Um homem de 71 anos que passou mais de quatro décadas no corredor da morte nos Estados Unidos foi libertado nesta segunda-feira (28) após uma nova análise de DNA apontar que seu material genético não corresponde às evidências encontradas na cena do crime pelo qual foi condenado. Douglas Stewart Carter estava preso desde 1985 e deixou uma penitenciária em Utah acompanhado pelo filho e pelo advogado de defesa.

A nova análise genética foi recebida pela Justiça no dia 22 de setembro e representa mais um capítulo em uma longa disputa judicial envolvendo a condenação de Carter pela morte de Eva Olesen, tia de um chefe de polícia. Olesen foi assassinada a tiros e também sofreu golpes de faca.

De acordo com os resultados apresentados à Justiça, Carter foi excluído como possível correspondência para o sangue encontrado em uma maçaneta e para o material genético identificado no cabo da faca utilizada no crime.

Apesar da libertação, o caso ainda não chegou ao fim. Carter deverá permanecer sob monitoramento eletrônico, utilizando uma tornozeleira com GPS enquanto aguarda os próximos passos do processo e um novo julgamento.

Saída da prisão após quatro décadas

A saída de Carter da prisão aconteceu no fim da noite. Aos 71 anos, ele deixou o local usando uma camisa branca, calça de moletom cinza e óculos pendurados no pescoço.

Ao lado dele estava o filho, Tyler, que empurrava um carrinho carregado com travesseiros, cobertores e os pertences pessoais do pai.

O momento foi marcado por uma mistura de alívio e cautela. Carter sorriu algumas vezes enquanto deixava a penitenciária, mas tentou esconder o rosto atrás de alguns papéis diante da presença de jornalistas que aguardavam do lado de fora.

Ele não conversou com a imprensa e entrou em um veículo acompanhado pelo filho e pelo advogado.

Embora esteja fora da prisão, Carter recebeu restrições determinadas pela Justiça. Entre elas está a proibição de manter contato com familiares de Eva Olesen, medida que provocou reação dos parentes da vítima, que criticaram a decisão judicial.

DNA muda cenário do processo

A análise genética representa uma das principais mudanças no caso nas últimas décadas.

O material examinado foi encontrado em elementos diretamente relacionados ao crime. O sangue localizado em uma maçaneta e o material genético recuperado no cabo da faca não apresentaram correspondência com Carter.

Para a defesa, o resultado enfraquece ainda mais a acusação contra o homem, principalmente porque, segundo os advogados, não havia provas físicas que ligassem Carter à cena do crime.

Derek Pullan, responsável pelo caso desde que a possibilidade de um novo julgamento foi aberta na Suprema Corte estadual, afirmou que o resultado do DNA acrescenta uma nova dificuldade para a acusação.

A defesa agora tenta conseguir o arquivamento da acusação de homicídio qualificado que ainda pesa contra Carter.

Enquanto isso, o processo continua sendo acompanhado pela Justiça, que terá de analisar as novas evidências e os argumentos apresentados pelas partes.

Condenação foi baseada em confissão e testemunhos

Quando foi condenado, Carter tinha sido apontado como responsável pelo assassinato com base principalmente em uma confissão e no depoimento de duas testemunhas.

Segundo as informações apresentadas no processo, nenhuma evidência física ligava diretamente o homem ao local do crime. Ainda assim, o júri decidiu pela condenação.

As duas testemunhas afirmaram, na época, que Carter havia se gabado de ter matado Olesen.

Anos depois, entretanto, os dois depoentes mudaram suas versões.

Em 2011, após serem localizados no México, eles disseram que haviam sido orientados a mentir durante o julgamento. Também afirmaram ter recebido dinheiro e presentes de policiais e que foram instruídos a não revelar os pagamentos.

Os dois ainda relataram que sofreram ameaças relacionadas à deportação. Segundo seus relatos, a polícia e os promotores teriam ameaçado deportá-los, juntamente com o filho deles, caso não incriminassem Carter.

Essas declarações passaram a integrar a longa batalha da defesa para revisar a condenação.

