Conrad “Cronos” Lant, vocalista, baixista e principal figura do Venom, morreu aos 63 anos. A informação foi confirmada pela própria banda nesta quinta-feira (1º). A causa da morte não foi divulgada até o momento.

Considerado um dos nomes fundamentais da história do metal extremo, Cronos esteve à frente do Venom por mais de quatro décadas e ajudou a estabelecer uma sonoridade que influenciaria diferentes gerações de músicos. A banda britânica destacou, em uma mensagem publicada nas redes sociais, que a voz, o baixo e a visão artística do músico estiveram no centro da identidade do grupo desde os primeiros anos.

“Por mais de quatro décadas, a voz, o baixo e a visão de Conrad foram o coração do Venom”, afirmou a banda na homenagem publicada após a morte do artista. O grupo também ressaltou que Cronos criou uma sonoridade que transformou a música pesada e que o Venom construiu seu próprio caminho ao longo da carreira.

A notícia provocou repercussão entre fãs do heavy metal, especialmente entre aqueles que acompanharam a trajetória do Venom desde o início dos anos 1980. Para muitos admiradores, a importância de Cronos vai além das apresentações e dos discos: ele esteve diretamente ligado à formação de uma estética e de uma linguagem que ajudaram a abrir espaço para o metal extremo.

Uma trajetória construída em Newcastle

Conrad Lant nasceu em Londres, em 1963, e ainda criança se mudou com a família para Newcastle, cidade que posteriormente se tornaria fundamental para sua trajetória musical.

Foi justamente na região de Newcastle que surgiu o Venom, em 1978, durante o período conhecido como New Wave of British Heavy Metal. A formação inicial reunia Cronos, o guitarrista Jeffrey “Mantas” Dunn e o baterista Tony “Abaddon” Bray.

O trio rapidamente chamou atenção pela combinação de velocidade, agressividade, letras provocativas e uma estética muito mais sombria do que aquela predominante em boa parte do heavy metal britânico da época.

Cronos assumiu o papel de vocalista e baixista, além de se tornar uma das principais forças criativas do grupo.

A proposta do Venom era diferente. A banda não buscava seguir as fórmulas tradicionais do gênero e apostava em uma sonoridade mais crua e agressiva. Essa postura ajudou a construir uma identidade própria e, posteriormente, fez com que o grupo fosse reconhecido como uma das principais influências do metal extremo.

“Welcome to Hell” abriu caminho

O primeiro álbum do Venom, “Welcome to Hell”, foi lançado em 1981 e se tornou um dos trabalhos mais importantes da primeira fase do grupo.

Embora tenha recebido críticas e causado estranhamento em parte da imprensa musical da época, o disco encontrou uma audiência entre fãs que buscavam uma música mais pesada, rápida e agressiva.

A combinação entre os vocais de Cronos, as linhas de baixo, as guitarras e a bateria estabeleceu uma sonoridade que posteriormente seria associada ao desenvolvimento de vertentes extremas do metal.

O álbum também ajudou a consolidar a imagem do Venom como uma banda que não tinha interesse em seguir padrões estabelecidos.

O disco que deu nome ao black metal

Se “Welcome to Hell” apresentou a proposta do Venom, o segundo álbum levou essa identidade ainda mais longe.

Lançado em 1982, “Black Metal” se tornou um dos trabalhos mais emblemáticos da história do grupo. O próprio título do disco acabou sendo utilizado para batizar um dos principais subgêneros do metal extremo.

A influência do álbum ultrapassou as fronteiras do Reino Unido. Décadas depois, bandas associadas ao black metal passaram a citar o Venom como uma referência importante, especialmente grupos europeus que ajudaram a desenvolver a cena extrema durante os anos 1990.

Segundo a revista Louder, o álbum, gravado em apenas seis dias, tornou-se uma referência para bandas como Mayhem, Emperor e Darkthrone.

Cronos também reconhecia a influência de outros artistas em sua formação. Em entrevistas, citava nomes como Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin e Motörhead entre suas referências, além da energia do punk britânico.

O resultado foi uma mistura particular de peso, velocidade, provocação e teatralidade.

Uma carreira marcada por mudanças

A história de Cronos com o Venom também teve períodos de afastamento e mudanças na formação.

Em 1987, o músico deixou o grupo e iniciou uma carreira com a banda que também levou o nome Cronos. Nesse período, explorou uma sonoridade diferente daquela que havia marcado os primeiros trabalhos do Venom.

