Menino em idade pré-escolar desenvolveu uma rara condição dermatológica depois de passar várias horas por dia utilizando um notebook diretamente sobre o abdômen. O caso foi acompanhado por médicos do University Hospitals of Leicester NHS Trust, no Reino Unido, e chamou atenção para um problema que pode passar despercebido: o chamado eritema ab igne, conhecido popularmente como “síndrome da pele tostada”.
A condição é provocada pela exposição prolongada e repetida da pele a fontes de calor que, embora não sejam suficientemente quentes para causar uma queimadura imediata, podem provocar alterações nos vasos sanguíneos e nos tecidos da região.
O caso foi publicado em julho deste ano no BMJ Case Reports e reforça um alerta especialmente importante diante do aumento do tempo que crianças e adolescentes passam utilizando computadores, tablets e outros dispositivos eletrônicos.
O que é a síndrome da pele tostada?
O eritema ab igne é uma dermatose caracterizada pelo aparecimento de manchas avermelhadas, arroxeadas ou mais escuras na pele. Com o passar do tempo, essas marcas podem assumir um formato semelhante a uma rede ou um desenho reticulado.
A expressão “pele tostada” surgiu justamente por causa da aparência das lesões, que podem lembrar uma área submetida repetidamente ao calor.
Historicamente, a condição era mais comum entre pessoas que permaneciam durante muito tempo próximas a lareiras, aquecedores ou outras fontes de calor. Também podia ocorrer pelo uso frequente de bolsas de água quente ou objetos aquecidos diretamente sobre determinada parte do corpo.
Com a popularização dos equipamentos eletrônicos, entretanto, médicos passaram a observar novos casos relacionados ao uso prolongado de notebooks e outros aparelhos próximos à pele.
Notebook era utilizado diretamente sobre o abdômen
No caso relatado pelos médicos britânicos, o menino recebia educação domiciliar e passava muitas horas realizando atividades escolares pelo computador.
Em vez de utilizar o equipamento sobre uma mesa ou outra superfície adequada, ele costumava apoiá-lo diretamente sobre a barriga. A situação se repetia durante aproximadamente oito horas por dia.
O problema era agravado pelo fato de o aparelho ser utilizado, em algumas ocasiões, enquanto estava conectado à tomada e carregando.
O calor produzido pelo equipamento permanecia próximo à pele durante longos períodos. Como a temperatura não provocava uma sensação imediata de dor ou não era suficiente para causar bolhas como uma queimadura convencional, o garoto não percebeu inicialmente que sua pele estava sendo afetada.
Esse aspecto é considerado um dos motivos pelos quais o eritema ab igne pode evoluir silenciosamente.
Lesão inicialmente levantou outra suspeita
Quando o menino foi levado ao hospital, a equipe médica inicialmente considerou a possibilidade de que as alterações observadas na pele estivessem relacionadas a um problema interno, incluindo uma possível lesão hepática.
Foram realizados exames, entre eles análises de sangue e tomografia, para investigar a origem dos sinais apresentados.
Os resultados, porém, não indicaram uma condição grave relacionada ao fígado. A avaliação médica apontou que a alteração cutânea não representava, naquele momento, um risco imediato ao menino, e ele recebeu alta.
Duas semanas depois, no entanto, a família retornou ao hospital porque as lesões haviam piorado.
A área afetada havia aumentado e apresentava descamação, o que levou os profissionais a aprofundarem a investigação sobre a rotina da criança.
Foi durante essa análise mais detalhada dos hábitos diários que os médicos identificaram a exposição prolongada ao calor do notebook como a provável causa das alterações na pele.
Como o calor provoca as lesões?
O eritema ab igne ocorre quando determinada região do corpo é submetida repetidamente a uma fonte de calor por períodos prolongados.
A exposição pode provocar alterações nos pequenos vasos sanguíneos da pele. Com o tempo, essas modificações podem resultar no surgimento de manchas e alterações na pigmentação.
