O ex-campeão mundial de xadrez e opositor do governo de Vladimir Putin, Garry Kasparov, afirmou nesta quinta-feira (1º) que recebeu alertas dos serviços de segurança dos Estados Unidos e da Lituânia sobre uma possível ameaça contra sua vida. A declaração foi divulgada pelo próprio Kasparov depois que novas informações sobre uma suposta conspiração para assassinar dissidentes russos no exterior vieram a público.

Kasparov, de 63 anos, afirmou que ele e o ativista Ivan Tyutrin foram orientados pelas autoridades de segurança a adotar medidas de precaução. Segundo o ex-enxadrista, nenhum dos dois recebeu uma confirmação explícita de que seus nomes estavam entre os alvos descritos de forma reservada em uma acusação apresentada pelas autoridades norte-americanas.

Ainda assim, a informação de que seus nomes passaram a ser associados a uma suposta rede de assassinatos chamou atenção internacional e reacendeu as preocupações em torno da segurança de opositores russos que vivem fora do país.

Em um texto publicado na plataforma digital The Next Move, publicação ligada ao próprio Kasparov, ele afirmou que a notícia não chegou a ser uma surpresa, mas reconheceu o impacto provocado pela confirmação de que uma investigação norte-americana apontava para possíveis planos contra integrantes da oposição russa.

Alerta partiu dos serviços de segurança

De acordo com Kasparov, os serviços de segurança dos Estados Unidos e da Lituânia fizeram alertas sobre riscos concretos à segurança dele e de Tyutrin.

O ex-campeão mundial afirmou que levou as recomendações a sério e adotou medidas de precaução. Ele também declarou que pretende continuar sua atuação política e suas críticas ao governo Putin.

A confirmação é relevante porque as autoridades norte-americanas já haviam anunciado, em setembro, acusações contra cinco pessoas que seriam integrantes de uma rede ligada, segundo os investigadores, à inteligência russa. O grupo é acusado de planejar ações de vigilância e assassinatos contra dissidentes russos que vivem no exterior.

Os documentos judiciais norte-americanos, segundo as informações divulgadas até agora, não identificaram publicamente Kasparov ou Tyutrin como vítimas. Os nomes foram relacionados ao caso posteriormente por reportagens da imprensa internacional.

Essa diferença é importante: existe uma investigação oficial sobre uma suposta rede criminosa, mas a identificação de Kasparov e Tyutrin como possíveis alvos foi divulgada pela imprensa, e não apresentada publicamente pelas autoridades norte-americanas como uma confirmação definitiva.

Suposta rede teria atuado contra dissidentes

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou no mês passado a acusação contra cinco pessoas por supostas conspirações envolvendo agentes ligados aos serviços de inteligência russos.

Segundo as autoridades norte-americanas, os envolvidos teriam recrutado pessoas para acompanhar, fotografar e monitorar opositores russos que viviam fora da Rússia. A investigação apontou que parte dessas atividades teria ocorrido em território norte-americano e na Europa.

Um dos dissidentes mencionados nos documentos judiciais é identificado de forma codificada como uma vítima. Reportagens internacionais apontaram que se trataria de Ilya Ponomaryov, ex-deputado russo e crítico do Kremlin.

De acordo com informações divulgadas pela imprensa, integrantes da suposta rede teriam oferecido dinheiro para que uma pessoa realizasse o assassinato de um dos alvos. O recrutado teria recusado a proposta e questionado se outra pessoa poderia executar a ação.

As acusações ainda precisam ser comprovadas judicialmente. Os acusados não foram condenados e o processo seguirá os procedimentos previstos pela Justiça dos Estados Unidos.

Kasparov deixou a Rússia

A trajetória de Kasparov ajuda a explicar por que seu nome aparece há anos entre os principais críticos de Putin.

Considerado um dos maiores jogadores de xadrez da história, ele foi campeão mundial entre 1985 e 2000. Kasparov encerrou sua carreira competitiva em 2005 e passou a dedicar grande parte de sua atuação pública à política e à oposição ao governo russo.

O ex-enxadrista deixou a Rússia em 2013, depois de anos de envolvimento com movimentos oposicionistas e de críticas ao Kremlin.

Desde então, tornou-se uma das vozes mais conhecidas da oposição russa no exterior. Ele também participou da criação do Free Russia Forum, organização que reúne integrantes da oposição e críticos do governo Putin.

