Quase nove em cada dez alegações sobre saúde verificadas pela Agência Lupa entre 2017 e junho de 2026 foram classificadas como falsas. O dado faz parte do relatório Raio-X da Desinformação em Saúde, produzido pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da agência, com patrocínio da Afya. O estudo revela como informações enganosas continuam circulando na internet, mesmo depois da fase mais intensa da pandemia de Covid-19, e mostra que a desinformação passou a explorar novos temas, formatos e estratégias para conquistar a confiança do público.
Ao todo, foram examinadas 764 alegações, extraídas de 498 verificações de conteúdos virais ou potencialmente virais. Desse conjunto, 667 afirmações, o equivalente a 87,3%, receberam a classificação de falsas. Apenas 26, correspondentes a 3,4%, foram consideradas verdadeiras.
Os números chamam a atenção, mas precisam ser interpretados corretamente: o percentual representa exclusivamente os conteúdos selecionados e checados pela Agência Lupa. Portanto, não significa que 87,3% de todas as publicações sobre saúde existentes na internet sejam falsas. O levantamento mostra, especificamente, o resultado da amostra analisada pela equipe de checagem.
Falsa autoridade médica é uma das principais estratégias
Entre os mecanismos utilizados para tornar informações enganosas mais convincentes, o uso de falsa autoridade médica ou científica apareceu com destaque. Essa estratégia esteve presente em 21,6% das alegações falsas analisadas.
Na prática, isso acontece quando publicações atribuem declarações inventadas a médicos, pesquisadores ou instituições reconhecidas. Também ocorre quando uma fala verdadeira é retirada de seu contexto original e apresentada de maneira diferente, fazendo parecer que um profissional defende determinado tratamento ou produto quando, na realidade, não fez aquela recomendação.
A utilização de nomes conhecidos é uma forma de conquistar a confiança de quem recebe a mensagem. Muitas pessoas tendem a acreditar em uma informação quando ela aparece acompanhada da imagem de um médico, de uma suposta pesquisa científica ou de uma instituição de saúde.
O problema é que fotografias, vídeos e declarações podem ser manipulados ou reutilizados sem autorização. Com isso, conteúdos sem comprovação passam a circular com aparência de orientação profissional.
Medo e alarmismo ganharam força nas publicações recentes
Outro resultado importante está relacionado à exploração do medo. Entre 2025 e junho de 2026, essa estratégia apareceu em 33,8% das alegações falsas analisadas, alcançando sua maior participação proporcional entre os períodos considerados pelo relatório.
Mensagens alarmistas costumam apresentar situações cotidianas como ameaças graves à saúde, anunciar supostos perigos sem evidências ou afirmar que determinado produto provoca doenças. Em muitos casos, o conteúdo tenta provocar preocupação imediata e convencer o leitor a compartilhar a publicação ou comprar uma solução apresentada como indispensável.
Esse tipo de abordagem pode ser especialmente prejudicial quando envolve pessoas que estão enfrentando doenças, procurando tratamentos ou cuidando de familiares. O medo pode levar alguém a abandonar uma orientação médica, desconfiar de medidas preventivas ou gastar dinheiro com produtos que prometem resultados não comprovados.
A desinformação também pode criar uma falsa sensação de urgência, dificultando que o público procure fontes confiáveis antes de tomar decisões.
Da Covid-19 às promessas de desintoxicação das vacinas
A pandemia de Covid-19 representou um marco na circulação de informações falsas sobre saúde. Durante aquele período, a doença passou a dominar as verificações realizadas pela Agência Lupa, com conteúdos envolvendo prevenção, tratamentos, medicamentos e vacinação.
Nos anos seguintes, os assuntos mudaram, mas as estratégias de desinformação permaneceram. Ganharam espaço publicações que afirmavam, sem comprovação científica, que as vacinas deixariam substâncias prejudiciais no organismo e que seria necessário realizar uma espécie de “desintoxicação” para eliminar supostos resíduos dos imunizantes.
Também passaram a circular com frequência conteúdos relacionados a diabetes, câncer, nutrição e outras condições de saúde. Algumas publicações atribuíam propriedades milagrosas a alimentos, suplementos e receitas caseiras, apresentando esses recursos como alternativas capazes de prevenir ou tratar doenças graves.
O relatório mostra que a mudança dos temas não representou o desaparecimento das informações falsas sobre vacinação. O assunto continuou entre os principais alvos das publicações enganosas.
