Maria Rita voltou a ocupar um lugar de destaque entre as grandes vozes da música brasileira com o espetáculo “Redescobrir vol. 2”, projeto dedicado à obra de sua mãe, Elis Regina, uma das intérpretes mais marcantes da história cultural do país. Na nova turnê, a cantora revisita um repertório consagrado e demonstra que a homenagem à artista que marcou gerações também pode representar um reencontro com a própria identidade musical.
A apresentação, que chegou ao Rio de Janeiro sete meses após a estreia nacional em Porto Alegre, em 13 de março de 2026, vem sendo destacada pela intensidade das interpretações, pela renovação dos arranjos e pela escolha de canções que vão além dos sucessos mais conhecidos de Elis.
O espetáculo também ganha significado especial pela relação entre mãe e filha, construída ao longo de décadas de memória, influência artística e reconhecimento público. Em vez de tentar reproduzir a presença de Elis no palco, Maria Rita encontra sua própria maneira de interpretar as músicas, respeitando a história das composições e acrescentando personalidade às apresentações.
O resultado é um show que combina emoção, força vocal e reflexão sobre a importância de um repertório que permanece atual mesmo após tantos anos.
O reencontro de Maria Rita com o legado da mãe
A relação artística entre Maria Rita e Elis Regina sempre despertou interesse do público. Filha de uma cantora reconhecida pela potência vocal, pela expressividade e pela capacidade de transformar interpretações em acontecimentos culturais, Maria Rita iniciou sua carreira fonográfica em 2003 e conquistou espaço próprio na música brasileira.
Em 2012, ela já havia apresentado um espetáculo dedicado ao repertório da mãe, projeto que ganhou registro em álbum duplo ao vivo e DVD. Agora, com “Redescobrir vol. 2”, a artista retorna a esse universo com uma proposta que amplia a experiência anterior.
A nova apresentação não se limita à repetição de músicas consagradas. A seleção inclui obras menos lembradas do repertório de Elis, permitindo ao público conhecer outras dimensões de sua trajetória artística.
Entre elas estão “Um por todos” e “Jardins da infância”, composições de João Bosco e Aldir Blanc que integraram o álbum “Falso brilhante”, lançado por Elis em 1976.
A presença dessas músicas demonstra uma pesquisa cuidadosa sobre o repertório da cantora e reforça a intenção de apresentar uma homenagem que não dependa exclusivamente dos sucessos mais populares.
Ao mergulhar nessas obras, Maria Rita mostra que revisitar a história da mãe também significa descobrir novas possibilidades de interpretação e valorizar canções que nem sempre recebem a mesma atenção do público.
“Como nossos pais” ganha força e atualidade
Um dos momentos mais marcantes do espetáculo acontece com “Como nossos pais”, composição de Belchior lançada em 1976 e eternizada na voz de Elis Regina.
A interpretação de Maria Rita transforma a música em um dos pontos altos da apresentação. A letra, conhecida por abordar conflitos entre gerações, mudanças sociais e a dificuldade de romper com padrões estabelecidos, mantém sua capacidade de provocar reflexões sobre o presente.
Após cantar a composição, a artista falou sobre o significado de se sentir acolhida pelo legado da mãe. A imagem desse acolhimento, como um retorno ao colo materno, ajuda a compreender a dimensão emocional do projeto.
Nesse contexto, a homenagem não aparece como uma tentativa de se esconder atrás da memória de Elis. Pelo contrário, a referência familiar funciona como um espaço de fortalecimento, permitindo que Maria Rita se apresente com segurança e reafirme suas próprias qualidades como intérprete.
A canção também evidencia como a música brasileira pode atravessar décadas sem perder a capacidade de dialogar com novas realidades. Mesmo composta em outro contexto histórico, “Como nossos pais” continua despertando identificação e questionamentos entre diferentes gerações.
Arranjos renovados dão nova dimensão ao repertório
Um dos diferenciais de “Redescobrir vol. 2” está nos arranjos elaborados pelo tecladista e diretor musical Rodrigo Tavares. As novas versões respeitam a identidade das composições, mas evitam reproduzir de maneira rígida os arranjos históricos associados a Elis Regina.
A proposta oferece novas cores ao repertório e contribui para que as músicas sejam percebidas de outra maneira, sem perder suas características essenciais.
A participação dos instrumentos de sopro, especialmente o trombone de Samuca e o trompete de Vander Nascimento, acrescenta novas possibilidades sonoras à apresentação. Esses elementos ajudam a transformar a atmosfera de canções como “Essa mulher”, composição de Joyce Moreno e Ana Terra, lançada em 1979.
