Vacinação pode ser uma das principais estratégias de prevenção contra alguns tipos de câncer associados a infecções virais, especialmente o câncer do colo do útero, relacionado ao HPV, e o carcinoma hepatocelular, ligado à infecção crônica pelo vírus da hepatite B. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10% dos casos de câncer no mundo podem estar associados a infecções prolongadas provocadas por vírus ou bactérias.

Entre os principais agentes infecciosos relacionados ao desenvolvimento de tumores estão o papilomavírus humano (HPV), o vírus Epstein-Barr, os vírus das hepatites B e C e a bactéria Helicobacter pylori.

A possibilidade de prevenir algumas dessas infecções antes que elas provoquem consequências mais graves representa um avanço importante na saúde pública. No Brasil, vacinas contra o HPV e contra a hepatite B estão disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), de acordo com os critérios estabelecidos pelo Programa Nacional de Imunizações.

A vacinação, porém, não deve ser encarada como a única medida preventiva. O acompanhamento médico, a realização dos exames indicados e a adoção de hábitos de proteção também são fundamentais para reduzir riscos e identificar precocemente possíveis alterações.

No caso do câncer do colo do útero, por exemplo, a prevenção envolve vacinação contra o HPV e rastreamento periódico. Já em relação à hepatite B, a imunização é uma das principais formas de evitar a infecção e, consequentemente, diminuir o risco de complicações hepáticas ao longo dos anos.

HPV está diretamente relacionado ao câncer do colo do útero

O papilomavírus humano, conhecido pela sigla HPV, reúne mais de 200 tipos de vírus. Alguns são considerados de baixo risco e estão associados principalmente ao aparecimento de verrugas. Outros são classificados como de alto risco e podem provocar alterações celulares capazes de evoluir para câncer.

Entre os tipos considerados de maior risco estão os HPV 16 e 18, relacionados a aproximadamente 70% dos casos de câncer do colo do útero.

A infecção pelo HPV é bastante comum e, na maioria das pessoas, o próprio organismo consegue eliminar o vírus naturalmente. O problema ocorre quando a infecção persiste durante um longo período e provoca alterações nas células.

Com o passar dos anos, essas alterações podem evoluir para lesões pré-cancerosas e, posteriormente, para um tumor.

Por isso, a vacinação antes da exposição ao vírus é considerada uma das principais estratégias para reduzir o risco de infecção pelos tipos de HPV associados ao câncer.

Estudos mostram impacto da vacinação

Um estudo brasileiro publicado em 2025 analisou diagnósticos registrados entre 2019 e 2023 em jovens de 20 a 24 anos.

Os resultados apontaram que a vacinação contra o HPV esteve associada a uma redução de 58% nos casos de câncer cervical e de 67% nas lesões pré-cancerosas graves entre a população analisada.

Os dados reforçam a importância da imunização, especialmente quando realizada nas faixas etárias recomendadas.

No SUS, meninas e meninos de 9 a 14 anos fazem parte do público prioritário para a vacinação contra o HPV, com esquema de dose única. Existem ainda estratégias de resgate para pessoas que não foram imunizadas no período recomendado e grupos prioritários que podem receber a vacina em faixas etárias diferentes.

Na rede privada, a vacina pode ser indicada para pessoas de faixas etárias mais amplas, conforme orientação profissional.

Pais e responsáveis devem procurar uma unidade de saúde para verificar a situação vacinal de crianças e adolescentes e confirmar se existe alguma dose pendente.

HPV também pode provocar outros cânceres

O câncer do colo do útero é o tumor mais conhecido relacionado ao HPV, mas não é o único.

A infecção persistente pelo vírus também pode estar associada a tumores do canal anal, vulva, vagina e pênis.

O HPV ainda pode participar do desenvolvimento de alguns cânceres da região da cabeça e do pescoço, incluindo tumores da orofaringe, da base da língua, das amígdalas e da parte posterior da garganta.

