Ebola pode ter começado a circular na República Democrática do Congo (RDC) semanas ou até meses antes de o governo confirmar oficialmente o surto causado pelo vírus Bundibugyo. A suspeita surgiu a partir da reconstrução da cronologia dos primeiros casos, de relatos sobre mortes com sintomas compatíveis e de análises epidemiológicas e genéticas realizadas após a identificação do surto.

A República Democrática do Congo declarou oficialmente a ocorrência do surto em 15 de maio de 2026, depois que exames realizados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica (INRB), em Kinshasa, confirmaram a presença do vírus Bundibugyo em amostras coletadas de pessoas doentes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que oito das 13 amostras analisadas naquele momento deram resultado positivo.

O epicentro inicial foi identificado na província de Ituri, no nordeste do país, especialmente nas zonas de saúde de Mongbwalu, Rwampara e Bunia. O primeiro caso atualmente conhecido, identificado de forma retrospectiva, foi um profissional de saúde que apresentou sintomas por volta de 24 de abril e morreu posteriormente em um centro médico de Bunia.

A cronologia, porém, sugere que esse paciente pode não ter sido a primeira pessoa infectada.

Primeiro alerta só ocorreu em maio

A OMS recebeu o primeiro alerta sobre uma doença desconhecida com alta mortalidade na região de Mongbwalu em 5 de maio. Naquele momento, já havia registros de mortes e profissionais de saúde estavam entre as vítimas.

De acordo com a organização, quatro trabalhadores da área da saúde morreram em um intervalo de apenas quatro dias durante o período inicial de investigação. Equipes de resposta rápida foram enviadas às regiões de Mongbwalu e Rwampara para tentar compreender a origem dos casos e identificar o agente responsável.

A confirmação laboratorial veio em 15 de maio, quando o governo congolês declarou oficialmente o 17º surto de ebola da história do país.

O intervalo entre o surgimento dos primeiros sintomas conhecidos e a confirmação da doença passou a ser analisado pelas organizações internacionais envolvidas na resposta.

Em relatório publicado em 18 de maio, o Africa CDC apontou uma diferença de aproximadamente quatro semanas entre o início dos sintomas do caso considerado índice e a detecção e confirmação laboratorial. Para a instituição, o atraso indicava baixa suspeita clínica inicial e poderia ter contribuído para uma disseminação geográfica maior antes do início das medidas de contenção.

Relatos de mortes anteriores chamam atenção

A investigação ganhou uma dimensão ainda maior com relatos de que moradores de Mongbwalu já observavam mortes incomuns antes do primeiro caso reconhecido oficialmente.

Informações reunidas por equipes que acompanharam a situação na região indicaram a ocorrência de pessoas com febre intensa, fraqueza, vômitos e outros sintomas que posteriormente seriam associados à doença provocada pelo vírus Bundibugyo.

Esses relatos, no entanto, precisam ser tratados com cautela. Sintomas semelhantes podem aparecer em várias doenças infecciosas comuns na região, e somente testes laboratoriais podem confirmar uma infecção pelo vírus.

Por esse motivo, as mortes ocorridas antes da identificação do surto não podem ser automaticamente contabilizadas como casos de ebola.

Mesmo assim, a existência desses registros tornou-se importante para os pesquisadores que tentam reconstruir a trajetória da transmissão.

Indícios apontam para fevereiro

Uma das hipóteses mais relevantes surgiu de análises realizadas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

Em estudo publicado em junho, pesquisadores utilizaram modelos epidemiológicos para avaliar diferentes possibilidades de evolução da doença. A análise considerou plausível que um evento de transmissão entre um animal e um ser humano tenha ocorrido entre meados e o fim de fevereiro de 2026.

Isso significa que o vírus poderia ter passado de seu reservatório animal para uma pessoa semanas antes do aparecimento dos primeiros casos oficialmente reconhecidos.

Os pesquisadores também observaram que uma transmissão inicial ocorrida apenas no fim de abril seria difícil de conciliar com a dimensão que o surto já havia alcançado em maio.

Essa conclusão, entretanto, é uma hipótese baseada em modelagem e nas informações disponíveis naquele momento. Ela não identifica necessariamente o animal envolvido nem estabelece uma data exata para o primeiro caso humano.

A doença pode ter sido confundida com outras infecções

Outro fator que pode ter dificultado a identificação precoce foi a semelhança entre os sintomas iniciais do ebola e os de outras doenças que circulam na região.

Febre, fraqueza intensa, dores, vômitos e outros sinais podem ocorrer em diferentes infecções. Em áreas onde doenças como malária são frequentes, pacientes podem inicialmente receber tratamento para enfermidades mais comuns.