Em alguns casos, a pele também pode apresentar ressecamento, descamação ou mudanças na textura.
Diferentemente de uma queimadura convencional, a temperatura envolvida no eritema ab igne geralmente não é alta o suficiente para provocar uma lesão imediata e dolorosa.
Isso significa que uma pessoa pode permanecer durante horas em contato com uma fonte de calor sem perceber que está causando danos à pele.
No caso das crianças, a atenção deve ser ainda maior, especialmente quando elas passam longos períodos utilizando equipamentos eletrônicos em posições inadequadas.
Quais aparelhos podem causar o problema?
Embora o caso britânico esteja relacionado ao notebook, a condição não é exclusiva desse tipo de aparelho.
Qualquer fonte de calor utilizada repetidamente e próxima à pele pode, em determinadas circunstâncias, favorecer o surgimento do eritema ab igne.
Além dos computadores, situações semelhantes podem envolver bolsas térmicas, aquecedores e outros equipamentos que produzam calor constante.
Por isso, especialistas recomendam evitar o contato prolongado de fontes de calor diretamente com a pele, principalmente quando não há necessidade de manter o objeto naquela posição.
No caso dos notebooks, utilizar uma mesa ou suporte apropriado também ajuda a melhorar a ventilação do equipamento e evita que o calor fique concentrado sobre uma parte do corpo.
Lesões podem desaparecer, mas exigem atenção
De acordo com os especialistas, casos leves podem melhorar gradualmente depois que a exposição ao calor é interrompida. Foi o que ocorreu com o menino britânico.
Meses após o atendimento hospitalar, os pais relataram, durante uma consulta por telefone, que as lesões haviam diminuído progressivamente até desaparecer.
Apesar disso, os médicos alertam que alterações persistentes não devem ser ignoradas.
Em exposições mais intensas ou prolongadas, algumas mudanças na pele podem permanecer mesmo depois que a fonte de calor é retirada. Além disso, a literatura médica aponta que alterações crônicas provocadas pelo calor podem, em situações raras, estar associadas a complicações mais sérias, incluindo determinados tipos de câncer de pele.
Entre os tumores descritos nesse contexto estão o carcinoma de células escamosas e, mais raramente, o carcinoma de células de Merkel.
Essas complicações são consideradas incomuns e podem levar muitos anos para aparecer. Por isso, o alerta não significa que toda pessoa que utiliza um notebook próximo ao corpo desenvolverá câncer, mas reforça a importância de evitar exposições repetitivas e desnecessárias.
Atenção aos hábitos das crianças
O caso também chama atenção para a necessidade de acompanhar como crianças e adolescentes utilizam dispositivos eletrônicos durante atividades escolares e momentos de lazer.
Além do tempo excessivo diante das telas, a posição do equipamento pode representar riscos que muitas vezes passam despercebidos pelos familiares.
Uma mancha diferente, especialmente com formato semelhante a uma rede, que surge em uma área frequentemente exposta ao calor deve ser avaliada por um profissional de saúde.
O diagnóstico correto também é importante para evitar exames ou tratamentos desnecessários e identificar rapidamente a origem do problema.
A principal recomendação é simples: notebooks não devem ser utilizados diretamente sobre a pele por períodos prolongados. O ideal é manter o equipamento sobre uma superfície adequada, permitindo ventilação e evitando o contato contínuo do calor com o corpo.
O caso do menino britânico mostra como um hábito aparentemente inofensivo pode provocar alterações dermatológicas quando repetido diariamente por muitas horas.
Mais do que um alerta sobre notebooks, o episódio serve como um lembrete para que famílias estejam atentas aos pequenos detalhes da rotina. Em tempos de educação digital e uso cada vez maior de dispositivos eletrônicos, cuidar da forma como esses equipamentos são utilizados também faz parte da prevenção e da proteção à saúde.















