Os avanços da medicina têm proporcionado tratamentos cada vez mais eficazes, aumentando as chances de cura e melhorando a qualidade de vida de milhões de pessoas. No entanto, entre a publicação de uma descoberta científica e sua aplicação no atendimento aos pacientes existe um longo caminho, que pode levar de cinco a dez anos, segundo especialistas da área da cardiologia.
Embora novas pesquisas sejam divulgadas constantemente, nem todas possuem evidências suficientes para alterar a prática médica. Antes de serem incorporadas ao dia a dia dos hospitais e consultórios, as descobertas passam por um rigoroso processo de avaliação científica.
Evidência científica precisa ser comprovada na prática
O coordenador de Cardiologia da Rede D’Or em São Paulo (regional Oeste), Fábio Augusto De Luca, explica que a adoção de uma nova conduta médica não depende apenas da publicação de um estudo.
Segundo ele, é necessário acompanhar se aquela estratégia realmente reduz a mortalidade, diminui complicações, evita novas internações e melhora a qualidade de vida dos pacientes.
“Não basta adotar uma conduta nova. É preciso acompanhar se ela está de fato reduzindo mortalidade, complicações e reinternações ou melhorando a qualidade de vida. Quando o médico se mantém atualizado, a instituição estrutura protocolos e os resultados são monitorados, a evidência científica deixa de ser apenas um artigo e se transforma em um paciente melhor cuidado”, afirma.
Nem toda pesquisa muda a prática médica
De Luca destaca que diferentes tipos de estudos possuem níveis distintos de confiabilidade. Ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e meta-análises são considerados os mais robustos e servem de base para a elaboração das diretrizes médicas.
Após essa análise, sociedades científicas e instituições de saúde avaliam os resultados e definem quando uma nova evidência deve ser incorporada aos protocolos clínicos.
Mudar hábitos também é um desafio
A chefe de Cardiologia do Hospital Copa D’Or, Jacqueline Miranda, ressalta que um dos maiores obstáculos é transformar o conhecimento científico em mudanças efetivas na rotina dos profissionais de saúde.
Ela explica que existe um fenômeno conhecido como inércia terapêutica, quando o médico conhece as novas evidências, mas encontra dificuldades para modificar práticas já consolidadas.
Segundo a especialista, superar essa resistência é essencial para que os pacientes tenham acesso aos tratamentos mais modernos e eficazes.
Apenas parte das descobertas chega ao paciente
Apesar da grande quantidade de pesquisas produzidas todos os anos, apenas uma pequena parcela consegue reunir evidências suficientes para mudar a prática clínica.
De acordo com os especialistas, uma inovação só passa a fazer parte da rotina médica quando apresenta resultados consistentes, é reproduzida por outros estudos e demonstra que seus benefícios superam claramente os riscos.
Em situações excepcionais, quando uma pesquisa comprova redução significativa na mortalidade ou nas hospitalizações, a adoção da nova conduta pode ocorrer em menos de dois anos. Na maioria dos casos, porém, esse processo leva entre cinco e dez anos.
Congresso discutirá a aplicação das evidências científicas
O tema será um dos principais debates do Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D’Or 2026, que acontecerá entre os dias 6 e 8 de agosto, no Rio de Janeiro.
O evento reunirá especialistas brasileiros e internacionais para discutir como transformar descobertas científicas em protocolos clínicos mais eficientes, garantindo que os avanços da pesquisa se convertam em benefícios reais para os pacientes.