Esse cenário torna a vigilância epidemiológica ainda mais importante.

A identificação de um surto depende não apenas da existência de pessoas doentes, mas também da capacidade de profissionais de saúde reconhecerem padrões incomuns, coletarem amostras e encaminhá-las rapidamente para laboratórios capazes de identificar o agente infeccioso.

No caso do Bundibugyo, o desafio foi agravado pela distância, pela mobilidade da população e pelas dificuldades de acesso a algumas comunidades.

Maior surto de Bundibugyo já registrado

O que inicialmente estava concentrado em algumas áreas de Ituri acabou se espalhando para outras regiões.

A OMS informou em agosto que o surto já havia atingido cinco províncias — Ituri, North Kivu, South Kivu, Haut-Uélé e Tshopo — e 49 zonas de saúde. Naquele momento, a organização classificava o episódio como o maior surto de ebola causado pelo vírus Bundibugyo já registrado na República Democrática do Congo. Até 30 de julho, haviam sido contabilizados 3.605 casos confirmados e 1.587 mortes, com uma taxa de letalidade bruta de 44%.

O avanço da doença também levou a preocupação para além das fronteiras congolesas.

Em maio, Uganda confirmou casos importados relacionados à RDC. A OMS classificou a situação como uma emergência de saúde pública de importância internacional, destacando o risco de disseminação internacional e a necessidade de coordenação entre os países.

Por que descobrir o início é tão importante?

Determinar quando e onde uma epidemia começou não é apenas uma questão histórica. A informação pode ajudar as autoridades a entender como o vírus entrou na população humana, quais comunidades foram expostas primeiro e quais comportamentos ou circunstâncias favoreceram a transmissão.

Também pode ajudar a identificar possíveis pontos de contato entre seres humanos e animais.

O vírus Bundibugyo pertence ao grupo de vírus que causam a doença conhecida como ebola. Segundo o CDC, a transmissão ocorre principalmente por contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas ou que morreram pela doença.

Por isso, identificar rapidamente os primeiros casos, isolar pacientes e acompanhar pessoas que tiveram contato com infectados são medidas fundamentais para interromper as cadeias de transmissão.

Mortes de animais podem servir como alerta

Outro aspecto estudado por pesquisadores é a possibilidade de eventos incomuns envolvendo animais ajudarem a indicar o surgimento de novas epidemias.

Pesquisas anteriores realizadas no nordeste da República Democrática do Congo registraram relatos de comunidades sobre aumento da mortalidade de animais antes de alguns surtos de ebola em humanos. Esses relatos não comprovam que animais estejam necessariamente relacionados ao surto atual, mas reforçam a importância da chamada vigilância integrada, que acompanha simultaneamente a saúde humana e animal.

Essa abordagem é conhecida como “Uma Só Saúde” e considera que seres humanos, animais e meio ambiente estão interligados.

No caso atual, ainda não existe uma confirmação definitiva sobre quando ocorreu a primeira transmissão para seres humanos ou qual foi exatamente a cadeia inicial de infecção.

Investigação continua

A OMS afirma que as investigações epidemiológicas e o rastreamento retrospectivo continuam. A organização também mantém ações de vigilância, acompanhamento de contatos, atendimento médico, controle de infecções e mobilização das comunidades afetadas.

A reconstrução dos primeiros casos deverá ajudar a esclarecer se as mortes registradas antes de abril estavam relacionadas ao vírus Bundibugyo ou se foram provocadas por outras doenças.

Por enquanto, os dados disponíveis sustentam uma possibilidade importante: o surto pode ter começado muito antes de ser oficialmente reconhecido.

O que já está confirmado é que o primeiro caso atualmente conhecido apresentou sintomas em abril, que a OMS recebeu o primeiro alerta em 5 de maio e que a confirmação laboratorial ocorreu em 15 de maio. A hipótese de circulação do vírus desde fevereiro é apoiada por análises epidemiológicas, mas ainda não representa uma data definitiva para o início da epidemia.

A história do surto mostra, mais uma vez, como o tempo é um elemento decisivo no combate às doenças infecciosas. Entre os primeiros sintomas, o reconhecimento de um padrão incomum e a confirmação laboratorial podem existir semanas que fazem diferença para a contenção.

No caso do ebola Bundibugyo, pesquisadores agora tentam reconstruir justamente esse período perdido — uma investigação que pode ser fundamental para compreender como a doença conseguiu avançar e para evitar que futuros sinais de alerta passem despercebidos.