A atuação política trouxe consequências dentro da Rússia. Kasparov foi classificado pelas autoridades russas como “agente estrangeiro” e posteriormente incluído em listas relacionadas a “terroristas e extremistas”.

Rússia rejeita acusações

O Kremlin não confirmou as acusações envolvendo uma suposta tentativa de assassinato de Kasparov.

As autoridades russas já haviam afirmado anteriormente que não consideravam suficientemente comprovadas as acusações apresentadas pelos Estados Unidos sobre operações contra dissidentes em território estrangeiro.

A posição de Moscou é de rejeição às acusações de envolvimento do Estado russo em planos de assassinato no exterior.

Esse ponto permanece relevante para a cobertura do caso, uma vez que as alegações apresentadas pelas autoridades norte-americanas ainda estão sendo discutidas judicialmente e não resultaram em uma condenação definitiva dos acusados.

Caso ganhou dimensão internacional

A suspeita de uma rede destinada a perseguir dissidentes russos fora do país aumentou a preocupação entre organizações de oposição e governos ocidentais.

O fato de Kasparov viver nos Estados Unidos e de Tyutrin estar ligado à Lituânia também amplia a dimensão internacional da investigação. Os dois países integram a estrutura de segurança ocidental e mantêm relações tensas com Moscou desde o início da guerra na Ucrânia.

A Lituânia, em particular, tornou-se um dos principais centros de atividade da oposição russa no exílio. O país abriga organizações, ativistas e integrantes da sociedade civil russa que deixaram o território russo por razões políticas ou de segurança.

Para os governos ocidentais, ameaças contra opositores em seus territórios são tratadas também como questões de segurança nacional.

O que dizem as informações oficiais

Até o momento, o que está oficialmente confirmado é que autoridades norte-americanas acusaram cinco pessoas de participação em supostos planos para assassinar dissidentes russos e realizar atividades de vigilância.

Kasparov confirmou que recebeu alertas de segurança dos Estados Unidos e da Lituânia. Ele, porém, deixou claro que não foi informado oficialmente de que seu nome aparecia de maneira explícita como alvo nos documentos judiciais.

Reportagens internacionais passaram a apontar Kasparov, Ponomaryov e Tyutrin como possíveis vítimas da rede investigada. Essa identificação, contudo, deve ser tratada com cautela porque parte das informações ainda não foi oficialmente confirmada pelas autoridades responsáveis pelo processo.

A investigação também deverá esclarecer quem seriam os responsáveis pelos supostos planos, quais seriam suas conexões e até que ponto os envolvidos tinham capacidade real para executar os ataques.

Ex-campeão diz que continuará sua atuação

Mesmo diante dos alertas de segurança, Kasparov afirmou que não pretende interromper sua atividade política.

O ex-campeão mundial continua utilizando seus canais públicos para criticar o governo Putin e defender ações internacionais contra a Rússia.

A postura mantém Kasparov como uma das figuras mais conhecidas da oposição russa no exterior, mas também o coloca em uma posição de maior exposição.

Ao confirmar os alertas recebidos, ele tornou pública uma preocupação que, segundo suas próprias declarações, já fazia parte de sua rotina havia anos.

A revelação também mostra como as disputas políticas entre Moscou e seus opositores ultrapassam as fronteiras russas. Com dissidentes vivendo em diferentes países, acusações de vigilância e ameaças de violência passaram a ser tratadas por governos estrangeiros como questões que podem envolver segurança internacional.

Investigação segue nos Estados Unidos

As acusações contra os cinco suspeitos continuarão sendo analisadas pela Justiça norte-americana. Até o momento, não há decisão definitiva que estabeleça a responsabilidade criminal dos acusados.

Enquanto isso, Kasparov afirma que seguirá tomando as precauções recomendadas pelos serviços de segurança.

O caso também deverá continuar sendo acompanhado pelas autoridades dos Estados Unidos e da Lituânia, principalmente diante da possibilidade de novas informações sobre os supostos alvos e sobre a estrutura da rede investigada.

A situação coloca novamente em evidência os riscos enfrentados por opositores russos que vivem no exterior e a crescente preocupação dos governos ocidentais com possíveis operações de inteligência e violência política fora das fronteiras da Rússia.

Para Kasparov, entretanto, o alerta de segurança não representa uma mudança em sua atuação pública. O ex-campeão mundial de xadrez continua afirmando que pretende manter sua oposição ao governo de Vladimir Putin, mesmo diante das ameaças que, segundo ele, foram comunicadas pelos serviços de segurança dos dois países.