A inteligência artificial está transformando o mercado de trabalho e despertando o interesse de milhares de estudantes brasileiros. O avanço de ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e análises de dados fez crescer a procura por profissionais especializados na tecnologia. Nesse cenário, a graduação em inteligência artificial (IA) ganha espaço nas universidades e passa a ser considerada uma opção para quem deseja construir uma carreira em um dos setores mais promissores da economia digital.

Um dos exemplos dessa nova geração de profissionais é Heloisy Rodrigues, que concluiu, em 2023, o curso de inteligência artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ela foi apresentada como a primeira mulher a se formar nessa graduação em uma instituição pública brasileira, em uma área que ainda estava dando seus primeiros passos no ensino superior.

A experiência de Heloisy ajuda a mostrar que estudar IA vai muito além de aprender a utilizar o ChatGPT ou experimentar ferramentas que geram imagens. Durante a faculdade, os estudantes entram em contato com disciplinas como cálculo, estatística, álgebra linear, programação, algoritmos, engenharia de dados, psicologia, finanças e empreendedorismo.

“Na matrícula, até os professores perguntavam se tínhamos certeza. Éramos realmente cobaias”, contou Heloisy ao recordar o início da graduação. Segundo ela, a novidade despertava dúvidas, mas também a percepção de que a tecnologia poderia abrir caminhos profissionais importantes.

Número de graduações em inteligência artificial aumenta

A expansão do setor começa a aparecer também nas universidades brasileiras. De acordo com um levantamento divulgado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o país já conta com 76 bacharelados em inteligência artificial. Desse total, 44% são oferecidos por instituições públicas, enquanto 85,5% funcionam na modalidade presencial.

O crescimento acompanha a procura das empresas por profissionais capazes de desenvolver, implementar e avaliar soluções tecnológicas. A expectativa de bons salários também contribui para atrair estudantes. Uma pesquisa do LinkedIn citada no levantamento aponta remunerações que podem chegar a R$ 32 mil em determinadas posições da área em 2026. Esse valor, porém, não representa o salário inicial nem uma garantia de remuneração para todos os formados: os ganhos variam conforme a função, a experiência, a empresa e as competências do profissional.

A concorrência pelas vagas também chama a atenção. Na UFG, a nota de corte mais alta da ampla concorrência no Sisu 2026 foi registrada na graduação em inteligência artificial, chegando a 846,72 pontos, acima da pontuação de corte de medicina na instituição.

Os números indicam que a área deixou de ser apenas uma aposta acadêmica e passou a despertar interesse concreto entre candidatos que buscam oportunidades no mercado de tecnologia.

O que se aprende em uma faculdade de IA?

Apesar da associação popular entre inteligência artificial e comandos digitados em plataformas digitais, a formação universitária tem uma base científica e matemática consistente. O objetivo não é somente ensinar a utilizar ferramentas existentes, mas preparar o estudante para compreender como elas funcionam, desenvolver novos sistemas e identificar suas limitações.

A grade curricular costuma reunir diferentes áreas do conhecimento.

Matemática e lógica: disciplinas como cálculo, álgebra linear, geometria analítica, estatística e probabilidade ajudam o estudante a compreender os modelos matemáticos utilizados pelos sistemas inteligentes.

Programação e ciência de dados: o aluno aprende linguagens de programação, algoritmos, estruturas de dados, bancos de dados, engenharia de dados, sistemas operacionais e fundamentos de segurança digital.

Especialização em inteligência artificial: nessa etapa aparecem conteúdos como aprendizado de máquina (machine learning), aprendizado profundo (deep learning), redes neurais, processamento de linguagem natural e visão computacional, utilizada na análise de imagens e vídeos.

Ética e ciências humanas: os cursos também abordam legislação, responsabilidade social, impactos econômicos e psicológicos da tecnologia e a relação entre pessoas e sistemas automatizados.

Inovação e negócios: empreendedorismo, gestão de projetos, inteligência de negócios e desenvolvimento de soluções para empresas podem integrar a formação.

