Câncer de mama ainda é cercado por dúvidas entre uma parcela significativa das mulheres brasileiras. Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira (2) pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados, aponta que 29% das brasileiras afirmam não saber como se prevenir contra a doença. O índice representa um aumento em relação a 2024, quando 25% das entrevistadas declaravam desconhecer os métodos preventivos.

O levantamento ouviu 2.015 pessoas, sendo 1.038 mulheres, e buscou compreender o nível de informação da população feminina sobre prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama. Os resultados mostram que, apesar da ampla circulação de informações sobre a doença, ainda existem diferenças importantes no acesso ao conhecimento e aos cuidados de saúde.

A pesquisa também identificou uma relação entre o nível de informação, a renda familiar e o tipo de serviço de saúde utilizado pelas mulheres. Esses fatores aparecem associados às diferenças observadas na realização de exames e na adoção de medidas preventivas.

Conhecimento sobre prevenção permanece praticamente estável

Na comparação com a pesquisa realizada em 2024, o percentual de mulheres que afirmam conhecer os métodos de prevenção do câncer de mama apresentou pouca alteração. O índice passou de 59% para 58%.

A mudança mais significativa ocorreu entre aquelas que anteriormente apresentavam algum grau de dúvida. Em 2024, 16% das entrevistadas deram respostas intermediárias sobre o próprio conhecimento. Em 2026, esse grupo caiu para 11%.

Na prática, isso significa que parte das mulheres que antes demonstrava incerteza passou a declarar abertamente que não conhece as formas de prevenção.

O resultado chama atenção porque o conhecimento é um dos elementos que podem influenciar a busca por cuidados de saúde. Quando uma mulher sabe quais medidas estão relacionadas à prevenção e ao diagnóstico precoce, pode ter mais condições de reconhecer a importância de acompanhamento médico e exames de rotina.

Autoexame apresenta diferença entre grupos

A pesquisa também analisou a relação entre conhecimento e a realização de práticas relacionadas ao cuidado com as mamas.

Entre as mulheres que afirmam conhecer os métodos preventivos, 80% disseram que realizam o autoexame. Entre aquelas que afirmam não conhecer as formas de prevenção, o percentual cai para 30%.

A diferença também aparece quando o assunto é mamografia. Entre as mulheres que dizem conhecer os métodos preventivos, 65% afirmaram já ter realizado o exame. Entre as que não conhecem, o percentual ficou em 35%.

Outro dado chama atenção: entre as entrevistadas que nunca fizeram nem autoexame nem mamografia, apenas 12% afirmam conhecer os métodos de prevenção, enquanto 55% dizem não conhecer.

Os números indicam uma associação entre o nível de informação e a adoção de práticas relacionadas à saúde das mamas. No entanto, a realização de exames e a indicação de cada procedimento devem considerar idade, histórico familiar, fatores de risco e orientação de profissionais de saúde.

Prevenção e diagnóstico precoce não são a mesma coisa

A médica Fabiana Makdissi, líder do Centro de Referência em Tumores da Mama do A.C.Camargo Cancer Center, destaca que é importante diferenciar prevenção de diagnóstico precoce.

A prevenção envolve principalmente hábitos que podem contribuir para a redução do risco de desenvolvimento da doença, como manter um peso adequado, praticar atividade física, evitar o tabagismo e reduzir o consumo de bebidas alcoólicas.

Já o diagnóstico precoce está relacionado à identificação da doença em uma fase inicial, quando as possibilidades de tratamento podem ser maiores.

A especialista ressalta ainda a importância do autoconhecimento do corpo e da realização de mamografias de rotina conforme as recomendações médicas.

De acordo com dados citados no levantamento, mulheres diagnosticadas com câncer de mama em estágio I apresentaram taxa de sobrevida global de cinco anos de 96% em um levantamento de 2025. O dado reforça a relevância da identificação da doença em fases iniciais, embora os resultados individuais possam variar de acordo com diferentes características clínicas.

Renda influencia acesso à informação e aos cuidados

Um dos aspectos mais marcantes da pesquisa está relacionado à renda familiar.

Entre as mulheres com renda de até um salário mínimo, 51% afirmaram realizar o autoexame. O percentual sobe para 88% entre aquelas com renda superior a cinco salários mínimos.

