A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes passou a ocupar um espaço importante nas estratégias eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL). Na reta final da disputa pela Presidência da República, o ambiente de tensão em torno da Corte deixou de ser apenas uma questão jurídica ou institucional e passou a fazer parte dos cálculos políticos das duas campanhas.
Nos bastidores, as equipes dos candidatos avaliam cuidadosamente até que ponto o tema deve ser explorado. Enquanto aliados de Lula defendem que a crise seja colocada em segundo plano, priorizando assuntos que afetam diretamente a vida da população, como inflação, preço dos alimentos e renda, integrantes da campanha de Flávio enxergam no desgaste envolvendo o Supremo uma oportunidade para fortalecer o discurso de mudança.
A disputa, porém, é mais complexa do que simplesmente escolher entre defender ou criticar o STF. Para Lula, qualquer crítica direta a um ministro da Corte precisa considerar sua posição institucional como presidente da República. Para Flávio, por outro lado, transformar o Supremo no principal assunto da campanha pode abrir espaço para que adversários retomem episódios delicados relacionados ao grupo político ligado ao seu pai, Jair Bolsonaro.
Lula tenta deslocar o debate para a economia
Dentro da campanha de Lula, uma das principais avaliações é de que insistir excessivamente na crise do STF não ajudará o presidente a recuperar terreno na corrida eleitoral. A estratégia defendida por parte dos aliados é concentrar a comunicação em temas econômicos e em resultados que possam dialogar diretamente com o cotidiano dos eleitores.
O preço dos alimentos e a inflação estão entre os principais pontos de preocupação identificados pela equipe petista. A avaliação é de que o custo de vida pode ter influência significativa sobre a percepção dos eleitores, especialmente entre as famílias de menor renda.
O crescimento de Flávio Bolsonaro nesse segmento é acompanhado com atenção pelos aliados do presidente. A campanha avalia que o adversário conseguiu transformar o debate econômico em uma das principais ferramentas de comunicação eleitoral.
Por isso, Lula passou a intensificar conteúdos relacionados à fome, à pobreza e ao preço da carne. Entre segunda-feira (14) e terça-feira (15), o presidente publicou nas redes sociais conteúdos voltados justamente a esses assuntos.
Uma das peças resgata o período do governo Jair Bolsonaro para fazer uma comparação com os indicadores atuais. O material destaca a saída do Brasil do Mapa da Fome e apresenta o combate à miséria como uma das prioridades da atual administração.
A estratégia é clara: tentar fazer com que a eleição seja discutida a partir das condições econômicas e sociais do país, e não exclusivamente em torno da crise institucional envolvendo o Supremo.
Pesquisa aumenta preocupação no campo petista
A mudança de estratégia ocorre em um momento de atenção especial para a campanha de Lula. Uma pesquisa Quaest divulgada recentemente mostrou, pela primeira vez desde o início oficial da campanha, Flávio Bolsonaro numericamente à frente do presidente em uma simulação de segundo turno.
O senador aparece com 42% das intenções de voto, enquanto Lula registra 40%. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, os dois candidatos estão tecnicamente empatados.
Outro dado observado com atenção pela campanha petista é o desempenho entre as mulheres. Esse era um dos grupos em que Lula apresentava uma vantagem mais confortável, mas a distância diminuiu.
Em agosto, o presidente tinha 47% entre as eleitoras, contra 35% de Flávio. No levantamento mais recente, Lula aparece com 41%, enquanto o senador alcança 38%.
A aproximação reforçou a necessidade de rever a comunicação eleitoral e buscar temas capazes de recuperar a vantagem entre segmentos considerados estratégicos.
Flávio vê crise como oportunidade política
Na campanha de Flávio Bolsonaro, a leitura é diferente. A crise envolvendo o STF é considerada um dos fatores que ajudaram a criar um ambiente favorável ao crescimento do senador.
Aliados reconhecem, entretanto, que a economia e o custo de vida também desempenham papel central na evolução do candidato nas pesquisas. Por isso, a estratégia não deverá ficar limitada às críticas ao Supremo.
A equipe pretende manter a associação entre Alexandre de Moraes e o atual governo como parte do discurso político, mas sem transformar o STF no único assunto da campanha.
A avaliação interna é de que o desgaste da imagem do ministro já produziu efeitos suficientes para ser utilizado eleitoralmente. A estratégia, portanto, é explorar o tema de maneira controlada e combiná-lo com propostas relacionadas à segurança pública, economia, corrupção e soberania.
