Uma nova pesquisa científica busca transformar a forma como alimentos alternativos à carne são produzidos. Pesquisadores de universidades da Inglaterra, Estados Unidos e China estão utilizando plantas como alface e tabaco para desenvolver uma proteína vegetal capaz de reproduzir características presentes na carne, como cor, sabor e valor nutricional.
O estudo, publicado na revista científica Frontiers in Plant Science, apresenta uma nova estratégia para reduzir a dependência da proteína animal e criar alternativas mais sustentáveis para a alimentação humana.
Segundo os pesquisadores, a produção tradicional de carne exige grandes áreas de terra, elevado consumo de água e está associada à emissão de gases de efeito estufa, como metano e óxido nitroso, que contribuem para o aquecimento global.
Diante desse cenário, o mercado de alimentos à base de plantas vem crescendo mundialmente, com investimentos bilionários em busca de produtos que ofereçam características semelhantes às da carne convencional.
Plantas modificadas para produzir proteína da carne
Para desenvolver a alternativa vegetal, os cientistas utilizaram técnicas de engenharia genética para inserir genes responsáveis pela produção da mioglobina, uma proteína encontrada nos músculos dos animais vertebrados.
A mioglobina é rica em ferro e tem papel importante nas características que fazem a carne ser reconhecida pelo consumidor, como a coloração avermelhada, o sabor característico e a sensação semelhante ao consumo de produtos de origem animal.
Os pesquisadores clonaram genes de mioglobina suína e bovina e os introduziram nos cloroplastos de mudas de tabaco e alface — estruturas das células vegetais responsáveis pela realização da fotossíntese.
Segundo a doutora Alexia Groff, pesquisadora do Imperial College London, a descoberta mostra que plantas podem ser utilizadas como uma plataforma para produzir proteínas animais importantes para alimentos alternativos.
“As plantas podem ser geneticamente modificadas para produzir a proteína animal mioglobina em seus cloroplastos, as usinas de energia da fotossíntese. Isso poderia fornecer uma maneira mais sustentável de produzir um ingrediente importante para produtos cárneos à base de plantas”, afirmou a pesquisadora.
Resultados apontam potencial da tecnologia
Durante os testes, os cientistas observaram que as plantas modificadas conseguiram incorporar os genes da mioglobina aos seus cloroplastos e continuar seu desenvolvimento normalmente, incluindo crescimento, floração e produção de sementes.
A escolha das espécies utilizadas teve uma razão específica: o tabaco é considerado uma planta eficiente para o desenvolvimento de novas tecnologias agrícolas, enquanto a alface apresenta potencial por ser uma cultura alimentar já consumida pela população.
Os pesquisadores também compararam diferentes formas de inserção genética e identificaram que a utilização dos cloroplastos apresentou resultados superiores em relação à introdução dos genes no núcleo das células vegetais.
Produção ainda é inferior à carne tradicional
As medições realizadas indicaram uma produção aproximada de 800 miligramas de mioglobina por quilo de peso seco no tabaco e 810 miligramas por quilo na alface.
Apesar do avanço, a quantidade ainda é menor do que a encontrada naturalmente na carne animal, que apresenta entre 8,1 e 11,2 miligramas por grama de peso seco.
Mesmo assim, os pesquisadores destacam que a produção vegetal pode apresentar vantagens ambientais, pois utiliza menos recursos naturais e pode alcançar bons resultados de produtividade quando comparada à criação de animais em grandes áreas.
A expectativa é que, no futuro, a tecnologia possa ser aprimorada para permitir a extração e purificação da mioglobina produzida pelas plantas, incorporando o ingrediente em alimentos à base de vegetais para melhorar sabor, aparência e qualidade nutricional.
Ciência busca novas formas de alimentar o futuro
A pesquisa faz parte de um movimento global que busca alternativas para atender à crescente demanda por alimentos, reduzindo impactos ambientais e criando novas possibilidades para a indústria alimentícia.
Embora ainda esteja em fase experimental, o estudo mostra como a combinação entre biotecnologia e agricultura pode abrir caminhos para novos modelos de produção de alimentos mais sustentáveis.














