Música, identidade e experimentação se encontram em “Estrela”, segundo álbum da cantora e compositora pernambucana Uana. Lançado nas plataformas digitais na noite desta quinta-feira (24), o trabalho apresenta uma artista que mantém as raízes fincadas na sonoridade de Pernambuco, mas amplia cada vez mais os caminhos de sua criação ao incorporar elementos eletrônicos e referências musicais de diferentes partes do mundo.

O novo disco chega dois anos depois de “Megalomania”, lançado em 2024, projeto que já havia chamado atenção pela maneira como Uana aproximou o brega-funk recifense das batidas da house music. Agora, com “Estrela”, a artista aprofunda essa proposta e constrói um repertório que transita por diferentes gêneros sem abandonar a identidade que acompanha sua trajetória.

Com 11 faixas essencialmente autorais, o álbum nasce de uma combinação entre referências locais e uma escuta aberta para outras culturas. Brega, forró, brega-funk, música eletrônica, sonoridades africanas, árabes e caribenhas aparecem como elementos que se encontram dentro da linguagem artística da cantora.

Mais do que reunir estilos diferentes, Uana procura fazer com que essas influências convivam de maneira orgânica.

Um novo capítulo depois de “Megalomania”

O lançamento de “Estrela” representa uma nova etapa na carreira de Uana.

Em “Megalomania”, a cantora já havia apresentado uma proposta de aproximação entre os ritmos populares do Recife e a música eletrônica. O álbum ajudou a estabelecer uma identidade artística marcada pela liberdade de experimentar e pela valorização de elementos presentes na cultura musical pernambucana.

Dois anos depois, “Estrela” surge como uma espécie de continuidade dessa pesquisa.

A artista não abandona as referências que marcaram o primeiro projeto, mas amplia o universo sonoro. O resultado é um disco que percorre diferentes atmosferas e explora possibilidades dentro de uma produção contemporânea.

Antes do lançamento completo, algumas faixas já haviam preparado o público para essa nova fase.

Os singles “Delírio favorito” e “Mil e uma noites”, lançados em 2025, anteciparam parte da estética do novo trabalho. Já “Fogo e gasolina”, apresentado em 4 de setembro, trouxe uma atmosfera marcada pelo rock e funcionou como uma das principais portas de entrada para o conceito do álbum.

Ritmos de Pernambuco como ponto de partida

Apesar de dialogar com diferentes estilos e culturas, Uana deixa claro que a sua música parte de um lugar específico: Pernambuco.

O brega, o forró e o brega-funk fazem parte da formação musical da artista e aparecem como elementos fundamentais para compreender sua produção.

A diferença é que, em vez de tratar essas referências como limites, a cantora utiliza os ritmos pernambucanos como ponto de partida para explorar novas possibilidades.

A proposta permite que elementos tradicionais encontrem batidas eletrônicas e influências internacionais, criando uma sonoridade que consegue dialogar tanto com a cultura popular quanto com a música produzida nas pistas e nos ambientes urbanos.

A própria artista resume essa perspectiva ao falar sobre sua relação com as referências utilizadas no álbum.

“Eu parto de Pernambuco. O brega, o forró e o brega-funk estão no meu corpo, mas minha escuta sempre foi muito aberta”, afirma Uana.

A declaração ajuda a compreender a lógica por trás de “Estrela”: a artista não pretende escolher entre suas raízes e as novas influências. A ideia é fazer com que diferentes universos possam existir dentro da mesma obra.

Participações ampliam o universo do disco

Um dos destaques do novo álbum é a participação do grupo baiano Àttooxxá na faixa “Calor danado”.

Conhecido por trabalhar com uma sonoridade que mistura pagodão baiano, música eletrônica e diferentes referências da música brasileira, o grupo amplia a conexão regional proposta por Uana.

A presença do Àttooxxá aproxima Pernambuco e Bahia em uma faixa que reforça a energia dançante do álbum.

Outra participação importante aparece em “Mais eu”, que conta com a cantora pernambucana Joyce Alane.

