Antes mesmo de receber as primeiras vacinas previstas no calendário infantil, um bebê pode chegar ao mundo já carregando uma importante camada de proteção contra algumas doenças. Essa defesa começa ainda durante a gestação, quando a mãe é vacinada e seu organismo produz anticorpos que podem atravessar a placenta e chegar ao feto.

O processo é conhecido como imunização materna e representa uma estratégia de prevenção que beneficia mãe e filho em momentos diferentes. Enquanto a gestante recebe o imunizante e desenvolve sua própria resposta imunológica, parte dos anticorpos produzidos circula pelo sangue materno e é transferida para o bebê durante a gravidez.

Essa proteção é especialmente importante nos primeiros meses de vida, período em que o sistema imunológico da criança ainda está amadurecendo e o calendário próprio de vacinação está apenas começando.

O recém-nascido ainda não teve tempo suficiente para desenvolver todas as suas defesas. Por isso, os anticorpos recebidos da mãe funcionam como uma espécie de proteção temporária durante uma fase considerada delicada.

“O sistema imunológico do recém-nascido ainda está em formação e ele simplesmente não teve tempo de criar proteção própria”, explica Eduardo Jorge da Fonseca Lima, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Uma proteção que começa antes do parto

A vacinação durante a gravidez não significa que a vacina seja aplicada diretamente no bebê. O processo acontece por meio da resposta imunológica da mãe.

Depois que a gestante recebe o imunizante, seu sistema de defesa reconhece os componentes da vacina e passa a produzir anticorpos específicos. Alguns desses anticorpos conseguem atravessar a placenta e alcançar a circulação do feto.

A placenta exerce papel fundamental nessa transferência. Além de participar das trocas necessárias para o desenvolvimento do bebê, ela permite que determinados anticorpos maternos sejam transportados para a criança.

Essa passagem não acontece com a mesma intensidade durante toda a gravidez. A transferência de anticorpos aumenta principalmente no final da gestação e é considerada máxima a partir da 28ª semana.

Por isso, o momento em que determinadas vacinas são aplicadas é importante para que o bebê possa receber uma quantidade adequada de anticorpos antes do nascimento.

“A transferência é essencial para que o bebê recém-nascido tenha uma proteção temporária enquanto ainda não dispõe de suas próprias ferramentas imunológicas”, explica a infectologista Carolina Ciprano, membro do comitê de imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

VSR está entre as principais preocupações

Entre as doenças que mais preocupam nos primeiros meses está o vírus sincicial respiratório (VSR), uma das principais causas de infecções respiratórias em crianças pequenas e fortemente associado a quadros de bronquiolite e pneumonia.

Nos bebês, uma inflamação nas vias respiratórias pode se tornar mais grave devido ao pequeno calibre dessas estruturas. Em determinadas situações, uma infecção respiratória pode evoluir para dificuldade importante para respirar e necessidade de atendimento hospitalar.

A vacinação materna contra o VSR começou a ser oferecida na rede pública em dezembro de 2025 para gestantes a partir da 28ª semana de gravidez.

A estratégia busca justamente aproveitar a transferência de anticorpos pela placenta para que a criança nasça com uma proteção adicional durante os primeiros meses.

Os primeiros números nacionais após a incorporação da vacina chamaram atenção. No primeiro semestre de 2026, o Ministério da Saúde registrou uma redução de 52,5% nos casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) associados ao VSR entre crianças menores de seis meses, na comparação com o mesmo período de 2025.

A queda foi mais acentuada nessa faixa etária do que entre crianças maiores, grupo que não é diretamente alcançado pela mesma estratégia de vacinação durante a gestação.

Os dados ainda são considerados preliminares, e o Ministério da Saúde conduz análises para estimar o impacto da imunização sobre os casos graves evitados. Por isso, as estimativas atuais não devem ser tratadas como números definitivos.

Bebês prematuros exigem atenção especial

A prematuridade traz um desafio adicional para a transferência dos anticorpos maternos.

