soares, tem buscado estimular esse processo e apoiar pessoas que desejam transformar ideias em negócios, inclusive em regiões afastadas dos principais centros econômicos.
Previsibilidade é fundamental para empreender
Na avaliação do presidente do Sebrae, um dos principais desafios para os próximos anos será garantir maior previsibilidade para quem investe e empreende.
A estabilidade econômica permite que empresários façam planos de médio e longo prazo, enquanto mudanças constantes e custos elevados podem aumentar a insegurança.
Rodrigo Soares também cita a atualização do teto do MEI e o futuro desenho do Simples Nacional como questões importantes para a sustentabilidade e a competitividade dos pequenos negócios.
Ele defende ainda que o ambiente econômico continue sendo simplificado para que empresas possam não apenas nascer, mas também crescer e alcançar novos mercados.
O tempo necessário para abrir uma empresa é apresentado como um exemplo de avanço. Segundo os dados citados por Rodrigo, o prazo médio caiu de aproximadamente quatro dias, em 2019, para cerca de 23 horas atualmente, uma redução próxima de 82%.
Uma visão para os próximos 20 anos
Ao olhar para as próximas duas décadas, Rodrigo Soares projeta um Brasil com maior participação dos pequenos negócios no desenvolvimento econômico.
A expectativa apresentada por ele envolve um país mais industrializado, com participação crescente das pequenas empresas na indústria e capacidade de transformar recursos e conhecimentos disponíveis nos diferentes biomas brasileiros em produtos e serviços.
Outro objetivo apontado é ampliar o equilíbrio na distribuição de renda e fortalecer as oportunidades de educação e qualificação.
A experiência brasileira também começa a despertar interesse internacional. Segundo Rodrigo, o modelo do MEI é uma experiência que não encontra equivalente exatamente igual em outros países e já começa a ser observada no exterior.
Em setembro de 2026, conforme relatado por ele, a legislação brasileira foi apresentada em Moçambique, país que anunciou a criação de uma modalidade de microempreendedor inspirada na experiência brasileira.
Uma trajetória marcada por histórias de empreendedores
Ao recordar os 20 anos desde a aprovação da Lei Geral, Rodrigo Soares também destaca o significado pessoal de ter participado daquele processo e, atualmente, estar à frente do Sebrae.
Para ele, acompanhar a evolução do empreendedorismo brasileiro significa também conhecer histórias de pessoas que transformaram pequenas ideias em fontes de renda, trabalho e realização.
“É muito gratificante participar do debate da legislação há 20 anos e, hoje, estar servindo ao Sebrae e à economia brasileira”, afirmou.
A trajetória também permitiu que ele conhecesse diferentes realidades do país. Segundo o presidente do Sebrae, viagens pelos 27 estados brasileiros proporcionaram contato com empreendedores de diferentes setores e regiões.
São essas histórias, segundo ele, que ajudam a dimensionar o impacto das políticas voltadas aos pequenos negócios.
Mais do que números, empresas abertas ou estatísticas de formalização, o empreendedorismo representa pessoas tentando construir caminhos próprios. Para que esse esforço se transforme em desenvolvimento sustentável, porém, é necessário que existam condições econômicas, acesso a oportunidades, conhecimento, crédito e segurança para investir.
É nesse equilíbrio entre iniciativa individual e ambiente favorável que Rodrigo Soares coloca o futuro dos pequenos negócios brasileiros. Para ele, o verdadeiro significado de empreender está em permitir que o trabalho gere não apenas faturamento, mas também dignidade, autonomia e qualidade de vida.















