Um levantamento sobre o financiamento das campanhas presidenciais de 2026 identificou diferenças significativas entre os grupos de pessoas físicas que contribuíram para as candidaturas de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo dados divulgados pelo g1, aproximadamente 34,8% dos doadores de Flávio também haviam contribuído financeiramente para a campanha de seu pai, Jair Bolsonaro, nas eleições de 2022. No caso de Lula, oito pessoas que financiaram sua candidatura em 2022 voltaram a contribuir em 2026, o equivalente a cerca de 1,4% dos doadores registrados na campanha atual.

Os números mostram que parte dos financiadores mantém apoio financeiro a candidatos de um mesmo campo político ao longo de diferentes eleições. Entretanto, os perfis dos doadores recorrentes e os valores registrados apresentam diferenças entre as duas campanhas.

O levantamento foi realizado com base nas informações disponíveis no sistema DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os registros consultados fazem parte das prestações de contas eleitorais, que ainda eram parciais no momento da análise. Portanto, os números podem sofrer alterações à medida que novas informações forem encaminhadas à Justiça Eleitoral.

Flávio Bolsonaro recebeu recursos de 161 doadores que também financiaram Jair

De acordo com os dados reunidos pelo g1, Flávio Bolsonaro havia recebido doações diretas de 462 pessoas físicas. Desse total, 161 também contribuíram para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022.

A proporção representa aproximadamente um terço dos financiadores individuais da campanha de Flávio em 2026. Na eleição anterior, Jair Bolsonaro recebeu recursos de mais de 392 mil pessoas, mas acabou derrotado por Lula na disputa presidencial.

Entre os doadores que aparecem nas duas campanhas estão empresários, dirigentes de grandes companhias, produtores rurais e representantes de setores ligados ao agronegócio. Alguns dos repasses registrados em 2026 alcançaram centenas de milhares de reais, chegando a R$ 1 milhão em determinados casos.

O levantamento identificou 19 doadores recorrentes que contribuíram com mais de R$ 100 mil para a campanha de Flávio. Desse grupo, 13 realizaram os repasses depois do primeiro turno, ocorrido em 4 de outubro, conforme os registros consultados.

A concentração de contribuições elevadas em um grupo de empresários e representantes do setor produtivo é um dos aspectos destacados pela análise. Os dados, contudo, não permitem concluir, por si só, quais interesses específicos motivaram cada doação.

Empresários aparecem entre os maiores financiadores

Entre os nomes identificados estão Alexandre Grendene Bartelle, cofundador da fabricante de calçados Grendene; Fernando de Castro Marques, presidente da farmacêutica União Química; e Gilson Lari Trennepohl, ligado à empresa de máquinas agrícolas Stara.

Alexandre Grendene Bartelle contribuiu com R$ 1 milhão para a campanha de Flávio em 2026 e havia doado o mesmo valor para Jair Bolsonaro em 2022. O repasse mais recente foi registrado depois do primeiro turno.

Fernando de Castro Marques destinou R$ 500 mil à campanha de Flávio, enquanto sua contribuição para Jair Bolsonaro em 2022 foi de R$ 12 mil. Nesse caso, o registro da doação de 2026 ocorreu antes do primeiro turno.

Já Gilson Lari Trennepohl contribuiu com R$ 500 mil para Flávio e R$ 350 mil para a campanha de Jair Bolsonaro quatro anos antes. O repasse mais recente também foi realizado depois da primeira etapa da votação.

Outro nome citado é Walter Schlatter, prefeito de Chapadão do Sul, em Mato Grosso do Sul. Ele contribuiu com R$ 300 mil para Flávio e R$ 100 mil para Jair Bolsonaro em 2022, segundo os dados apresentados no levantamento.

Também aparecem na relação empresários ligados ao mercado imobiliário, à indústria automotiva, à produção agrícola e ao comércio.

Jose Mikhael Maluf Neto, por exemplo, doou R$ 250 mil para Flávio e R$ 200 mil para Jair Bolsonaro. Fernando Haruo Takahashi Fuziy, ligado ao setor de incorporação imobiliária, contribuiu com R$ 250 mil para a campanha de 2026 e R$ 100 mil para a anterior.

Marcony Sobral Mendonça, dirigente da rede de concessionárias Italiana Automóveis, registrou contribuições de R$ 222 mil para Flávio e R$ 101 mil para Jair.

A lista inclui ainda empresários e produtores rurais como Romeu Froelich, Paulo Rogério de Morais Machado, Paulo Maximiano Junqueira Neto, Gervasio Zanella, Marcos Wurzius e Sergio Cardoso de Almeida Filho.

Os valores individuais variam de acordo com cada financiador. Em alguns casos, as contribuições permaneceram semelhantes entre as duas eleições; em outros, houve aumento ou redução expressiva.