Vacinas continuam entre os principais alvos
Das 244 alegações relacionadas a imunizantes examinadas durante todo o período, 212 foram classificadas como falsas. Isso corresponde a 86,9% das afirmações sobre vacinas incluídas na análise.
O resultado reforça a permanência de narrativas que questionam a segurança e a eficácia dos imunizantes por meio de informações distorcidas ou sem comprovação.
A circulação desse tipo de conteúdo pode comprometer a confiança da população nas campanhas de vacinação e dificultar o trabalho dos profissionais de saúde. Quando uma pessoa acredita em uma informação falsa, pode deixar de procurar uma unidade de saúde, adiar uma dose recomendada ou desencorajar familiares a manterem a caderneta de vacinação atualizada.
Por isso, especialistas defendem que dúvidas sobre imunizantes sejam esclarecidas com base em evidências científicas e orientações de profissionais habilitados, e não em vídeos anônimos ou mensagens encaminhadas sem identificação de origem.
Desinformação também pode funcionar como estratégia comercial
O levantamento identificou ainda verificações relacionadas ao uso comercial da desinformação em saúde. Foram 18 casos associados a esse tipo de prática, e em 17 deles o conteúdo direcionava o público à compra de algum produto ou serviço.
Esse dado revela uma dimensão econômica do problema. Em determinadas situações, a informação enganosa não busca apenas convencer o público de uma teoria: ela também pode funcionar como ferramenta para vender suplementos, tratamentos, fórmulas e outros produtos.
A estratégia costuma apresentar um problema de saúde, criar preocupação e, em seguida, oferecer uma solução supostamente rápida ou milagrosa. O consumidor pode ser levado a acreditar que está adquirindo um recurso indispensável para proteger a própria saúde.
A situação exige atenção porque nem toda publicidade utiliza evidências confiáveis. Produtos anunciados com promessas de prevenir, tratar ou curar doenças precisam ser avaliados com cuidado, respeitando as regras sanitárias e as comprovações exigidas para cada categoria.
WhatsApp e vídeos ampliam os desafios da checagem
A circulação das informações também ocorre em diferentes plataformas e formatos. O WhatsApp aparece em mais de 70% das verificações consideradas pelo levantamento, enquanto Facebook e Instagram também estão entre os ambientes identificados.
Isso não significa, necessariamente, que o WhatsApp concentre a maior quantidade de desinformação sobre saúde na internet. O dado descreve a presença do aplicativo nos conteúdos analisados pela agência e precisa ser interpretado dentro dos limites da metodologia utilizada.
O estudo também chama atenção para a combinação de textos, imagens e vídeos. Uma fotografia verdadeira pode ser acompanhada de uma legenda falsa; uma gravação antiga pode ser apresentada como se mostrasse um acontecimento recente; e um vídeo manipulado pode simular a declaração de um profissional de saúde.
Com o avanço das ferramentas de inteligência artificial, a produção de conteúdos falsos ganhou novas possibilidades. Imagens e vozes podem ser manipuladas para criar declarações que parecem autênticas, aumentando a dificuldade de identificação por parte de quem recebe a mensagem.
Como evitar cair em informações falsas sobre saúde?
Diante desse cenário, alguns cuidados podem ajudar a população a reconhecer conteúdos suspeitos. O primeiro é verificar quem publicou a informação e se existe identificação clara da fonte. Também é importante procurar a declaração original de médicos e pesquisadores, consultar instituições de saúde reconhecidas e observar se a publicação apresenta estudos científicos que realmente sustentem suas afirmações.
Promessas de cura rápida, resultados garantidos e tratamentos apresentados como capazes de resolver diferentes doenças devem ser encarados com cautela. Outro sinal de alerta são mensagens que incentivam o abandono de medicamentos ou recomendam substituir tratamentos prescritos por receitas sem comprovação.
Antes de compartilhar uma informação, vale conferir se ela foi publicada por veículos de comunicação confiáveis ou analisada por agências especializadas em checagem.
O relatório do Observatório Lupa mostra que a desinformação em saúde continua sendo um desafio para a sociedade. Mais do que números, os resultados representam um alerta sobre os riscos de decisões tomadas com base em informações falsas.
Em um ambiente digital no qual conteúdos circulam rapidamente, verificar a origem de uma mensagem pode fazer diferença. Quando o assunto é saúde, uma informação compartilhada sem responsabilidade pode ultrapassar a tela do celular e influenciar escolhas que afetam diretamente a vida das pessoas.
















