O Banco Mundial anunciou nesta quarta-feira (16) a escolha do economista Michael Kremer, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2019, para assumir o cargo de economista-chefe da instituição. Professor da Universidade de Chicago e reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre combate à pobreza e desenvolvimento, Kremer substituirá Indermit Gill, que deixou a função após sua aposentadoria.
A nomeação coloca um dos principais pesquisadores contemporâneos da economia do desenvolvimento no centro das decisões de pesquisa e formulação de estratégias do Banco Mundial. Kremer assumirá oficialmente o cargo em 1º de outubro, pouco antes das reuniões anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que neste ano serão realizadas em Bangkok, na Tailândia.
A escolha ocorre em um período marcado por desafios econômicos para países de baixa e média renda, incluindo dificuldades de financiamento, custos elevados de energia, necessidade de criação de empregos e pressão por investimentos em áreas como saúde, educação, infraestrutura e tecnologia.
Um economista com trajetória voltada ao combate à pobreza
A carreira de Michael Kremer está diretamente ligada à busca por soluções práticas para problemas enfrentados por populações vulneráveis. Em 2019, ele recebeu o Prêmio Nobel de Economia ao lado dos economistas Esther Duflo e Abhijit Banerjee.
O trio foi reconhecido pelo desenvolvimento de uma abordagem experimental para combater a pobreza. A metodologia procura testar políticas e programas em situações concretas, avaliar seus resultados e, a partir das evidências obtidas, identificar quais iniciativas podem ser ampliadas.
Esse tipo de pesquisa tornou-se uma referência no campo da economia do desenvolvimento. Em vez de analisar apenas grandes indicadores econômicos, a abordagem procura entender, de maneira detalhada, como determinadas políticas afetam a vida das pessoas e quais medidas apresentam resultados mais consistentes.
Kremer atualmente dirige o Development Innovation Lab, da Universidade de Chicago. Antes de ingressar na instituição, também teve uma longa trajetória acadêmica em Harvard. Suas pesquisas abrangem áreas como educação, saúde, agricultura, acesso à água, finanças e inovação em países em desenvolvimento.
Experiência que chega ao Banco Mundial
Ao longo de sua carreira, Kremer esteve envolvido em projetos que buscaram transformar pesquisas acadêmicas em programas de aplicação prática.
Entre os trabalhos associados ao economista estão iniciativas relacionadas à vacinação, ao combate a doenças em crianças, ao acesso à água potável e ao aumento da produtividade de pequenos agricultores.
O Banco Mundial destaca, por exemplo, sua participação na criação de mecanismos destinados a estimular o desenvolvimento e a distribuição de vacinas. Uma dessas iniciativas contribuiu para a expansão de vacinas contra doenças pneumocócicas em dezenas de países. A instituição também cita trabalhos de Kremer relacionados à saúde escolar e ao tratamento preventivo de verminoses.
Outra frente importante de sua atuação está relacionada à agricultura de precisão. O pesquisador participou da criação de iniciativas que utilizam tecnologias digitais para fornecer informações e ferramentas a pequenos produtores rurais, com o objetivo de aumentar a produtividade e melhorar a renda.
Essa experiência ajuda a explicar por que sua chegada ao Banco Mundial é vista como uma mudança que aproxima ainda mais pesquisa científica, inovação tecnológica e políticas públicas.
Desafios para os países em desenvolvimento
Kremer assume a função em um momento particularmente complexo para as economias em desenvolvimento. Segundo informações divulgadas pela Reuters, esses países enfrentam pressão decorrente de taxas de juros elevadas, custos de energia e instabilidade geopolítica. A redução da assistência oficial ao desenvolvimento também aumentou as preocupações sobre a disponibilidade de recursos para projetos sociais e econômicos.
Nesse cenário, a discussão sobre como utilizar melhor os recursos disponíveis ganha importância. Para instituições multilaterais como o Banco Mundial, não basta apenas ampliar o volume de investimentos. Também é necessário avaliar quais programas produzem resultados concretos e como experiências bem-sucedidas podem ser levadas a uma escala maior.
É justamente nesse ponto que a trajetória de Kremer se conecta às necessidades atuais da instituição.
O presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, destacou a experiência do economista em identificar iniciativas que funcionam e encontrar formas de ampliá-las. Segundo Banga, esse perfil é importante diante dos desafios de desenvolvimento enfrentados atualmente.
Entre as preocupações mencionadas pelo presidente do banco está a necessidade de criar oportunidades de trabalho para uma população jovem que chegará à idade produtiva nos próximos anos.
Tecnologia como ferramenta para o desenvolvimento
A inovação tecnológica também deverá ocupar espaço importante na atuação de Kremer. O economista tem defendido o uso de novas tecnologias para enfrentar problemas históricos de desenvolvimento e melhorar a eficiência de políticas públicas.
Em eventos relacionados ao Banco Mundial, Kremer já defendeu a necessidade de financiar projetos experimentais, testar novas ideias e ampliar iniciativas que apresentem resultados positivos.
A instituição também vem ampliando sua atenção para temas como inteligência artificial, digitalização, produtividade e transformação tecnológica. O próprio Banco Mundial mantém atualmente pesquisas sobre os efeitos da inteligência artificial nos empregos, na educação e no crescimento econômico.
A chegada de um pesquisador conhecido justamente pela combinação entre experimentação, tecnologia e políticas de desenvolvimento pode fortalecer essa agenda.
Primeiro Nobel a assumir o cargo
Um dos aspectos mais simbólicos da nomeação é o fato de Kremer ser o primeiro economista a assumir o posto de economista-chefe do Banco Mundial já tendo recebido o Prêmio Nobel de Economia.
Outros economistas de grande projeção passaram pelo cargo e posteriormente receberam o Nobel. É o caso de Joseph Stiglitz e Paul Romer. Kremer, portanto, chega à posição carregando uma distinção acadêmica que já havia sido reconhecida antes de sua entrada na instituição.
A função de economista-chefe é estratégica dentro do Banco Mundial. O responsável pelo cargo participa da orientação da agenda econômica e de pesquisa da instituição, contribuindo para estudos que influenciam políticas de desenvolvimento em diversos países.
Uma trajetória além da universidade
A atuação de Kremer também se estende para iniciativas voltadas à inovação social. Em 2010, ele participou da criação da Development Innovation Ventures, iniciativa vinculada à Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) que buscava financiar projetos inovadores com potencial de impacto em países em desenvolvimento.
Sua trajetória inclui ainda participação em organizações e iniciativas dedicadas à avaliação de políticas públicas e ao uso de evidências para orientar investimentos sociais.
O economista é casado com Rachel Glennerster, também economista, que possui experiência em instituições internacionais e ocupou posições relacionadas ao desenvolvimento econômico.
Novo momento para o Banco Mundial
A escolha de Michael Kremer representa uma mudança de liderança na área econômica do Banco Mundial justamente quando a instituição enfrenta um cenário internacional de transformações rápidas.
Além das dificuldades relacionadas ao financiamento do desenvolvimento, países emergentes e de baixa renda precisam lidar com mudanças climáticas, crescimento populacional, transformação tecnológica, desafios no mercado de trabalho e necessidade de ampliar serviços básicos.
Kremer chega ao cargo defendendo uma visão baseada em evidências, experimentação e inovação. A expectativa é que sua experiência acadêmica seja utilizada para aproximar ainda mais as pesquisas realizadas pelo Banco Mundial das necessidades concretas enfrentadas pelos países.
Em declaração divulgada após o anúncio, o economista afirmou que o Grupo Banco Mundial possui capacidade de pesquisa para desenvolver e testar soluções inovadoras e, ao mesmo tempo, alcance operacional para ampliar essas iniciativas.
A partir de 1º de outubro, essa combinação entre conhecimento acadêmico e atuação internacional passará a fazer parte oficialmente de sua nova função. O desafio será transformar pesquisas e experiências bem-sucedidas em políticas capazes de produzir resultados em escala, especialmente para populações que ainda enfrentam pobreza, falta de acesso a serviços essenciais e poucas oportunidades econômicas.
A nomeação de Kremer, portanto, coloca a ciência econômica experimental e a inovação no centro da próxima etapa da agenda de desenvolvimento do Banco Mundial.