A combinação dessas disciplinas busca preparar profissionais capazes de trabalhar tanto na parte técnica quanto na aplicação prática da tecnologia em diferentes setores.

O conhecimento fica ultrapassado rapidamente?

Uma das principais dúvidas de quem considera ingressar na graduação é se o conteúdo continuará relevante diante da velocidade com que novas ferramentas são lançadas.

Para o cientista Silvio Meira, presidente do Conselho do Porto Digital, é necessário distinguir a alfabetização em inteligência artificial da formação universitária. Aprender a utilizar ferramentas como o ChatGPT pode ajudar em tarefas cotidianas, mas um bacharelado exige compreender os fundamentos que permitem criar e aperfeiçoar essas tecnologias.

A diferença é importante porque plataformas e recursos específicos podem mudar rapidamente. Já conceitos matemáticos, algoritmos e princípios da computação continuam servindo de base para o desenvolvimento de novas soluções.

Por isso, uma formação concentrada apenas no uso de ferramentas atuais corre o risco de perder relevância em pouco tempo. A faculdade precisa desenvolver no estudante a capacidade de aprender continuamente, avaliar novas tecnologias e resolver problemas mesmo quando os recursos disponíveis mudam.

Qual é a diferença entre IA, ciência da computação e cursos rápidos?

A graduação em inteligência artificial tem uma relação direta com a ciência da computação, mas direciona maior atenção aos métodos de aprendizado de máquina, ao processamento de dados e ao desenvolvimento de sistemas inteligentes.

Cursos como ciência da computação, engenharia da computação e sistemas de informação também permitem seguir carreira no setor tecnológico. A diferença está na distribuição das disciplinas e no foco da formação. Enquanto cursos mais abrangentes exploram diferentes dimensões da computação, o bacharelado em IA dedica espaço maior às técnicas e aos fundamentos específicos da inteligência artificial.

Os cursos livres, por sua vez, costumam atender a objetivos mais imediatos, como aprender a utilizar uma ferramenta, automatizar tarefas ou aplicar IA em atividades profissionais. São alternativas úteis para quem deseja adquirir uma habilidade pontual, mas não substituem a profundidade de uma graduação.

Também existem cursos superiores de tecnologia, conhecidos como tecnólogos, geralmente mais curtos e orientados à prática profissional. O bacharelado costuma durar de quatro a cinco anos, enquanto a duração do tecnólogo varia conforme a instituição e o projeto pedagógico, frequentemente ficando entre dois e três anos.

Ambas as modalidades podem oferecer diploma de nível superior, desde que sejam cursos reconhecidos e regulares. A escolha depende dos objetivos do estudante: uma formação mais rápida e aplicada pode atender a algumas carreiras, enquanto uma base teórica aprofundada pode favorecer quem pretende desenvolver modelos, pesquisar ou trabalhar em projetos complexos.

Por que a ética faz parte da formação?

Sistemas de inteligência artificial podem contribuir para solucionar problemas, mas também podem reproduzir preconceitos, expor informações pessoais, gerar conteúdos enganosos ou produzir decisões injustas quando são mal desenvolvidos ou utilizados sem supervisão adequada.

Por isso, as universidades procuram preparar os alunos para avaliar não apenas se uma tecnologia funciona, mas também quais consequências ela pode provocar.

O professor Leonardo Tomazeli, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destaca a importância de estudar os aspectos técnicos e o uso ético e responsável dessas ferramentas. A instituição prevê oferecer a graduação em inteligência artificial a partir do próximo vestibular, conforme as informações apresentadas na reportagem de origem.

A formação pode incluir debates sobre segurança, custos de implementação, impactos sociais e interação entre seres humanos e máquinas. A proposta é desenvolver profissionais capazes de reconhecer riscos e buscar maneiras de reduzi-los.

Onde o profissional pode trabalhar?