Nas redes sociais, Flávio divulgou um vídeo no qual critica integrantes do Supremo e afirma que parte da Corte teria descumprido a lei. O senador também classificou o atual cenário político como resultado de um “sistema apodrecido”.
Em outra declaração, afirmou que Lula teria dividido seu poder com Alexandre de Moraes e que, como consequência, o Brasil teria ficado “sem presidente” e “sem comando”.
O discurso procura apresentar Flávio como candidato capaz de promover uma mudança na relação entre os Poderes e combater aquilo que seus aliados classificam como excessos institucionais.
Custo de vida ganha espaço na campanha
Apesar da forte retórica sobre o STF, a equipe de Flávio pretende ampliar a presença de temas econômicos na propaganda eleitoral.
Uma das peças produzidas pela campanha mostra o candidato em supermercados e utiliza o preço dos alimentos como elemento central para questionar a administração de Lula.
A ideia é aproximar o discurso eleitoral da realidade cotidiana do eleitor. Em vez de concentrar a comunicação apenas em temas políticos, a campanha busca mostrar como inflação e preços elevados interferem diretamente na vida das famílias.
A estratégia também mira as mulheres, segmento no qual Flávio vinha enfrentando maior resistência, mas no qual passou a apresentar crescimento.
Aliados pretendem reforçar mensagens relacionadas à segurança pública, proteção das mulheres e custo de vida. Esses temas devem ganhar ainda mais importância na preparação para o debate previsto para a TV Globo, em 1º de outubro.
A orientação é que o STF apareça de maneira mais limitada no confronto direto.
“Dark Horse” é ponto de atenção
A decisão de reduzir o espaço dedicado ao Supremo também tem relação com uma preocupação estratégica da campanha de Flávio: evitar que Lula utilize a crise institucional para puxar o debate para o caso envolvendo o filme “Dark Horse”.
Flávio é investigado pela Polícia Federal por suspeitas relacionadas à captação e à destinação de recursos arrecadados para financiar a produção.
Nos últimos dias, o assunto voltou ao centro das atenções. Em 10 de setembro, Flávio classificou como “terceira facada” uma operação da Polícia Federal que teve como alvos o deputado Mário Frias (PL-SP) e pessoas ligadas à produção do filme. A ação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino.
No dia seguinte, ao comentar o inquérito no qual também é investigado, Flávio defendeu a divulgação das informações e afirmou que a transparência poderia confirmar sua versão sobre o episódio.
Para sua campanha, porém, o tema representa uma vulnerabilidade que precisa ser administrada. Quanto mais espaço a crise do STF ocupar, maior pode ser o risco de o debate eleitoral migrar para assuntos relacionados ao grupo político bolsonarista.
Eleição entra na reta decisiva
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro chega, portanto, a uma fase em que cada movimento pode produzir efeitos importantes.
O presidente precisa lidar com o desafio de melhorar sua percepção entre eleitores preocupados com a economia e, ao mesmo tempo, evitar que a crise envolvendo o STF domine sua campanha.
Flávio, por sua vez, tenta aproveitar o desgaste institucional para ampliar sua vantagem, mas sem permitir que o debate sobre o Supremo esconda temas nos quais pretende conquistar eleitores, como segurança, custo de vida e políticas voltadas às mulheres.
O resultado dessa disputa dependerá não apenas dos acontecimentos políticos e judiciais, mas também da capacidade de cada campanha de transformar esses assuntos em mensagens que façam sentido para o eleitor.
Na prática, a crise no STF passou a integrar o cenário eleitoral, mas nenhum dos dois candidatos parece disposto a permitir que ela determine sozinha os rumos da eleição.
Com a aproximação dos principais debates e de uma fase decisiva da campanha, Lula e Flávio deverão intensificar suas estratégias. De um lado, o presidente tentará defender seu legado econômico e social. Do outro, o senador buscará apresentar-se como representante de uma mudança política.
Entre acusações, pesquisas, debates e preocupações com o custo de vida, a eleição entra em uma etapa na qual a percepção do eleitor poderá ser decisiva. E, nesse cenário, o STF deixou de ser apenas tema dos tribunais para se transformar também em uma peça importante do tabuleiro eleitoral.














