Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes pertencem a uma mesma linhagem artística em que música, poesia e experimentação caminham lado a lado. Com trajetórias marcadas pelo cuidado com a palavra, pela aproximação com as artes visuais e pela disposição para fugir de fórmulas prontas, os dois artistas transformaram uma antiga afinidade em um projeto conjunto. Nesta terça-feira (22), chegou às plataformas digitais o álbum “Vice-Versa”, primeiro trabalho concebido integralmente a partir da parceria entre os dois. O lançamento também veio acompanhado do anúncio de uma turnê nacional prevista para 2027.
O disco foi lançado ao meio-dia pela Universal Music Brasil e reúne 11 faixas. Dez delas são composições inéditas construídas em parceria por Calcanhotto e Antunes, enquanto a faixa restante é uma nova leitura de “Sorriso Livro”, música originalmente lançada pela Timbalada em 2006. O repertório ainda conta com a participação de Marisa Monte em “Na Minha Carne Viva”, ampliando a conexão entre alguns dos nomes mais importantes da música brasileira contemporânea.
A expectativa em torno do projeto é natural. Adriana Calcanhotto construiu uma carreira reconhecida pela sofisticação de suas composições, pelo diálogo com diferentes linguagens artísticas e por uma identidade musical muito particular. Arnaldo Antunes, por sua vez, consolidou uma trajetória que atravessa o rock, a música popular brasileira, a poesia e as artes visuais, desde sua projeção nacional como integrante dos Titãs.
O encontro entre os dois, portanto, carregava uma promessa especial. Não apenas pela qualidade individual dos artistas, mas também pela possibilidade de observar o que aconteceria quando duas personalidades tão ligadas à palavra passassem a dividir o processo de criação de maneira mais profunda.
Uma parceria construída ao longo de décadas
Apesar de “Vice-Versa” representar uma novidade, a relação artística entre Adriana e Arnaldo não começou agora. Os dois se conhecem há décadas e já haviam dividido palcos e projetos em diferentes momentos. Antes do novo álbum, porém, a parceria autoral conjunta era bastante restrita.
A principal composição assinada pelos dois era “Para Lá”, lançada por Arnaldo no álbum “Qualquer”, de 2006. A música também foi registrada posteriormente por Adriana em “Maré”, de 2008. A partir dessa experiência, a aproximação continuou acontecendo de forma pontual até ganhar uma nova dimensão após o encontro dos artistas no Coala Festival, em 2024.
Foi justamente naquele show que surgiu a vontade de levar a parceria adiante. Em vez de simplesmente reunir sucessos individuais para uma série de apresentações, os artistas decidiram criar material novo. A escolha levou ao desenvolvimento de “Vice-Versa”, um álbum pensado desde o início como resultado de uma construção compartilhada.
A própria concepção do trabalho ajuda a explicar o título. “Vice-Versa” sugere uma relação de troca, oposição e complementaridade. É justamente essa ideia que aparece em algumas das letras, nos arranjos e na forma como as vozes dos dois se encontram.
Um disco marcado pela diversidade sonora
Produzido pelo baterista e produtor Pupillo, “Vice-Versa” percorre diferentes possibilidades dentro da música brasileira. Samba, rock, elementos de música pop e referências próximas à estética dos Tribalistas aparecem ao longo das 11 faixas.
O trabalho reúne músicos importantes da cena contemporânea, entre eles Pedro Sá, na guitarra, e Vitor Araújo, no piano, Rhodes e sintetizadores. A presença desses instrumentistas contribui para uma sonoridade que alterna momentos de maior densidade e passagens mais econômicas.
A percussão ocupa lugar importante desde a abertura, “Também Capaz”. O instrumental conduzido por Pupillo cria uma base marcada por diferentes timbres e aproxima o disco de uma sonoridade brasileira contemporânea, sem abandonar a característica experimental dos compositores.
“As Bancas de Jornais” também chama atenção pela construção rítmica e pela utilização da palavra como elemento central. A letra apresenta características que remetem especialmente ao universo poético de Arnaldo Antunes, com frases e imagens que procuram transformar situações cotidianas em matéria musical.
Entre o samba, o rock e a experimentação
O álbum também passeia por diferentes gêneros. “Se For Para Ser Agora”, que tem Pupillo como coautor, e “Contemplando a Folia” aproximam o projeto de uma sonoridade relacionada ao universo tropical e ao espírito coletivo que marcou trabalhos de outros artistas brasileiros.