Carter afirma que é inocente

Desde o início do processo, Carter sustenta que não cometeu o assassinato.

No entanto, quando foi preso em 1985, ele assinou uma confissão. Segundo o próprio Carter, a declaração foi obtida sob coerção.

A defesa argumenta que a confissão deve ser analisada dentro do contexto das circunstâncias da prisão e das demais evidências posteriormente contestadas.

O caso ganhou novos contornos ao longo dos anos, especialmente depois que as testemunhas se retrataram e surgiram alegações de que investigadores teriam deixado de apresentar ou preservado adequadamente informações relacionadas a outros possíveis suspeitos.

Para os advogados, esses elementos levantam dúvidas importantes sobre a condenação que manteve Carter preso durante mais de 40 anos.

Outras suspeitas também foram apontadas

Um dos argumentos apresentados pela defesa envolve relatos de testemunhas que teriam visto um homem branco fugindo da região onde o crime aconteceu.

Os advogados também sustentam que um investigador teria ocultado ou suprimido provas que poderiam apontar para outros suspeitos.

Entre os nomes mencionados pela defesa está o marido de Eva Olesen, que morreu em 2009.

As alegações fazem parte da disputa judicial que levou à reavaliação do caso e à abertura de espaço para um novo julgamento.

Agora, com o resultado da análise de DNA, a defesa considera que existem elementos adicionais para questionar a acusação.

Um caso que atravessou gerações

A história de Carter é marcada pela passagem do tempo. Preso em 1985, ele atravessou mais de quatro décadas dentro do sistema prisional enquanto tentava provar que não era responsável pelo crime.

Durante esse período, mudanças tecnológicas transformaram a investigação criminal. Uma das principais delas foi justamente o avanço dos exames de DNA, capazes de analisar vestígios biológicos que, décadas atrás, não poderiam ser examinados com o mesmo nível de precisão.

O exame que agora exclui Carter como possível correspondência para os materiais analisados se tornou uma peça importante na reavaliação do processo.

Para a defesa, a situação demonstra a importância de revisar condenações quando novas evidências surgem.

O advogado Neal Hamilton afirmou que Carter poderia ter sido executado anos atrás caso as alegações sobre má conduta dos investigadores não tivessem sido descobertas.

“Se dependesse do estado de Utah, ele teria sido executado há 15 ou 20 anos, antes de descobrirmos a má conduta”, declarou o advogado.

A declaração resume a dimensão da batalha jurídica travada pela defesa ao longo dos anos, mas também evidencia que o caso ainda precisa passar por novas etapas antes de uma decisão definitiva.

Liberdade, mas com o processo ainda aberto

A libertação de Carter não significa que todas as acusações foram definitivamente encerradas. O homem continuará submetido às determinações da Justiça enquanto aguarda o andamento do processo.

A tornozeleira eletrônica com GPS permitirá o monitoramento de seus deslocamentos, e a proibição de contato com familiares de Eva Olesen permanece entre as condições impostas.

A defesa, por sua vez, busca o arquivamento da acusação de homicídio qualificado.

O futuro do processo dependerá da análise das novas evidências, dos argumentos apresentados pelos advogados e das decisões judiciais que ainda serão tomadas.

Depois de mais de 40 anos atrás das grades, Carter finalmente pôde deixar a prisão e reencontrar o filho fora do ambiente penitenciário. A imagem dos dois deixando o local, com os poucos pertences reunidos em um carrinho, simboliza o início de uma nova etapa para um homem que passou grande parte da vida adulta sob uma condenação que agora voltou a ser questionada.

Enquanto a Justiça analisa os próximos passos, o exame de DNA acrescenta um elemento decisivo a uma história marcada por dúvidas, retratações de testemunhas, alegações de má conduta e uma batalha judicial que atravessou décadas.

O caso permanece aberto, mas a libertação de Douglas Stewart Carter representa uma mudança significativa em um processo iniciado em 1985 e que, quatro décadas depois, ainda busca uma resposta definitiva sobre o que realmente aconteceu com Eva Olesen.