A inteligência artificial pode ser aplicada em diferentes atividades econômicas. Na saúde, por exemplo, sistemas podem auxiliar na análise de exames e na identificação de padrões em grandes conjuntos de dados. Essas ferramentas, entretanto, precisam de avaliação e supervisão adequadas, especialmente quando envolvem decisões clínicas.

No setor empresarial, profissionais podem desenvolver sistemas de recomendação, automatizar processos, criar assistentes virtuais e analisar informações para apoiar decisões. Em cidades e órgãos públicos, a tecnologia pode contribuir para melhorar serviços, organizar dados e planejar políticas, desde que sejam respeitadas as regras de transparência, segurança e proteção de dados.

Também existem oportunidades em pesquisa, desenvolvimento de produtos digitais, robótica, visão computacional, segurança da informação e consultoria tecnológica.

Para Heloisy Rodrigues, uma das vantagens da profissão é a possibilidade de trabalhar com empresas de outros países sem necessariamente deixar o Brasil. Ela destaca que profissionais com as competências adequadas podem acessar oportunidades internacionais e, em alguns casos, receber em moeda estrangeira. Isso depende, porém, do nível de experiência, do domínio de idiomas e das exigências de cada vaga.

É preciso gostar de matemática para cursar IA?

Embora a área também exija criatividade, comunicação e capacidade de trabalhar em equipe, a matemática ocupa um lugar central na formação. Estudantes que têm interesse por tecnologia, raciocínio lógico, resolução de problemas e análise de dados podem encontrar afinidade com o curso.

A professora Ana Carolina Carius, do IBMEC, ressalta a importância da matemática, incluindo cálculo, álgebra linear e matrizes. O domínio desses conteúdos ajuda a compreender os modelos utilizados para treinar sistemas inteligentes, em vez de depender exclusivamente de ferramentas automatizadas para escrever códigos.

Isso não significa que o candidato precise chegar à universidade sabendo tudo. A graduação existe justamente para desenvolver conhecimentos. Entretanto, estar disposto a estudar disciplinas quantitativas e praticar programação pode fazer diferença durante o percurso acadêmico.

Quanto custa estudar inteligência artificial?

Nas instituições privadas, os valores podem representar um investimento significativo. Entre os exemplos apresentados na reportagem estão mensalidades de aproximadamente R$ 5.700 no IBMEC-SP, R$ 3.950 no Instituto Mauá de Tecnologia e R$ 2.800 na PUC-SP. Os preços podem variar conforme o campus, o período, os reajustes e as condições comerciais de cada instituição, por isso é importante confirmar os valores diretamente com as universidades.

Quem procura uma alternativa gratuita pode considerar as instituições públicas que oferecem cursos na área. Entre os exemplos estão a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de outras universidades estaduais e federais.

A oferta, os critérios de ingresso e a disponibilidade de vagas devem ser consultados nos editais oficiais de cada instituição.

Vale a pena fazer faculdade de inteligência artificial?

A expansão das graduações mostra que a inteligência artificial está conquistando espaço na educação superior brasileira. Ainda assim, escolher esse caminho exige avaliar mais do que as promessas de salários elevados ou a popularidade das ferramentas digitais.

O estudante precisa considerar o interesse por matemática, programação, pesquisa e resolução de problemas, além do tempo e do investimento necessários para concluir a formação. Também é importante entender que o diploma, sozinho, não garante emprego ou remuneração alta: projetos práticos, estágios, atualização profissional, comunicação e experiência continuam sendo diferenciais relevantes.

Para quem deseja compreender a tecnologia em profundidade e participar da criação de soluções, a graduação pode abrir portas para uma carreira diversificada. Já quem precisa aprender uma ferramenta específica ou aplicar IA em uma atividade profissional pode começar por cursos de curta duração.

Em um mercado que muda rapidamente, a formação mais valiosa será aquela que combina conhecimento técnico, pensamento crítico, responsabilidade e disposição para continuar aprendendo. Afinal, mais do que utilizar a inteligência artificial, o desafio dos profissionais do futuro será entender como desenvolvê-la e empregá-la de maneira segura, eficiente e útil para a sociedade.