A Braskem informou nesta segunda-feira (24) que o processo de recuperação extrajudicial da companhia não deverá afetar o pagamento das indenizações e os compromissos assumidos com o estado de Alagoas em relação aos danos provocados pelo afundamento do solo em Maceió. A manifestação foi divulgada ao mercado por meio de comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), após o conselho de administração da empresa aprovar o pedido de recuperação extrajudicial.
A declaração ocorre em meio à preocupação sobre os impactos financeiros que o processo poderá provocar nas obrigações da companhia. Segundo a Braskem, entretanto, a recuperação extrajudicial possui um alcance limitado e está concentrada exclusivamente em questões financeiras específicas.
A empresa afirmou que o procedimento não inclui obrigações assumidas com fornecedores, clientes e demais partes envolvidas em suas atividades. Dessa forma, segundo a companhia, os compromissos existentes continuam válidos e deverão ser cumpridos normalmente, conforme os contratos e acordos firmados.
Entre essas obrigações estão compromissos relacionados ao processo de reparação dos danos provocados pela atividade de mineração de sal-gema em Maceió, considerado um dos episódios ambientais mais graves registrados no Brasil nos últimos anos.
Acordo prevê R$ 1,2 bilhão para Alagoas
Em novembro de 2025, a Braskem firmou um acordo com o governo de Alagoas para o pagamento de R$ 1,2 bilhão em indenizações relacionadas aos danos provocados pelo afundamento do solo na capital alagoana.
O valor deverá ser pago de forma parcelada até 2030, conforme os termos estabelecidos entre a companhia e o governo estadual.
A origem do problema está relacionada à exploração de sal-gema realizada pela empresa ao longo de décadas. A atividade de mineração provocou instabilidades no subsolo de diferentes áreas de Maceió e acabou desencadeando um processo de afundamento do terreno.
O episódio teve consequências profundas para milhares de moradores e modificou de maneira permanente a paisagem urbana de bairros inteiros da capital.
A empresa afirma que o processo de recuperação extrajudicial não altera os compromissos relacionados a essas obrigações.
Recuperação extrajudicial tem escopo financeiro
De acordo com a Braskem, o processo de recuperação extrajudicial aprovado pelo conselho de administração possui um escopo “estritamente financeiro”.
A empresa informou que o procedimento não abrange compromissos assumidos com fornecedores, clientes e demais stakeholders. Na prática, a companhia sustenta que os contratos e obrigações existentes continuam em vigor.
A recuperação extrajudicial é um mecanismo utilizado por empresas que enfrentam dificuldades financeiras para reorganizar determinadas dívidas e negociar condições com credores.
Diferentemente de um processo de recuperação judicial, a recuperação extrajudicial ocorre por meio de negociações estruturadas com credores e pode permitir a reorganização de compromissos financeiros sem necessariamente interromper as atividades operacionais da empresa.
No caso da Braskem, a companhia reforça que o processo possui alcance delimitado e não representa uma suspensão geral de suas obrigações.
Um desastre que mudou Maceió
Os impactos provocados pela exploração de sal-gema ultrapassaram o ambiente empresarial e atingiram diretamente a vida de milhares de pessoas.
A mineração era realizada por meio de minas subterrâneas em diferentes áreas de Maceió. Com o passar do tempo, problemas relacionados à estabilidade do solo provocaram tremores, rachaduras em imóveis, fissuras em ruas e alterações na estrutura de bairros.
A situação levou à retirada de milhares de moradores de suas casas.
Mais de 60 mil pessoas foram afetadas pela necessidade de evacuação e pela desocupação de áreas consideradas de risco nos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol.
Famílias precisaram abandonar imóveis onde haviam construído suas histórias, muitas vezes deixando para trás vizinhanças, escolas, comércio local e relações estabelecidas ao longo de décadas.
O impacto social do episódio continua sendo sentido na cidade, mesmo anos depois da interrupção da atividade de mineração.
Mineração foi interrompida em 2019
A atividade de mineração de sal-gema na região foi interrompida em maio de 2019, após o agravamento da situação e o aumento dos riscos para áreas habitadas.
A interrupção, porém, não encerrou imediatamente os problemas relacionados às estruturas subterrâneas.
Um dos momentos mais marcantes ocorreu em 2023, quando a situação da Mina 18 passou a provocar novas preocupações.
Em novembro daquele ano, a Prefeitura de Maceió decretou situação de emergência pelo período de 180 dias diante do risco de colapso da estrutura.