Anos depois, porém, voltou à banda.

A reunião da formação clássica ocorreu na década de 1990 e resultou em novos trabalhos, incluindo “Cast in Stone”, lançado em 1997. A experiência, entretanto, não significou uma retomada definitiva da formação original.

Com o passar dos anos, outros integrantes deixaram o grupo, enquanto Cronos permaneceu como principal figura associada ao nome Venom.

Uma reportagem publicada pela Louder em agosto de 2026 destacou que o músico havia se tornado o único integrante remanescente da formação clássica do Venom.

Mais do que vocalista e baixista

A importância de Cronos para o Venom não estava restrita à função de músico.

Ele participou diretamente da construção da identidade da banda, desde a sonoridade até a estética e o conceito que cercavam suas músicas.

O nome artístico “Cronos”, por exemplo, surgiu da associação do músico com Cronos, figura da mitologia grega relacionada ao planeta Saturno. A escolha fazia parte da identidade que ele e os demais integrantes construíram para o grupo.

Enquanto Jeff Dunn adotava o nome “Mantas” e Tony Bray utilizava “Abaddon”, Cronos assumia uma persona que ajudava a reforçar o caráter sombrio e teatral do Venom.

Essa construção visual e conceitual acabou se tornando parte importante da linguagem do metal extremo.

Influência que atravessou gerações

O impacto do Venom pode ser percebido em diferentes gerações do metal.

A banda influenciou artistas que posteriormente ajudariam a estabelecer o thrash metal, o death metal e, principalmente, o black metal. Mesmo quando a sonoridade de outras bandas se afastava bastante daquela criada pelo Venom, elementos introduzidos por Cronos e seus companheiros continuavam presentes.

A atitude de independência também se tornou uma característica marcante.

O Venom não buscava necessariamente agradar ao mercado ou seguir tendências. A banda construiu uma identidade própria e manteve uma postura provocativa, algo que ajudou a criar uma conexão especialmente forte com seus fãs.

A própria banda se referia aos admiradores como “Legions”, termo que acabou incorporado à cultura do grupo.

O último capítulo da carreira

Mesmo depois de décadas de carreira, Cronos continuava envolvido com o Venom.

Em agosto deste ano, ele participou de uma entrevista em que falou sobre sua vida, seus interesses e a trajetória do grupo. Na ocasião, também aparecia em materiais de divulgação relacionados à fase mais recente da banda.

A carreira do músico atravessou quase cinco décadas, acompanhando transformações profundas na música pesada.

Do surgimento do heavy metal extremo nos anos 1980 à consolidação do black metal e de outras vertentes durante as décadas seguintes, Cronos permaneceu como uma figura ligada a esse processo.

Homenagem do filho

Após a confirmação da morte, Nathan, filho de Cronos, publicou uma mensagem direcionada aos fãs do músico.

Ele agradeceu às chamadas “Legions” pelo apoio dado ao pai durante os anos de carreira e afirmou que Cronos valorizava profundamente essa relação com o público.

“Ele descansou sua alma, e sua música continuará viva. A lenda de Cronos nunca morrerá”, declarou Nathan.

A mensagem reforça uma característica que acompanhou a trajetória do músico: a forte relação estabelecida com os fãs do Venom.

Para quem acompanhou a banda durante décadas, Cronos não era apenas a voz que surgia dos alto-falantes. Era uma presença associada a uma época de transformação da música pesada e a uma maneira de fazer arte sem preocupação em seguir padrões.

Um legado que permanece

A morte de Conrad “Cronos” Lant encerra a trajetória de um músico que esteve diretamente ligado a uma das transformações mais importantes do heavy metal.

O Venom ajudou a levar o gênero para territórios mais extremos e influenciou artistas que, anos depois, criariam novas cenas e estilos ao redor do mundo.

O álbum “Black Metal”, em particular, permanece como uma referência histórica não apenas pelo conteúdo musical, mas também pelo fato de ter emprestado seu nome a um subgênero inteiro.

A causa da morte de Cronos não foi informada. Também não havia, até a publicação desta reportagem, informações detalhadas sobre cerimônia de despedida ou planos futuros para o Venom após a perda de seu principal integrante.

O que permanece é uma obra construída ao longo de mais de 40 anos e uma influência que atravessou gerações.

Cronos se despede aos 63 anos, mas a voz que ajudou a definir uma das faces mais extremas do rock continuará registrada nos discos, nos palcos e, principalmente, na memória dos fãs que acompanharam a história do Venom.