Força da palavra do compositor e dramaturgo sustenta o arrebatador espetáculo protagonizado e dirigido por Georgette Fadel com Cristiano Tomiossi.
♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO
Título: Gota d’água – No tempo
Dramaturgia: Chico Buarque e Paulo Pontes
♬ Em determinado momento da encenação de “Gota d’água – No tempo”, musical em cartaz até 3 de maio no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo (SP), ouve-se sutil citação instrumental de “Cálice” (1973), a censurada parceria de Chico Buarque e Gilberto Gil. O comentário musical é sagaz porque, em essência, o texto de “Gota d’água” é sobre a tentativa do sistema de calar uma mulher, Joana, personagem da atriz Georgette Fadel.
Nome respeitado em palcos paulistanos, Fadel é também diretora do espetáculo codirigido e coestrelado por Cristiano Tomiossi na pele de Jasão, o homem que abandona e desespera Joana ao sucumbir ao poder capitalista representado por Creonte (José Eduardo Rennó), o mandatário da fictícia comunidade carioca Vila do Meio-Dia.
Além de sagazes, as citações instrumentais de músicas do cancioneiro de Chico Buarque – como “Atrás da porta” (parceria com Francis Hime de 1972), ilustração sonora do desespero de Joana – são pertinentes porque “Gota d’água – No tempo” se alimenta e se movimenta com as palavras precisas do compositor e dramaturgo carioca.
Chico é o autor do texto original de “Gota d’água”, escrito com o dramaturgo Paulo Pontes (1940 – 1976) com inspiração na tragédia de “Medéia”, peça do dramaturgo grego Eurípedes (480 a.C. – 406 a.C.), atribuída ao ano de 431 a.C.
Com a ação deslocada pelos autores para uma comunidade carioca dos anos 1970 e encenado originalmente em 1975, com a atriz Bibi Ferreira (1922 – 2019) na pele de Joana em montagem antológica erguida sob a direção de Gianni Ratto (1916 – 2005), o texto de “Gota d’água” atravessou bem os últimos 50 anos, sob o prisma capitalista, porque a estrutura opressiva do poder permaneceu imaculada, corroendo a sociedade e calando o povo.
Contudo, sob prisma social e feminino, o texto envelheceu mal porque uma mulher de 44 anos, como Joana, já não é considerada “acabada”, “velha” numa palavra, como no texto de 1975. Daí a sábia decisão de manter a ação situada nos anos 1970.
“Gota d’água – No tempo” é a releitura da releitura encenada em 2006, há 20 anos, pelos mesmos Cristiano Tomiossi e Georgette Fadel, com o título “Gota d’água – Breviário”, espetáculo que simbolizou ponto de virada na trajetória da atriz e diretora paulistana.
A montagem atual é crua, despojada, com uma cadeira erguida ao fundo do palco como representação do corrosivo poder capitalista. Antes mesmo do início da ação, o público é transportado para o ambiente da fictícia Vila do Meio-Dia através de roda de samba armada na beira do palco com os músicos do espetáculo, orquestrado sob a direção musical de Marco França, e boa parte do elenco.
Não há microfones em cena. Georgette Fadel sustenta o canto de músicas como “Basta um dia” e “Bem querer” – compostas por Chico Buarque para a trilha sonora original de “Gota d’água” – na voz amplificada somente pela agonia e pelo desalento da personagem a que a atriz dá vida.
Entre temas da trilha, como “Flor da idade”, ouvido em canto coletivo como numa quadrilha, e citações instrumentais de outras músicas de Chico Buarque, como o lírico tristonho samba-canção “Carolina” (1967), a palavra escrita e a palavra cantada do dramaturgo e compositor vão entranhando o espectador em uma ação arrebatadora, de intensidade crescente na medida em que o cerco se fecha para Joana, com as comadres da personagem simbolizando o coro grego com comentários por vezes ácidos que expõem o ideário do geralmente subserviente povo brasileiro.
Só que Joana não é Maria vai com as outras e desarticula o coro. Em essência, “Gota d’água – No tempo” ecoa o grito desesperado e solitário de uma mulher tragada pelo sistema que se nutre da injustiça social.
Tudo está encadeado na natureza da música e do texto de Chico Buarque, em perfeito movimento que faz do palco uma representação fidedigna da praça do povo onde tudo acaba em samba, mesmo quando Joanas, Josés e Marias são jogados aos leões quando não se calam.
G1
