Levantamento revela dificuldades de socialização entre estudantes brasileiros e mostra que programas de educação socioemocional ajudam a reduzir o isolamento e fortalecer o sentimento de pertencimento.
Uma pesquisa inédita realizada pela Arco Educação trouxe à tona um retrato preocupante sobre a saúde social de adolescentes brasileiros. O estudo revelou que um em cada cinco estudantes afirma recorrer regularmente a ferramentas de inteligência artificial quando se sente sozinho ou precisa conversar, transformando a tecnologia em uma espécie de companhia diante da dificuldade de estabelecer conexões interpessoais.
O levantamento ouviu 936 alunos do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio em escolas parceiras da instituição nas cinco regiões do país. A pesquisa analisou aspectos relacionados à solidão, pertencimento, amizades e relações sociais dentro do ambiente escolar.
Os resultados mostram que a dificuldade de socialização tem sido uma realidade para muitos jovens. Mais da metade dos estudantes entrevistados (52%) afirmou ter alguma ou muita dificuldade para fazer novos amigos, enquanto 17% relataram sentir solidão com frequência.
Ao comparar os dados com a Escala de Solidão da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), uma das principais referências internacionais sobre o tema, os estudantes brasileiros apresentaram índices próximos ao nível considerado de solidão moderadamente alta.
Um dos números que mais chamou atenção dos pesquisadores foi o relacionado à ampliação dos círculos de amizade. Cerca de 28,7% dos participantes disseram enfrentar constantemente dificuldades para conhecer novas pessoas e construir novos vínculos, percentual superior às referências observadas em estudos internacionais.
Meninas apresentam índices mais elevados de isolamento
A pesquisa também identificou diferenças importantes entre os grupos analisados. As meninas registraram maiores níveis de dificuldade para criar amizades e maior sensação de distanciamento social.
Entre elas, 23,8% afirmaram utilizar inteligência artificial para lidar com sentimentos de solidão, quase o dobro do percentual registrado entre os meninos, que ficou em 12,3%.
Outro dado que despertou atenção foi o resultado entre os estudantes que preferiram não declarar gênero, representando 4,9% da amostra. Nesse grupo, metade relatou esperar que outras pessoas tomem a iniciativa de aproximação, enquanto 39% afirmaram sentir solidão frequentemente. Apenas 28% disseram sentir-se queridos pelas pessoas ao redor.
Ensino Médio aparece como fase mais sensível
Segundo os pesquisadores, a solidão na adolescência não está necessariamente associada à falta de amigos, mas à dificuldade de construir, aprofundar e manter relações significativas.
O estudo aponta ainda que a transição para o Ensino Médio pode representar um momento especialmente delicado. O índice de estudantes que relatam solidão frequente sobe de 16% nos anos finais do Ensino Fundamental para 25,7% entre os alunos do Ensino Médio.
A pressão acadêmica, as mudanças de rotina e as incertezas sobre o futuro são fatores que podem contribuir para o aumento desse sentimento durante essa etapa da vida escolar.
Outro dado preocupante mostra que 32% dos estudantes sentem que as pessoas raramente ou nunca demonstram interesse pelo que eles têm a dizer. Para os especialistas, esse resultado evidencia uma carência de escuta ativa e validação emocional, tanto entre colegas quanto nas relações com adultos.
Respeito entre colegas surge como fator positivo
Apesar dos desafios, a pesquisa também trouxe sinais positivos. Cerca de 65% dos entrevistados afirmaram ser tratados com respeito e gentileza pelos colegas na maior parte do tempo ou sempre.
Os pesquisadores destacam que ambientes escolares acolhedores e respeitosos podem desempenhar papel fundamental na prevenção do isolamento social e no fortalecimento dos vínculos interpessoais.
Educação socioemocional ajuda a combater o isolamento
O estudo também identificou resultados positivos em escolas que desenvolvem programas estruturados de educação socioemocional.
Nessas instituições, a sensação de não pertencimento foi 5,3 pontos percentuais menor em comparação às escolas sem esse tipo de iniciativa. Além disso, o índice de solidão frequente apresentou redução de 2,8 pontos percentuais.
Já os colégios que não adotam programas voltados ao desenvolvimento socioemocional registraram os maiores índices de isolamento e também a maior procura pela inteligência artificial como forma de apoio social.
Para os responsáveis pelo levantamento, o fortalecimento das competências socioemocionais deve ser tratado como prioridade dentro das escolas. Eles defendem a criação de espaços seguros de diálogo, convivência e escuta, capazes de promover relações mais saudáveis e ajudar os jovens a enfrentar os desafios emocionais de uma sociedade cada vez mais conectada digitalmente.
Com nível de confiança de 95% e margem de erro de 3,2 pontos percentuais, a pesquisa reforça a necessidade de olhar com atenção para a saúde emocional dos adolescentes e para a qualidade das conexões humanas em uma era marcada pelo avanço acelerado da tecnologia.












