Diabetes pode tornar mais lenta a recuperação de pessoas que precisaram ser internadas por Covid-19 e aumentar o risco de complicações após a fase aguda da doença, aponta um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa acompanhou 870 pacientes durante sete meses depois da internação e identificou diferenças importantes entre pessoas com e sem diabetes, principalmente em relação à qualidade de vida, mobilidade, fragilidade e problemas cardiovasculares.

Os resultados reforçam uma preocupação que ganhou força entre profissionais de saúde desde os primeiros anos da pandemia: os efeitos da Covid-19 não terminam necessariamente quando o paciente recebe alta hospitalar. Para pessoas que convivem com doenças crônicas, como o diabetes, o período de recuperação pode exigir atenção prolongada e acompanhamento individualizado.

O estudo foi realizado com pacientes atendidos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP) durante a primeira fase da pandemia no Brasil. Naquele período, entre março e setembro de 2020, ainda não havia vacinas disponíveis contra a Covid-19, e os hospitais enfrentavam um cenário de grande incerteza diante de uma doença até então pouco conhecida.

Recuperação mais lenta entre pessoas com diabetes

Entre os participantes acompanhados pelos pesquisadores, 320 tinham diabetes e 550 não apresentavam a doença. Os dados mostraram que 94,3% dos pacientes sem diabetes relataram recuperação plena, enquanto o índice entre aqueles que conviviam com diabetes foi de 89,8%.

Embora a diferença possa parecer pequena à primeira vista, os pesquisadores encontraram outros sinais que mostram um impacto mais amplo da doença crônica sobre a recuperação após a Covid-19.

Pacientes com diabetes apresentaram maior frequência de complicações cardiovasculares, como infarto e angina, além de níveis mais elevados de fragilidade. Também foram observadas maiores dificuldades relacionadas à mobilidade e à realização de atividades cotidianas.

Para quem passou por uma internação grave, essas dificuldades podem representar uma mudança significativa na rotina. Tarefas que antes eram simples, como caminhar, levantar-se, realizar atividades domésticas ou sair de casa, podem se tornar mais difíceis durante o período de recuperação.

A pesquisadora Maria Elizabeth Rossi da Silva, chefe da Unidade de Diabetes do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, destacou a importância de enxergar o diabetes não apenas como um fator de risco durante a fase aguda da infecção, mas também como uma condição que pode influenciar o período posterior à alta.

Maior risco de quedas e perda de mobilidade

Um dos dados que mais chamaram a atenção dos pesquisadores está relacionado às quedas.

Entre os pacientes que tinham diabetes, 21,1% relataram ter sofrido quedas depois da alta hospitalar. No grupo sem diabetes, o percentual foi de 11,1%.

A diferença representa quase o dobro de ocorrências entre os pacientes diabéticos e mostra como a recuperação pode envolver consequências que vão além dos sintomas respiratórios normalmente associados à Covid-19.

A redução da mobilidade também foi considerada um dos principais problemas identificados no acompanhamento. Os pacientes com diabetes apresentaram pior desempenho em aspectos físicos e cognitivos, além de dificuldades para realizar determinadas atividades do dia a dia.

Essas limitações podem afetar diretamente a autonomia e o bem-estar das pessoas. Em muitos casos, a recuperação após uma internação exige fisioterapia, atividade física orientada, acompanhamento médico e apoio da família.

Por isso, os pesquisadores defendem que o acompanhamento não termine no momento em que o paciente deixa o hospital.

Coração pode estar entre os principais alvos

A relação entre diabetes, Covid-19 e problemas cardiovasculares também merece atenção.

De acordo com os pesquisadores, pessoas com diabetes já apresentam um organismo mais vulnerável a processos inflamatórios e alterações metabólicas. Quando uma infecção como a provocada pelo SARS-CoV-2 desencadeia uma resposta inflamatória intensa, essa condição pode aumentar a sobrecarga sobre diferentes órgãos.

O sistema cardiovascular está entre os que podem sofrer consequências.

A pesquisadora Maria Elizabeth Rossi da Silva explica que a inflamação associada ao diabetes pode se somar aos efeitos provocados pelo vírus, criando um cenário de maior risco para o coração, especialmente entre pacientes que também possuem outras doenças.

