A atriz e cantora Laila Garin assume um dos desafios mais exigentes de sua carreira ao interpretar Edith Piaf no musical “Piaf – Eu não me arrependo”. Em cartaz no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, o espetáculo mergulha na trajetória de uma das maiores referências da música francesa e transforma em teatro uma vida marcada por talento, perdas, amores, sofrimento e superação.
Com cerca de três horas de duração, a montagem apresenta uma interpretação que combina música e dramaturgia para acompanhar diferentes fases da existência de Piaf. Laila Garin conduz a narrativa com intensidade, explorando tanto a força da cantora nos palcos quanto a fragilidade que atravessou sua vida pessoal. A temporada está prevista para seguir até 1º de novembro.
A produção é realizada pela Aventura, a partir de uma ideia de Sérgio Módena, responsável também pela direção. A dramaturgia original é assinada por Newton Moreno e Alessandro Toller, enquanto a direção musical fica a cargo de Cláudiz Elizeu.
O resultado é um espetáculo que procura ir além da imitação de uma artista consagrada. Em vez de reproduzir apenas os gestos e a voz de Edith Piaf, Laila busca transmitir os conflitos, as emoções e as contradições de uma mulher que transformou experiências dolorosas em interpretações capazes de atravessar gerações.
Uma nova interpretação para uma artista inesquecível
No Brasil, Edith Piaf ficou historicamente associada à atriz Bibi Ferreira, que marcou o teatro nacional com sua interpretação da cantora francesa. Em 25 de maio de 1983, Bibi estreou no Rio de Janeiro o musical “Piaf – A vida de uma estrela da canção”, baseado no texto da dramaturga britânica Pam Gems, traduzido para o português por Millôr Fernandes e dirigido por Flávio Rangel.
O espetáculo alcançou grande repercussão, e algumas de suas canções foram registradas em um álbum ao vivo lançado pela gravadora Som Livre naquele mesmo ano. O trabalho evidenciou a capacidade de Bibi de unir interpretação teatral e canto em uma apresentação de forte intensidade dramática.
A relação da atriz com o repertório de Piaf continuou ao longo das décadas. Em 1992, Bibi estreou um show dedicado às canções da artista francesa e manteve apresentações com esse repertório até 2014.
Agora, Laila Garin abre um novo capítulo dessa ligação entre Edith Piaf e o teatro brasileiro. A atriz baiana, que tem ascendência francesa por parte de pai, apresenta uma abordagem própria, sem apagar a importância das interpretações anteriores.
Sua atuação se destaca pela maneira como articula a presença física, a expressividade e o canto. O desafio não é pequeno: representar uma artista cuja imagem pública está profundamente ligada a uma voz singular e a uma história pessoal repleta de acontecimentos dramáticos.
Uma vida construída entre dificuldades e aplausos
Nascida em Paris, em 19 de dezembro de 1915, Edith Piaf viveu apenas 47 anos. Apesar da vida relativamente curta, tornou-se uma figura central da canção francesa, reconhecida internacionalmente por interpretações carregadas de emoção.
Sua trajetória foi marcada por uma infância difícil, períodos de instabilidade e apresentações nas ruas, onde cantava em troca de moedas. A vida artística começou a mudar em 1935, quando foi descoberta pelo proprietário de cabaré Louis Leplée, que percebeu seu potencial e lhe abriu as portas para apresentações profissionais.
A partir daí, Piaf começou a construir uma carreira que a levaria dos pequenos espaços de Paris aos palcos internacionais. Seu sucesso, porém, não significou o fim das dificuldades pessoais.
O musical revisita episódios de sua trajetória, incluindo os ambientes populares em que cresceu, a convivência com artistas itinerantes e as experiências que influenciaram sua formação. A narrativa também aborda relacionamentos afetivos, perdas familiares, consumo excessivo de álcool e dependência de morfina nos últimos anos de vida.
Esses acontecimentos aparecem como partes de uma história complexa, na qual o reconhecimento artístico conviveu com períodos de sofrimento. A montagem destaca a capacidade da cantora de continuar se apresentando mesmo quando enfrentava limitações físicas e emocionais.
A proposta não transforma sua vida em uma sequência simples de vitórias ou tragédias. Em vez disso, procura mostrar como diferentes experiências alimentaram a intensidade que se tornou uma das marcas de sua interpretação musical.
Laila Garin aposta na emoção e na transformação física
Um dos elementos mais expressivos do espetáculo é o trabalho corporal de Laila Garin. A atriz acompanha as mudanças de Piaf ao longo dos anos, explorando posturas, movimentos e sinais de desgaste físico para representar as diferentes etapas da vida da cantora.
