A educação deverá ocupar um espaço cada vez mais importante no debate eleitoral brasileiro. É o que aponta o levantamento “O que a população pensa sobre a educação 2026”, realizado pelo Instituto IDEIA e encomendado por organizações do terceiro setor. De acordo com a pesquisa, sete em cada dez brasileiros consideram os planos de ação para a educação na hora de decidir em quem votar.
O dado revela uma mudança importante na forma como parte do eleitorado avalia os candidatos. Mais do que propostas gerais, a população demonstra interesse em saber quais medidas serão adotadas para enfrentar problemas que fazem parte do cotidiano de milhões de estudantes, famílias e profissionais da educação.
Entre as prioridades apontadas pelos entrevistados, a alfabetização aparece com destaque. 83% dos brasileiros defendem que a alfabetização das crianças seja uma prioridade dos candidatos nas próximas eleições. O resultado mostra que o tema deixou de ser visto apenas como uma questão pedagógica e passou a ocupar um espaço relevante nas expectativas da sociedade para os próximos governos.
A alfabetização é considerada uma etapa fundamental da trajetória escolar. Aprender a ler e escrever adequadamente nos primeiros anos do ensino fundamental cria as bases para que a criança consiga avançar em outras áreas do conhecimento e tenha melhores condições de acompanhar as etapas seguintes da educação.
Para Felipe Proto, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, os números demonstram que a população reconhece a importância dessa fase da aprendizagem.
Segundo ele, quando oito em cada dez pessoas apontam a alfabetização como prioridade, fica evidente que existe uma expectativa para que os governantes coloquem o tema no centro de seus planos de governo e de suas políticas educacionais.
Professor é apontado como peça central da educação
Outro ponto que aparece com força no levantamento é a valorização dos professores. 53% dos brasileiros apontam a melhoria dos salários e das condições de trabalho dos docentes como uma das principais prioridades para a educação.
A formação dos profissionais também aparece entre os temas mais citados. Cerca de 37% dos entrevistados consideram importante melhorar a formação dos professores, indicando que a sociedade relaciona diretamente a qualidade da educação às condições oferecidas aos profissionais responsáveis pelo ensino.
Quando questionados sobre o que define uma escola de qualidade, 17,8% dos entrevistados apontaram a qualidade do ensino como principal característica. Outros 13,1% citaram diretamente a presença de professores e profissionais qualificados, preparados e comprometidos.
Os dados reforçam uma percepção presente há anos no debate educacional: não basta ampliar o acesso às escolas se os profissionais não tiverem condições adequadas para ensinar e os estudantes não conseguirem desenvolver plenamente suas habilidades.
Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social/Fundação Itaú, avalia que a valorização dos professores deve ocupar posição central nas políticas públicas.
A melhoria da remuneração, das condições de trabalho e da formação profissional, nesse sentido, não beneficia somente os docentes. Ela também pode criar um ambiente mais favorável para que os estudantes aprendam e desenvolvam suas capacidades.
Alfabetização ainda enfrenta desafios
Apesar de a alfabetização ser considerada prioridade por grande parte da população, a pesquisa mostra que existe preocupação com os resultados alcançados atualmente.
Apenas 25% dos brasileiros concordam que as crianças estão aprendendo a ler e escrever no ritmo esperado. O resultado evidencia uma percepção de que ainda existem obstáculos importantes a serem enfrentados nos primeiros anos da educação básica.
O levantamento também aponta preocupação com a preparação dos jovens para a vida profissional. Somente 27% dos entrevistados consideram que a escola pública prepara bem os estudantes para o mercado de trabalho.
A percepção ajuda a explicar por que o ensino técnico também aparece entre as prioridades da população.
Ensino técnico é visto como caminho para novas oportunidades
A ampliação dos cursos técnicos foi apontada por 48% dos entrevistados como uma das principais prioridades para a educação.
O percentual demonstra que existe uma demanda social por uma formação que possa aproximar os jovens do mundo do trabalho e ampliar suas possibilidades de ingresso em diferentes áreas profissionais.
Ao mesmo tempo, 80% dos brasileiros consideram importante ampliar o ensino técnico para proporcionar mais oportunidades aos jovens.
A questão ganha relevância diante dos desafios enfrentados por estudantes que concluem o ensino médio e precisam decidir entre ingressar diretamente no mercado de trabalho ou continuar os estudos.
Para muitas famílias, uma formação técnica pode representar uma alternativa capaz de combinar educação e qualificação profissional em um período relativamente curto, aumentando as possibilidades de inserção no mercado.
Educação em tempo integral também ganha apoio
A pesquisa também avaliou a percepção dos brasileiros sobre o modelo de educação em tempo integral, política que ganhou espaço nas discussões educacionais dos últimos anos.
71% dos entrevistados afirmam já ter ouvido falar sobre escolas públicas em tempo integral. Apesar disso, apenas 38% dizem estar bem informados sobre a proposta.
A diferença entre conhecer o modelo e compreender efetivamente seu funcionamento influencia a percepção da população.