A faixa mergulha em uma atmosfera sensual e incorpora elementos do forró, aproximando duas artistas conterrâneas em uma colaboração que valoriza a identidade musical do estado.

Já N.I.N.A participa de “Coisa de acender”, contribuindo para uma atmosfera mais urbana e intensa.

A participação reforça um dos elementos que atravessam o álbum: a sensualidade apresentada não apenas pelas letras, mas também pelas batidas e pela construção das músicas.

“Estrela” como símbolo de transformação

A faixa-título “A estrela” ocupa a abertura do disco e ajuda a apresentar ao público o universo conceitual do projeto.

O próprio título do álbum carrega uma ideia de brilho, movimento e transformação, características que também aparecem na trajetória artística de Uana.

O repertório reúne 11 músicas e apresenta diferentes momentos, entre faixas mais dançantes, composições de atmosfera sensual e canções que exploram outros caminhos sonoros.

Entre as músicas estão “Certeza”, “Noite breve” e “Onda”, além das faixas que já haviam sido apresentadas ao público antes do lançamento completo.

A diversidade não significa ausência de unidade. Pelo contrário: o que conecta as músicas é justamente a maneira como Uana transforma diferentes referências em uma linguagem própria.

Produção musical aposta na mistura

“Estrela” conta com produção musical de Marley no Beat e Tom BC, nomes que contribuem para a construção do ambiente eletrônico e contemporâneo do álbum.

A produção é fundamental para que as diferentes influências consigam dialogar sem que uma delas necessariamente se sobreponha às demais.

O resultado é um trabalho que preserva características reconhecíveis da música pernambucana enquanto experimenta estruturas, timbres e ritmos associados à música eletrônica.

Essa combinação também reflete uma tendência de artistas brasileiros que vêm explorando cada vez mais as possibilidades de diálogo entre ritmos regionais e gêneros globais.

No caso de Uana, porém, a proposta está diretamente ligada à sua própria formação e à maneira como ela percebe a música.

Uma identidade que não precisa escolher entre passado e futuro

Um dos aspectos mais interessantes de “Estrela” está justamente na relação entre tradição e inovação.

Uana parte de referências que fazem parte da cultura musical de Pernambuco, mas não se limita a reproduzi-las. Ao incorporar influências africanas, árabes, caribenhas e eletrônicas, a cantora amplia as possibilidades de sua própria identidade artística.

Essa mistura acompanha a realidade de uma geração de músicos que cresceu ouvindo diferentes estilos ao mesmo tempo e que encontra nas plataformas digitais um espaço para conectar culturas, gêneros e públicos.

Em “Estrela”, essa característica aparece de forma evidente.

A música pernambucana não é apresentada como algo isolado. Ela entra em diálogo com o mundo, absorvendo novas influências e devolvendo ao público uma interpretação particular dessas referências.

Um álbum para dançar, sentir e descobrir

Com o lançamento de “Estrela”, Uana consolida uma etapa importante de sua trajetória.

O álbum chega como continuação de uma pesquisa iniciada em “Megalomania”, mas também como uma demonstração de que a artista está disposta a ampliar os próprios limites.

Ao longo das 11 faixas, o público encontra diferentes ritmos, participações e atmosferas, mas sempre com uma característica central: a presença da identidade pernambucana.

É justamente nessa mistura que está a força conceitual do trabalho.

Uana olha para o Recife, para Pernambuco e para as referências que formaram sua musicalidade, mas também mantém os ouvidos atentos ao que acontece fora de suas fronteiras.

“Estrela” nasce desse encontro. É um álbum que coloca o brega, o forró e o brega-funk em diálogo com a música eletrônica e com sonoridades internacionais, mostrando que preservar uma identidade cultural não significa permanecer parado no tempo.

Ao contrário, a identidade também pode se transformar, experimentar e ganhar novas formas.

Com o segundo álbum, Uana acende sua própria “Estrela” e amplia uma trajetória que tem como uma de suas principais marcas a liberdade para misturar mundos diferentes sem perder de vista o lugar de onde veio.