As autoridades acompanhavam a possibilidade de movimentação do solo e orientavam a população sobre os riscos.
Pouco tempo depois, o temor se confirmou.
Colapso da Mina 18 provocou cratera
A Mina 18 acabou cedendo menos de duas semanas depois do decreto de emergência. O colapso provocou a abertura de uma grande cratera na região, com aproximadamente 300 metros de diâmetro.
O episódio chamou novamente a atenção do país para os riscos associados à mineração de sal-gema em Maceió e para as consequências que permaneceram mesmo após a interrupção das atividades.
Imagens da região mostraram a dimensão do deslocamento do solo e reforçaram a preocupação de moradores e autoridades.
O caso também aumentou a pressão por medidas de reparação e por garantias de segurança para as áreas afetadas.
Famílias enfrentaram perdas materiais e emocionais
Por trás dos números relacionados ao desastre ambiental existem milhares de histórias individuais.
Moradores que precisaram deixar suas casas enfrentaram não apenas perdas financeiras, mas também mudanças profundas em suas vidas.
Imóveis, estabelecimentos comerciais e espaços de convivência que faziam parte da rotina dos bairros precisaram ser abandonados.
Para muitas famílias, a saída dos bairros significou o rompimento de vínculos construídos ao longo de décadas.
A indenização, nesse contexto, representa uma tentativa de reparar parte dos prejuízos provocados pelo desastre, embora não seja capaz de recuperar completamente as relações comunitárias e as memórias associadas aos locais atingidos.
Compromissos continuam sendo acompanhados
Com a aprovação da recuperação extrajudicial, a declaração da Braskem busca transmitir segurança aos envolvidos nos acordos firmados em Alagoas.
A empresa afirma que as obrigações relacionadas a fornecedores, clientes e demais partes interessadas permanecem vigentes.
No caso específico das indenizações relacionadas a Maceió, o acordo de R$ 1,2 bilhão firmado com o governo estadual prevê pagamentos parcelados até 2030.
A manutenção desses compromissos será acompanhada pelas autoridades e pelas partes envolvidas no processo de reparação.
O tema continua sendo sensível para a população alagoana, especialmente para moradores que foram diretamente afetados pela crise provocada pelo afundamento do solo.
Recuperação financeira não encerra debate sobre Maceió
Embora o processo de recuperação extrajudicial tenha natureza financeira, seus efeitos passaram a ser observados com atenção por causa do histórico recente da companhia.
A Braskem está envolvida em um dos maiores casos de impacto ambiental urbano do país, e a reparação dos danos em Maceió continua sendo um assunto de grande relevância pública.
O desastre deixou consequências que vão muito além das questões financeiras. Envolveu deslocamento de milhares de pessoas, perda de imóveis, alterações urbanas e impactos emocionais que continuam presentes na memória dos moradores.
Por isso, a afirmação de que as indenizações não serão afetadas pelo processo financeiro é acompanhada de perto por autoridades, famílias atingidas e demais envolvidos.
Compromisso até 2030
O acordo firmado em 2025 estabelece um cronograma de pagamentos que se estende até 2030. A Braskem afirma que a recuperação extrajudicial não modifica essas obrigações.
A empresa sustenta que o processo aprovado pelo conselho de administração possui caráter estritamente financeiro e não alcança os compromissos assumidos em outras áreas.
Para Alagoas, a manutenção dos pagamentos representa uma questão importante dentro do processo de reparação dos danos provocados pelo desastre ambiental.
A história da mineração de sal-gema em Maceió ainda está longe de ser encerrada. Mesmo com a atividade interrompida desde 2019, as consequências continuam presentes na cidade e na vida de milhares de pessoas.
O episódio permanece como um alerta sobre os impactos que atividades industriais podem produzir quando envolvem áreas urbanas e estruturas subterrâneas.
Agora, diante do processo de recuperação extrajudicial, a Braskem afirma que seguirá cumprindo os compromissos assumidos.
A expectativa das autoridades e da população afetada é que os acordos sejam mantidos e que o processo de reparação continue avançando, garantindo que as famílias e o estado de Alagoas recebam os valores previstos.
Enquanto isso, Maceió continua convivendo com as marcas de um desastre que transformou bairros, deslocou milhares de pessoas e deixou uma das maiores questões ambientais urbanas do país como parte permanente da história recente da capital alagoana.