Entre aqueles que já ouviram falar sobre escolas de tempo integral, 52% afirmam que matriculariam ou já têm filhos matriculados nesse tipo de instituição. Entre as pessoas que não conhecem o modelo, o percentual cai para 33%.
O interesse também varia conforme a classe social. Pessoas das classes C, D e E demonstram maior disposição para matricular os filhos em escolas de tempo integral do que entrevistados das classes A e B.
A avaliação positiva segue tendência semelhante. Entre as classes C, D e E, os índices de avaliação positiva do modelo chegam a 51%, 49% e 49%, respectivamente. Entre as classes A e B, o percentual é de 37%.
Escola como espaço de aprendizagem e proteção
Os resultados indicam que o interesse pelo ensino integral não está relacionado apenas ao tempo adicional de permanência dos estudantes dentro da escola.
Entre os benefícios percebidos pela população estão a redução do tempo de exposição às telas e da exposição à criminalidade. Além disso, 57% dos brasileiros acreditam que o modelo prepara melhor os jovens para o ensino superior, enquanto 55% consideram que a preparação para o mercado de trabalho também melhora.
Outro dado chama atenção: 54% dos entrevistados avaliam que o ensino integral permite que os responsáveis trabalhem com mais tranquilidade.
Para Lia Rolnik, diretora-executiva interina do Instituto Sonho Grande, o maior interesse das classes C, D e E pode estar relacionado justamente à percepção de que a escola oferece, além do ensino, proteção e oportunidades que nem sempre estão disponíveis fora dela.
A avaliação reforça a importância de discutir não apenas a quantidade de horas que o aluno permanece na escola, mas principalmente a qualidade das atividades realizadas durante esse período.
Como os brasileiros avaliam as escolas públicas
Apesar dos desafios apontados, a percepção geral sobre a educação pública apresenta alguns sinais positivos.
45% dos brasileiros classificam como ótima ou boa a qualidade das escolas públicas de seus respectivos estados, enquanto 17% avaliam o cenário como ruim ou péssimo.
Além disso, 49% afirmam que a qualidade das escolas públicas melhorou nos últimos quatro anos. Para 29%, não houve diferença significativa no período, enquanto 17% consideram que a situação piorou ou piorou muito.
Ao mesmo tempo, permanece uma preocupação relevante: 42% dos brasileiros acreditam que a maioria dos alunos das escolas públicas não está aprendendo aquilo que seria esperado para sua idade e série.
O contraste mostra que, embora parte da população reconheça avanços, ainda existe uma percepção de que os resultados de aprendizagem precisam melhorar.
Educação pode influenciar o voto
Ao reunir diferentes aspectos da realidade educacional, a pesquisa apresenta uma mensagem importante para os próximos debates eleitorais: a população está olhando para a educação e espera propostas concretas dos candidatos.
A maioria dos entrevistados considera os planos de ação para o setor na hora de escolher em quem votar. Isso significa que temas como alfabetização, valorização dos professores, ensino técnico, educação em tempo integral e qualidade da aprendizagem podem ganhar ainda mais espaço nas discussões políticas.
Para as famílias, a educação não é apenas uma política pública distante. Ela está presente na rotina, no futuro dos filhos, nas oportunidades profissionais e na possibilidade de construir uma vida com mais autonomia.
É justamente por isso que os resultados do levantamento colocam uma responsabilidade adicional sobre os candidatos: apresentar propostas que sejam capazes de responder aos problemas identificados pela população e, principalmente, transformar compromissos de campanha em políticas públicas efetivas.
Pesquisa ouviu 20 mil brasileiros
O levantamento “O que a população pensa sobre a educação 2026” foi realizado pelo Instituto IDEIA e encomendado pela Fundação Itaú, Fundação Lemann, Instituto Natura, Instituto Sonho Grande, Instituto Unibanco e Todos pela Educação.
Foram entrevistados 20 mil brasileiros com 16 anos ou mais, abrangendo as 27 unidades da Federação. A coleta ocorreu entre maio e julho de 2026, com nível de confiança de 95% para cada uma das 27 amostras.
Os números mostram que a educação ocupa um lugar estratégico nas expectativas da população para os próximos anos. Mais do que reconhecer problemas, os brasileiros também demonstram saber quais áreas consideram prioritárias.
A alfabetização aparece como o principal alerta, mas divide espaço com uma cobrança por professores mais valorizados, formação profissional de qualidade, ampliação do ensino técnico e políticas de educação em tempo integral que sejam capazes de produzir resultados concretos.
À medida que o calendário eleitoral avança, esses temas tendem a ganhar ainda mais relevância. Para o eleitor, escolher um candidato também pode significar escolher qual projeto de educação deseja para seus filhos, sua comunidade e para o futuro do país.
A pesquisa deixa, portanto, um recado claro: educação importa para o eleitor e pode pesar cada vez mais na decisão diante das urnas.