Os arranjos também valorizam a dimensão rítmica de sambas como “Agora tá”, de Tunai e Sérgio Natureza, e “Cai dentro”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro.
Nessas interpretações, Maria Rita demonstra domínio do ritmo e capacidade de transitar entre diferentes estilos. O espetáculo percorre momentos de intensidade dramática, passagens delicadas e sequências marcadas pela energia da música popular brasileira.
A banda tem papel fundamental nessa construção. Com músicos responsáveis por sustentar e ampliar as propostas de Rodrigo Tavares, o conjunto oferece uma base sólida para que a cantora explore diferentes nuances vocais ao longo da apresentação.
Canções clássicas e momentos de delicadeza
Além das interpretações mais intensas, o repertório reserva espaço para momentos de delicadeza e contemplação.
“Carinhoso”, composição de Pixinguinha e João de Barro, ganha uma interpretação que remete à atmosfera dos salões de baile de décadas passadas. A música evidencia a capacidade de Maria Rita de trabalhar a expressividade sem depender apenas da potência vocal.
Outro destaque é “Corcovado”, de Tom Jobim, gravada por Elis Regina no álbum “Elis & Tom”, de 1974. Na versão apresentada por Maria Rita, a música recebe um arranjo que inclui o violão de Antonio Baldini, filho da cantora e integrante da banda.
A participação tem um significado familiar particular: Antonio é neto de Elis Regina, que morreu em 1982, quando ele ainda não havia nascido.
Essa conexão entre gerações acrescenta uma dimensão afetiva à apresentação. A memória de Elis permanece presente não apenas nas músicas, mas também na continuidade de uma história familiar ligada à arte.
O repertório inclui ainda “20 anos blue”, de Sueli Costa e Vitor Martins, apresentada em uma atmosfera próxima do blues, e “Aquarela do Brasil”, clássico de Ary Barroso lançado em 1939.
Na sequência, a lembrança de “Zambi”, composição de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, amplia a diversidade musical do espetáculo e recupera outra parte importante da trajetória de Elis como intérprete.
O encerramento transforma emoção em reflexão
A apresentação no Rio de Janeiro ganhou um momento adicional de emoção com a interpretação de “Romaria”, composição de Renato Teixeira, lançada em 1977.
Após o bis com “Lança perfume”, sucesso de Rita Lee e Roberto de Carvalho, Maria Rita cantou “Romaria” à capela, sem acompanhamento instrumental. A escolha deu à música uma atmosfera de oração e aproximou ainda mais a artista do público.
O momento também reforçou a dimensão política atribuída ao espetáculo. A obra de Elis Regina esteve frequentemente ligada a interpretações que ultrapassavam o entretenimento, dialogando com questões sociais e com os desafios de seu tempo.
Ao recuperar esse repertório, Maria Rita mantém viva a possibilidade de a música provocar reflexão e mobilizar sentimentos coletivos.
A emoção aumentou com imagens exibidas no telão, incluindo o registro do choro de Antonio Baldini, integrante da banda. A cena aproximou a apresentação de uma experiência familiar, sem apagar sua dimensão artística.
Uma homenagem que reafirma a identidade de Maria Rita
“Redescobrir vol. 2” demonstra que homenagear uma artista de tamanha importância exige mais do que reproduzir canções conhecidas. É necessário compreender a história do repertório, respeitar suas origens e encontrar uma maneira própria de apresentá-lo às novas gerações.
Maria Rita realiza esse movimento ao combinar memória, pesquisa musical e interpretações pessoais. A semelhança natural entre mãe e filha, presente em aspectos da voz e da expressividade, não elimina a individualidade da cantora.
Ao contrário, o contato com o repertório de Elis parece oferecer à artista um espaço para reafirmar sua própria força, sem transformar o espetáculo em uma imitação.
A turnê também recorda a importância de canções que continuam presentes na memória cultural brasileira, como “O bêbado e a equilibrista”, “Maria Maria”, “Ladeira da Preguiça” e “Como nossos pais”.
Quase cinco décadas depois do nascimento de Maria Rita, em 1977, o legado de Elis Regina continua encontrando novas formas de expressão por meio da filha. Em “Redescobrir vol. 2”, essa herança ganha vida no palco, não como uma lembrança distante, mas como uma presença artística que atravessa gerações.
O espetáculo celebra Elis, mas também reafirma Maria Rita como uma intérprete com voz, identidade e trajetória próprias. Ao retornar ao repertório materno com maturidade e intensidade, a cantora mostra que algumas histórias não terminam com a ausência: elas continuam sendo contadas, reinventadas e emocionando o público por meio da música.
