A caracterização também contribui para essa transformação. Figurino, maquiagem e presença cênica ajudam a aproximar a personagem do imaginário construído em torno de Piaf, sem fazer da semelhança visual o único recurso da interpretação.
O maior mérito da atuação está na tentativa de compreender a personagem por dentro. A atriz transita entre a mulher vulnerável e a intérprete que encontra na música uma maneira de enfrentar as adversidades. A alternância entre esses estados dá ritmo à narrativa e evidencia a tensão entre a vida privada e a imagem pública da artista.
O espetáculo exige concentração e resistência da protagonista, que permanece em cena durante aproximadamente três horas. Ao longo desse percurso, o canto não aparece apenas como acompanhamento da história: ele funciona como parte fundamental da narrativa, revelando sentimentos que nem sempre são expressos por meio das palavras.
Canções que ajudam a contar a história
O repertório musical ocupa papel central na montagem. Entre os momentos destacados está “Milord”, composição associada ao universo de Piaf e apresentada no espetáculo como parte de uma passagem dramática de sua vida.
A canção “La vie en rose”, um dos títulos mais conhecidos da artista, surge em uma adaptação dramatúrgica que relaciona a música à esperança e à resistência durante o período da ocupação nazista na França.
Outro momento importante envolve “Hymne à l’amour”, interpretada em meio à dor provocada pela morte de Marcel Cerdan, pugilista francês que foi um dos grandes amores da cantora. Cerdan morreu em um acidente aéreo em 1949, aos 33 anos. No musical, o personagem é interpretado por Patrick Amstalden.
A montagem também inclui “À quoi ça sert l’amour”, apresentada em dueto com Gabriel Vicente, que interpreta Theo Sarapo, marido de Piaf nos últimos anos de vida. A canção traz uma dimensão mais terna à narrativa, contrastando com os episódios de sofrimento que atravessam a história.
Já “Bravo pour le clown” acompanha momentos de reflexão e memória. A seleção musical permite que o público percorra diferentes estados emocionais, da alegria à tristeza, da paixão à perda.
A direção musical de Cláudiz Elizeu sustenta a integração entre canto e dramaturgia. Interpretadas em francês, as canções preservam a identidade cultural do repertório e exigem da protagonista precisão vocal, domínio técnico e capacidade de transmitir o sentido emocional das letras.
“Non, je ne regrette rien” encerra um mergulho emocional
Entre os momentos mais significativos está a interpretação de “Non, je ne regrette rien”, canção que se tornou um dos maiores símbolos da carreira de Edith Piaf.
A música funciona como uma espécie de balanço de uma existência intensa, atravessada por escolhas, perdas, conquistas e recomeços. No contexto do espetáculo, ela reúne os principais elementos da personagem e conduz a narrativa a um dos seus pontos de maior impacto.
A reação do público ao número final, descrita com aplausos entusiasmados, demonstra a força da combinação entre a música e a interpretação teatral. A canção ganha significado não apenas por sua popularidade, mas também pelo caminho percorrido até aquele momento.
Ao longo da apresentação, Laila Garin constrói uma personagem que não se limita à imagem da grande cantora. A atriz procura revelar a mulher por trás da voz, com suas contradições, sua vulnerabilidade e sua persistência diante das dificuldades.
Musical celebra o legado de Edith Piaf
“Piaf – Eu não me arrependo” reafirma a capacidade do teatro musical de aproximar o público de figuras históricas por meio da música e da interpretação. Ao revisitar a vida de Edith Piaf, a produção apresenta uma história que continua despertando interesse mais de seis décadas após a morte da cantora, em 13 de outubro de 1963.
A montagem também evidencia a continuidade do legado de Piaf no Brasil, onde diferentes artistas encontraram maneiras próprias de interpretar seu repertório. Se Bibi Ferreira estabeleceu uma ligação histórica entre a cantora francesa e o teatro brasileiro, Laila Garin apresenta uma nova leitura dessa trajetória.
Em cena, a música se transforma em memória, e a memória ganha corpo por meio da atuação. O espetáculo convida o público a conhecer não apenas as canções que consagraram Piaf, mas também os episódios humanos que ajudam a compreender a intensidade de sua arte.
O musical permanece em cartaz no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, até 1º de novembro. Para os admiradores da música francesa e do teatro, a produção oferece a oportunidade de acompanhar uma interpretação dedicada a uma artista cuja voz continua atravessando gerações e fronteiras.
