“Na Minha Carne Viva”, parceria dos dois com Marisa Monte, reforça essa atmosfera. A presença de Marisa acrescenta outra camada à proposta e evidencia a proximidade artística entre compositores que, ao longo das últimas décadas, ajudaram a renovar a música popular brasileira.
Em outras faixas, o caminho é diferente. “Você Não Vai Me Achar” apresenta elementos associados ao indie-rock, enquanto “Não Me Dão” aposta em uma abordagem mais diretamente ligada ao rock.
“Agora Juntos” segue por uma direção mais minimalista. A canção começa com a voz de Arnaldo e evolui de maneira gradual, chegando a um samba de andamento mais lento. A faixa se destaca também por ser a única do álbum em que os dois não cantam predominantemente em uníssono, alternando suas participações vocais.
A crítica diante de dois nomes consagrados
Embora o lançamento tenha reunido dois artistas de enorme importância para a música brasileira, a recepção crítica não é unânime. A avaliação publicada nesta terça-feira pelo jornalista Mauro Ferreira aponta que o álbum, apesar de apresentar momentos interessantes, não alcança em todas as faixas o mesmo nível de criatividade associado às carreiras individuais de Adriana e Arnaldo.
A crítica destaca que falta ao repertório uma composição capaz de se transformar em um grande destaque imediato entre as dez parcerias inéditas. “Por Ti, Por Mim, Por Nós” aparece como uma das exceções mais próximas desse resultado, especialmente pelo caráter afetivo e pela maneira como as vozes dos dois se unem.
Essa percepção não diminui a relevância do projeto, mas coloca uma questão interessante para o ouvinte: quando dois compositores reconhecidos por sua excelência se encontram, a expectativa naturalmente cresce. O público não escuta apenas um álbum novo; também procura nele vestígios daquilo que tornou cada artista singular.
É nesse ponto que “Vice-Versa” pode provocar diferentes reações. Para alguns ouvintes, a simplicidade e a contenção podem ser justamente parte da proposta. Para outros, a reunião de Calcanhotto e Antunes poderia ter resultado em composições ainda mais ousadas e memoráveis.
Turnê levará a parceria aos palcos em 2027
O lançamento do álbum é apenas o primeiro capítulo de uma parceria que deverá ganhar ainda mais força ao vivo. Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes anunciaram uma turnê conjunta para 2027, com seis apresentações confirmadas em diferentes capitais brasileiras.
A estreia está marcada para 6 de março, em São Paulo, no Espaço Unimed. Depois, a turnê passa pelo Rio de Janeiro, em 20 de março, no Qualistage; Belo Horizonte, em 3 de abril, no Minascentro; Recife, em 10 de abril, no Teatro Guararapes; Porto Alegre, em 23 de abril, no Auditório Araújo Vianna; e Curitiba, em 24 de abril, no Teatro Positivo.
Os shows deverão combinar as novas músicas de “Vice-Versa” com sucessos das carreiras individuais dos artistas. A expectativa é que o palco permita uma leitura diferente das canções, especialmente das faixas mais experimentais e das que dependem da interação entre as duas vozes.
Um encontro que ainda pode ganhar novos significados
“Vice-Versa” chega, portanto, como um registro de um encontro que levou décadas para se transformar em um álbum completo. Mais do que uma simples colaboração entre dois nomes consagrados, o projeto representa a decisão de começar novamente, criar novas músicas e descobrir o que poderia surgir do diálogo entre dois universos artísticos tão particulares.
O disco pode não corresponder integralmente às expectativas de quem esperava uma coleção de canções imediatamente marcantes. Ainda assim, o projeto tem valor por documentar uma aproximação que há muito tempo fazia parte da trajetória dos dois artistas.
Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes chegam a esse momento com carreiras consolidadas e uma relação construída ao longo de décadas. Em “Vice-Versa”, eles escolhem não olhar apenas para o passado. Preferem experimentar, compor juntos e abrir espaço para uma nova etapa.
Talvez seja justamente nos palcos, diante do público, que esse repertório encontre sua dimensão definitiva. Afinal, algumas canções precisam de tempo para revelar completamente sua força. E, no caso de dois artistas acostumados a transformar palavras em música, o primeiro encontro de um álbum pode ser apenas o começo de uma história ainda maior.