Essas informações permitem acompanhar a origem declarada de parte dos recursos das campanhas, mas não significam, automaticamente, que os doadores tenham recebido contrapartidas ou participado de decisões políticas em razão das contribuições.

Lula teve oito doadores recorrentes

Na campanha de Lula, o levantamento identificou oito pessoas físicas que também haviam contribuído para sua candidatura em 2022. Em 2026, o petista tinha recebido doações diretas de 571 pessoas físicas, enquanto, na eleição anterior, havia contado com 139 doadores individuais.

A proporção de financiadores recorrentes foi, portanto, de aproximadamente 1,4% entre os doadores registrados na campanha atual.

Diferentemente da lista de grandes contribuições identificada na campanha de Flávio, os oito nomes relacionados à candidatura de Lula incluem pessoas com vínculos com o governo federal, ex-integrantes de administrações anteriores e representantes ligados à estrutura partidária e à administração pública.

Entre eles estão Miriam Belchior, ministra da Casa Civil; Aloizio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); e Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais.

Miriam Belchior contribuiu com aproximadamente R$ 27,9 mil em 2026, após ter doado R$ 7 mil em 2022. Aloizio Mercadante registrou uma contribuição de R$ 20 mil na campanha atual e de R$ 24,7 mil na eleição anterior.

Celso Amorim, por sua vez, doou R$ 2 mil em 2026, ante R$ 4,9 mil em 2022. O repasse mais recente foi registrado depois do primeiro turno.

A relação também inclui Ideli Salvatti, ex-senadora e ex-ministra; Paulo Bernardo Silva, que ocupou ministérios em governos anteriores; e Marcio Tavares dos Santos, secretário executivo do Ministério da Cultura.

Outros nomes são Luis Alberto de Mendonça Sabanay, dirigente nacional do PT em Santa Catarina, e João Cláudio Basso Pompeu, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

As contribuições registradas para a campanha de Lula variam de aproximadamente R$ 1 mil a R$ 27,9 mil. Alguns registros correspondem à prestação de serviços, e não necessariamente a transferências financeiras em dinheiro.

Como funcionam as doações eleitorais no Brasil?

A legislação brasileira permite que pessoas físicas contribuam financeiramente para candidaturas e partidos políticos, desde que sejam respeitadas as regras eleitorais. As contribuições devem ser identificadas e registradas, permitindo o acompanhamento pela Justiça Eleitoral.

As doações realizadas diretamente por empresas são proibidas no financiamento eleitoral brasileiro.

Também existem mecanismos de financiamento coletivo pela internet, conhecidos como vaquinhas eleitorais. Esses valores podem aparecer de maneira agrupada nos registros, em nome das empresas responsáveis pela intermediação, o que impede a identificação individual de todos os apoiadores apenas por esse tipo de registro.

Por esse motivo, o levantamento do g1 não incluiu os valores arrecadados por meio dessas plataformas na contagem de doadores recorrentes.

As prestações de contas eleitorais também podem incluir recursos estimáveis em dinheiro, como serviços oferecidos às campanhas. Nesses casos, o valor declarado corresponde ao serviço prestado, e não necessariamente a uma transferência bancária.

A análise das informações exige, portanto, atenção às diferenças entre doações financeiras diretas, serviços declarados e valores provenientes de financiamento coletivo.

Prestação de contas ainda pode ser atualizada

Os dados apresentados refletem os registros disponíveis no momento da consulta e não representam necessariamente o balanço definitivo das campanhas presidenciais de 2026.

Conforme o calendário informado no levantamento, a prestação de contas referente ao primeiro turno deveria ser encaminhada à Justiça Eleitoral até 3 de novembro. As informações relativas ao segundo turno poderiam ser apresentadas entre 26 de outubro e 14 de novembro.

Com a atualização dos registros, os números de doadores e os valores arrecadados podem mudar.

A comparação entre as eleições de 2022 e 2026 oferece um retrato de como parte dos financiadores individuais se relaciona com diferentes candidaturas ao longo do tempo. No caso de Flávio Bolsonaro, os dados mostram uma parcela expressiva de pessoas que já haviam contribuído para Jair Bolsonaro. Na campanha de Lula, a recorrência identificada foi menor em termos proporcionais.

Os números também revelam diferenças entre os perfis dos nomes relacionados nas duas listas, mas não permitem, isoladamente, medir o grau de apoio popular a cada candidato nem explicar as motivações individuais dos financiadores.

O acompanhamento das prestações de contas continua sendo uma ferramenta importante para a transparência eleitoral. Ao permitir a consulta pública dos valores e da identificação dos doadores, os registros do TSE ajudam eleitores, jornalistas e pesquisadores a compreender melhor como as campanhas presidenciais são financiadas no Brasil.