Isso significa que fatores como hipertensão, obesidade, problemas cardiovasculares e outras condições crônicas precisam ser considerados na avaliação individual de cada paciente.

Desigualdade social também influencia recuperação

Outro aspecto destacado pela pesquisa é que a saúde não depende apenas das condições biológicas de cada pessoa.

Questões socioeconômicas também podem influenciar diretamente a recuperação de pacientes com diabetes. O acesso aos serviços de saúde, a possibilidade de manter uma alimentação adequada, o nível de estresse e a disponibilidade de tempo e espaço para praticar atividades físicas são alguns dos fatores que podem interferir no controle da doença.

Para pessoas em situação de maior vulnerabilidade, manter consultas regulares, adquirir medicamentos, realizar exames e seguir recomendações alimentares pode ser mais difícil.

Por isso, os pesquisadores defendem que políticas públicas de saúde considerem essas diferenças e desenvolvam estratégias específicas para acompanhar pessoas com diabetes que passaram pela Covid-19.

A ideia é evitar que pacientes enfrentem um ciclo de complicações, novas internações e perda progressiva de qualidade de vida.

Covid-19 pode ter relação com novos casos de diabetes?

A pesquisa também encontrou um dado que chamou a atenção da equipe: 7,3% dos participantes que não tinham diabetes desenvolveram a doença depois da infecção pelo SARS-CoV-2.

Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que esse resultado não significa necessariamente que o vírus tenha provocado diretamente todos esses novos casos.

Uma das possibilidades levantadas é que a Covid-19 tenha contribuído para revelar casos de diabetes que já existiam, mas ainda não haviam sido diagnosticados. Outra hipótese é que a intensa resposta inflamatória provocada pela infecção possa ter funcionado como um gatilho em pessoas que já apresentavam predisposição para desenvolver a doença.

Também existe a possibilidade de participação direta do vírus em mecanismos relacionados às células do pâncreas, mas essa relação ainda precisa ser melhor investigada.

Pesquisa continua acompanhando pacientes

O trabalho desenvolvido pela equipe da USP não terminou após os sete meses de acompanhamento.

Os pesquisadores continuam analisando a evolução dos pacientes que participaram do estudo. Agora, uma nova etapa busca compreender como essas pessoas estão três anos após a infecção pelo coronavírus.

O acompanhamento de longo prazo é importante porque algumas consequências da Covid-19 podem persistir por períodos prolongados ou aparecer depois de meses.

A análise desses dados poderá ajudar os especialistas a compreender melhor a chamada Covid longa e identificar quais grupos apresentam maior risco de desenvolver limitações persistentes.

Atenção deve continuar mesmo após a alta

Os resultados do estudo reforçam uma mensagem importante: receber alta hospitalar não significa necessariamente que o organismo tenha retornado completamente às condições anteriores à infecção.

Para pessoas com diabetes, esse período pode exigir cuidados ainda maiores. Alterações na mobilidade, episódios de queda, dificuldades cognitivas, problemas cardiovasculares e redução da qualidade de vida são sinais que precisam ser acompanhados por profissionais de saúde.

É importante lembrar que o estudo não significa que todas as pessoas com diabetes que tiveram Covid-19 desenvolverão sequelas. Os resultados mostram uma associação entre a presença do diabetes e uma recuperação mais difícil em parte dos pacientes analisados.

Por isso, o acompanhamento deve ser individualizado. Pessoas que passaram por uma forma grave da Covid-19 ou que apresentam doenças crônicas devem conversar com seus profissionais de saúde sobre a necessidade de avaliações após a infecção.

A pesquisa brasileira contribui para ampliar o conhecimento sobre os efeitos de longo prazo da pandemia e mostra que cuidar dos sobreviventes também faz parte do enfrentamento da Covid-19.

Enquanto os pesquisadores continuam acompanhando os participantes, os novos resultados poderão ajudar a entender melhor como a infecção afetou a saúde ao longo dos anos e quais estratégias podem ser adotadas para garantir uma recuperação mais segura, especialmente entre pessoas que já convivem com condições crônicas como o diabetes.