A diferença também aparece quando os pesquisadores analisaram o conhecimento sobre os métodos preventivos. Nesse caso, o percentual passou de 49% entre as mulheres de menor renda para 79% entre aquelas com renda superior a cinco salários mínimos.

Os números apontam para uma desigualdade importante no acesso à informação e às práticas relacionadas à prevenção.

Isso significa que campanhas de conscientização precisam considerar as diferentes realidades sociais e econômicas da população. A informação pode chegar de maneiras diferentes às mulheres dependendo do local onde vivem, da renda familiar, do acesso aos serviços de saúde e da possibilidade de realizar exames.

Diferenças entre SUS e rede privada

O tipo de serviço de saúde utilizado também aparece como um fator relacionado ao conhecimento sobre prevenção.

Segundo o levantamento, 56% das mulheres que utilizam o Sistema Único de Saúde afirmam conhecer as formas de prevenção do câncer de mama. Entre aquelas que utilizam a rede privada, o percentual chega a 69%.

A diferença de 13 pontos percentuais mostra que ainda existem obstáculos relacionados ao acesso à informação e aos serviços de diagnóstico.

Para a especialista Fabiana Makdissi, informação e acesso estão diretamente relacionados. Segundo a médica, as mulheres que conhecem as formas de prevenção apresentam índices significativamente maiores de realização do autoexame.

A desigualdade observada na pesquisa reforça a importância de ampliar ações de educação em saúde e facilitar o acesso aos serviços de prevenção e diagnóstico.

Hábitos de vida fazem parte da prevenção

Entre as principais medidas relacionadas à redução do risco de câncer de mama estão hábitos que contribuem para uma vida mais saudável.

A prática regular de atividade física, uma alimentação equilibrada, o controle do peso corporal, a redução do consumo de bebidas alcoólicas e a ausência de tabagismo são apontados como fatores importantes.

A amamentação também é considerada uma prática com efeito protetor em relação ao câncer de mama.

Essas medidas, entretanto, não eliminam completamente o risco da doença. O câncer de mama possui múltiplos fatores associados, incluindo aspectos genéticos, hormonais, ambientais e relacionados ao histórico familiar.

Por isso, mesmo mulheres que mantêm hábitos saudáveis devem seguir as orientações de profissionais de saúde e realizar os acompanhamentos indicados para seu perfil.

Informação pode ajudar na busca por atendimento

Os dados apresentados pela pesquisa mostram que o desafio não está apenas em produzir informações, mas também em fazer com que elas cheguem às mulheres de diferentes grupos sociais.

A diferença observada entre faixas de renda e entre usuárias do SUS e da rede privada indica que campanhas de conscientização precisam alcançar públicos diversos e utilizar canais acessíveis.

A falta de conhecimento pode contribuir para que sinais suspeitos sejam ignorados ou para que exames importantes sejam adiados. Por outro lado, informação adequada pode ajudar a mulher a entender quando procurar atendimento e quais medidas fazem parte do cuidado preventivo.

Também é importante evitar informações simplificadas que confundam prevenção com diagnóstico. O acompanhamento médico continua sendo fundamental para avaliar cada situação individualmente.

Outubro reforça debate sobre saúde das mulheres

Os dados chegam em um período marcado por campanhas de conscientização sobre o câncer de mama. O mês de outubro tradicionalmente amplia o debate sobre prevenção, diagnóstico e tratamento da doença.

O levantamento de 2026 mostra que ainda existe um caminho importante para reduzir as desigualdades de informação. Quase três em cada dez mulheres entrevistadas afirmam não saber como se prevenir, enquanto as diferenças relacionadas à renda e ao acesso aos serviços de saúde permanecem evidentes.

Mais do que incentivar a realização de exames, especialistas defendem uma abordagem que combine informação, hábitos saudáveis, acompanhamento médico e acesso adequado ao diagnóstico.

Para as mulheres, conhecer o próprio corpo, buscar orientação profissional diante de alterações e manter os cuidados recomendados são atitudes importantes. Entre os sinais que merecem avaliação médica estão mudanças persistentes nas mamas, alterações na pele, retrações, secreções pelo mamilo ou presença de nódulos.

A pesquisa mostra, sobretudo, que o acesso à informação ainda não acontece de maneira igual para todas. Ampliar esse conhecimento e reduzir as barreiras de acesso aos serviços de saúde são passos importantes para fortalecer a prevenção e favorecer o diagnóstico precoce do câncer de mama no Brasil.