Como a passagem dessas proteínas de defesa aumenta principalmente no final da gestação, um bebê que nasce muito antes do previsto pode ter recebido uma quantidade menor de anticorpos.

Isso significa que justamente crianças que podem apresentar maior vulnerabilidade diante de determinadas infecções podem contar com uma proteção materna reduzida quando o parto ocorre precocemente.

Alterações na placenta também podem interferir nesse processo.

Por essa razão, a vacinação durante a gravidez continua sendo importante, mas pode precisar ser complementada por outras estratégias de proteção para grupos considerados de maior risco.

No caso do VSR, o Sistema Único de Saúde disponibiliza o nirsevimabe para grupos definidos pelo Ministério da Saúde, incluindo recém-nascidos prematuros e crianças menores de 24 meses que apresentam determinadas condições associadas a um risco maior de desenvolver formas graves.

O nirsevimabe é um anticorpo monoclonal. Diferentemente da vacina aplicada na gestante, ele não estimula o organismo da mãe a produzir anticorpos para depois transferi-los ao bebê. Nesse caso, a criança recebe diretamente uma proteína de defesa pronta.

A proteção materna tem prazo

Os anticorpos recebidos da mãe oferecem uma proteção importante, mas não permanente.

Como essas moléculas não são produzidas continuamente pelo organismo do bebê, sua concentração diminui naturalmente ao longo dos meses. De maneira geral, a proteção pode permanecer por aproximadamente seis meses, embora a duração varie conforme o anticorpo, a doença, o momento da vacinação e as características individuais.

Essa característica ajuda a explicar por que a vacinação infantil continua indispensável.

A criança precisa, progressivamente, desenvolver sua própria resposta imunológica. As vacinas administradas após o nascimento estimulam o sistema de defesa infantil a reconhecer determinados agentes infecciosos e criar memória imunológica.

“A imunidade recebida da mãe protege o bebê num primeiro momento em que ele está mais vulnerável. No entanto, ela é limitada e diminui com o tempo. Com o amadurecimento, a criança passa a produzir a sua própria resposta imunológica”, explica Carolina Ciprano.

Assim, a vacinação da gestante e a vacinação da criança não competem entre si. Pelo contrário, são estratégias complementares.

Amamentação acrescenta outra camada de proteção

Depois do nascimento, outra forma de proteção entra em cena: a amamentação.

O leite materno contém anticorpos e outros componentes imunológicos que ajudam a proteger o bebê contra microrganismos presentes no ambiente.

O mecanismo, entretanto, é diferente daquele proporcionado pelos anticorpos transferidos pela placenta.

Durante a gravidez, os anticorpos chegam diretamente à circulação do feto e oferecem uma proteção sistêmica. No leite materno, os componentes imunológicos atuam principalmente nas superfícies que entram em contato com microrganismos, como as mucosas do trato gastrointestinal e outras regiões.

Por isso, a amamentação não substitui a vacinação materna nem o calendário de imunização infantil. Cada estratégia atua de uma maneira diferente.

A proteção do bebê é construída em camadas: primeiro, os anticorpos recebidos da mãe durante a gestação; depois, os componentes imunológicos oferecidos pela amamentação; paralelamente, as vacinas infantis começam a estimular o próprio organismo da criança.

Cobertura vacinal ainda é um desafio

O Brasil conseguiu recuperar parte das coberturas vacinais nos últimos anos, inclusive entre gestantes, mas os resultados variam conforme o imunizante.

A cobertura da dTpa, por exemplo, passou de 33,81% em 2016 para 93,59% em 2025. Os dados preliminares de 2026 apontam cobertura de 87,86%.

Desde 2023, mais de 6,6 milhões de doses foram distribuídas pelo SUS para gestantes. A vacina contra o VSR também apresentou adesão elevada nos primeiros meses de oferta na rede pública.

Por outro lado, a situação ainda é considerada preocupante para vacinas contra influenza e Covid-19.

Entre os fatores associados à baixa adesão estão a hesitação vacinal