Alaíde Costa continua mostrando que o tempo pode ampliar, e não limitar, a força de uma trajetória artística. Aos 90 anos, a cantora, que iniciou sua carreira fonográfica ainda na década de 1950, mantém uma rotina intensa nos estúdios e já trabalha em mais um projeto musical, mesmo antes de lançar o próximo capítulo de uma trilogia concebida por Emicida e Marcus Preto.

O novo trabalho está previsto para chegar ao público em 2027 e terá uma característica especial: será um álbum gravado integralmente em formato de duo com o pianista André Mehmari. As gravações acontecem no Estúdio Monteverdi, espaço mantido pelo músico em São Paulo, e já estão em fase final.

A parceria reúne duas trajetórias marcadas pela dedicação à música brasileira. De um lado, uma das intérpretes de voz mais reconhecíveis da história da MPB; do outro, um pianista, compositor e arranjador conhecido por sua atuação em diferentes vertentes da música brasileira.

O projeto também está sendo registrado em imagens. Marcelo Lima, filho de Alaíde Costa, acompanha as sessões e filma o processo de gravação. O material poderá posteriormente gerar conteúdos audiovisuais relacionados ao álbum, ampliando a experiência em torno do projeto.

Um novo capítulo aos 90 anos

A produção do novo disco chama atenção também pelo momento da carreira em que Alaíde Costa se encontra.

A cantora vem mantendo uma presença constante na produção fonográfica durante a década de 2020. O álbum previsto para 2027 será o sexto trabalho lançado por Alaíde no período, mantendo uma média próxima de um disco por ano, com exceção de 2023.

O ritmo demonstra a disposição da artista para continuar explorando repertórios, parcerias e diferentes possibilidades de interpretação.

A longevidade artística de Alaíde Costa está diretamente relacionada à capacidade de transitar por diferentes gerações da música brasileira. Ao longo de sua carreira, ela construiu uma identidade marcada pela interpretação cuidadosa, pelo refinamento vocal e pela escolha de repertórios que valorizam tanto compositores consagrados quanto obras menos conhecidas.

Agora, a cantora volta ao estúdio para revisitar músicas que fazem parte de seu universo afetivo e musical.

Repertório atravessa diferentes gerações

O novo álbum será centrado principalmente no universo da música popular brasileira produzido entre as décadas de 1970 e 1980. A seleção reúne canções que Alaíde Costa aprecia há anos, mas que, por diferentes circunstâncias, nunca havia gravado em estúdio.

Entre as músicas escolhidas está “Amor proibido”, composição de Cartola lançada em 1968. A canção faz parte do repertório de um dos grandes nomes do samba brasileiro e ganha agora uma nova possibilidade de interpretação pela voz de Alaíde.

Outra escolha é “Folhas secas”, parceria de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, de 1973. A composição se tornou uma das obras mais conhecidas associadas ao repertório de Nelson Cavaquinho e representa outro momento importante da tradição do samba.

O álbum também terá “Retrato falado”, de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, lançada em 1976. A presença da obra reforça a intenção de Alaíde de reunir diferentes caminhos da música brasileira em um mesmo trabalho.

O repertório segue com “Contrato de separação”, de Dominguinhos e Anastácia, de 1979, levando para o projeto a força da música nordestina e da parceria entre dois importantes compositores.

Ivan Lins e Djavan também estão no disco

Entre as canções selecionadas está ainda “Velas içadas”, parceria de Ivan Lins e Vitor Martins, de 1979.

A composição integra uma fase importante da produção de Ivan Lins e representa a sofisticação melódica e harmônica característica de parte da produção musical brasileira daquele período.

Outra escolha é “Nobreza”, de Djavan, lançada em 1982. A música aproxima o novo trabalho de Alaíde de uma geração de compositores que ajudou a renovar a MPB nas décadas de 1970 e 1980.

Ao reunir Cartola, Nelson Cavaquinho, Eduardo Gudin, Paulo César Pinheiro, Dominguinhos, Anastácia, Ivan Lins, Vitor Martins e Djavan, o projeto constrói uma espécie de ponte entre diferentes escolas e linguagens da música brasileira.

A proposta não parece ser simplesmente recuperar músicas antigas, mas permitir que elas sejam revisitadas a partir da experiência acumulada por uma intérprete com décadas de carreira.

Parceria com André Mehmari

O formato de duo é outro elemento que diferencia o projeto.

Com Alaíde Costa nos vocais e André Mehmari ao piano, o álbum deverá apostar em uma formação enxuta, colocando voz, melodia, harmonia e interpretação no centro das gravações.

A parceria também permite que os arranjos tenham espaço para explorar nuances e detalhes das canções. Em um trabalho com poucos elementos instrumentais, a interpretação ganha ainda mais importância.

O piano de Mehmari terá papel fundamental na construção da identidade sonora do disco, acompanhando a cantora e criando novas leituras para músicas já conhecidas.

O resultado será apresentado como um encontro entre gerações e experiências distintas, mas conectadas pelo interesse na música brasileira.

Duas músicas ainda faltam

Apesar de as gravações estarem em estágio avançado, Alaíde Costa e André Mehmari ainda precisam registrar duas músicas para concluir o álbum.

Uma delas é “Meu silêncio”, composição de Claudio Nucci e Luiz Fernando Gonçalves, de 1980. A escolha amplia a presença de compositores ligados à produção brasileira daquele período.

A outra é “Como dos extraños”, tango argentino composto por José Maria Contursi e Pedro Laurenz em 1940.

A música tem uma história especial de circulação no Brasil e ficou conhecida por muitos ouvintes brasileiros também por meio da interpretação da cantora argentina Mercedes Sosa, que incluiu a obra no álbum “Gestos de amor”, lançado em 1994.

A presença do tango demonstra que o projeto não ficará restrito às fronteiras estilísticas da MPB. Mesmo centrado na produção brasileira das décadas de 1970 e 1980, o repertório abre espaço para uma composição latino-americana de décadas anteriores.

Um disco sobre memória e novas interpretações

O álbum de 2027 chega em um momento particularmente significativo para Alaíde Costa. Aos 90 anos, a cantora continua frequentando estúdios, descobrindo novas possibilidades para sua voz e mantendo uma relação ativa com a música.

Mais do que uma simples reunião de canções conhecidas, o projeto representa uma oportunidade de revisitar obras que acompanharam diferentes momentos da música brasileira e apresentá-las a partir de uma perspectiva construída ao longo de décadas.

A presença de André Mehmari também acrescenta uma nova camada ao trabalho. O encontro entre voz e piano cria um ambiente propício para interpretações mais íntimas e detalhadas, permitindo que cada composição seja explorada sem o excesso de elementos que muitas vezes domina produções musicais contemporâneas.

Enquanto o público aguarda o lançamento da trilogia arquitetada por Emicida e Marcus Preto, com o terceiro álbum, “Meu vício na dor de amar demais”, previsto para novembro, Alaíde Costa já olha para o futuro.

O novo disco, ainda sem título e com lançamento programado para 2027, mostra uma artista que continua trabalhando, gravando e escolhendo repertórios com a mesma disposição de quem ainda tem muito a dizer.

Aos 90 anos, Alaíde Costa segue transformando experiência em interpretação. E, ao lado de André Mehmari, prepara mais um capítulo de uma história que atravessa gerações da música brasileira.