Isso demonstra que a vacinação contra o HPV possui uma importância que vai além da prevenção do câncer cervical.

A imunização faz parte de uma estratégia mais ampla para reduzir doenças provocadas pelos tipos de HPV considerados de maior risco.

Rastreamento continua indispensável

Mesmo com a vacinação, os cuidados preventivos não devem ser abandonados.

O rastreamento do câncer do colo do útero continua sendo fundamental para identificar alterações antes que elas evoluam para uma doença mais grave.

Durante muitos anos, o exame de Papanicolau foi utilizado como principal método de rastreamento no SUS. Mais recentemente, o sistema público incorporou o teste molecular para identificação do DNA do HPV oncogênico.

As novas diretrizes adotadas no país passaram a considerar o teste de DNA-HPV como método primário de rastreamento.

O Papanicolau, entretanto, continua sendo utilizado em diferentes situações, conforme as orientações dos serviços de saúde.

Os especialistas reforçam ainda que o rastreamento não substitui uma avaliação ginecológica completa. O acompanhamento profissional permite identificar alterações e definir quais exames são necessários para cada paciente.

Hepatite B também pode aumentar o risco de câncer

Outro vírus que merece atenção quando o assunto é prevenção do câncer é o vírus da hepatite B, conhecido como HBV.

A infecção pode se tornar crônica e provocar inflamação persistente no fígado. Com o passar dos anos, essa condição pode contribuir para o desenvolvimento de cirrose e aumentar o risco de carcinoma hepatocelular, um dos principais tipos de câncer primário do fígado.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 12.350 novos casos anuais de câncer de fígado no Brasil no triênio 2026–2028.

A prevenção da hepatite B, portanto, também possui impacto na redução de doenças graves que podem atingir o fígado.

Vacina contra hepatite B é oferecida pelo SUS

A vacina contra a hepatite B está disponível gratuitamente no SUS para pessoas de todas as idades, conforme as recomendações do calendário de vacinação.

A proteção começa ainda nos primeiros momentos de vida. A recomendação é que o recém-nascido receba a primeira dose preferencialmente nas primeiras 12 horas após o nascimento.

Na infância, o esquema segue com as doses previstas no calendário, incluindo a vacina pentavalente.

Pessoas que não completaram o esquema vacinal podem procurar uma unidade de saúde para verificar sua situação e receber as doses necessárias.

Manter a vacinação atualizada é uma das maneiras mais eficazes de evitar a infecção pelo vírus da hepatite B e reduzir suas possíveis consequências futuras.

Prevenção precisa ser combinada

Apesar da importância das vacinas, os especialistas defendem uma estratégia de prevenção combinada.

No caso do HPV, isso inclui vacinação, rastreamento do câncer do colo do útero e uso de preservativos, que ajudam a reduzir o risco de transmissão de infecções sexualmente transmissíveis.

No caso da hepatite B, além da vacinação, também existem medidas para reduzir a transmissão e tratamentos antivirais para pessoas que desenvolvem infecção crônica.

Esses medicamentos podem ajudar a controlar a doença e reduzir o risco de complicações, mas devem ser utilizados somente com indicação e acompanhamento de profissionais de saúde.

Informação também faz parte da prevenção

A prevenção do câncer nem sempre exige medidas complexas. Muitas vezes, ela começa com uma atitude simples: conferir a carteira de vacinação e manter os imunizantes atualizados.

Vacinar crianças, adolescentes e adultos dentro das recomendações do calendário nacional pode evitar infecções capazes de provocar consequências graves anos depois.

Além disso, realizar os exames indicados, manter consultas médicas regulares e procurar atendimento diante de alterações persistentes são atitudes fundamentais.

A vacinação contra o HPV e contra a hepatite B representa uma importante ferramenta de saúde pública e está disponível gratuitamente na rede pública brasileira.

Mais do que evitar uma infecção, a imunização pode ajudar a diminuir o risco de determinados tipos de câncer e proteger a saúde ao longo da vida.