Mário Frias, deputado federal pelo PL de São Paulo, classificou como uma “cortina de fumaça” a operação da Polícia Federal que cumpriu mandados de busca e apreensão em sua residência nesta quinta-feira (10). Em um vídeo publicado nas redes sociais após a ação, o parlamentar negou ter cometido irregularidades, afirmou que pretende colaborar com as autoridades e disse acreditar que a investigação será arquivada.
A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), dentro de uma investigação que apura possíveis irregularidades relacionadas à destinação e utilização de recursos provenientes de emendas parlamentares.
Segundo Frias, os agentes federais estiveram em sua residência e apreenderam um celular, documentos e um computador. O deputado ressaltou que não houve prisão durante a ação e afirmou que pretende entregar às autoridades todos os documentos solicitados.
“Se há alguma nota que a CGU quer ver, isso se resolve com documento, não com operação em ano de eleição. Cortina de fumaça”, declarou.
A manifestação marcou a primeira reação pública do parlamentar após a operação e colocou o caso no centro do debate político, especialmente em razão da proximidade do período eleitoral.
Deputado nega irregularidades
Durante o vídeo divulgado nas redes sociais, Mário Frias afirmou que a investigação envolve R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas a dois projetos.
De acordo com o deputado, os recursos foram direcionados para iniciativas nas áreas de esporte e letramento digital, com o objetivo, segundo ele, de oferecer atividades e oportunidades de desenvolvimento para crianças e adolescentes.
“A investigação é sobre uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões que eu destinei para contemplar um projeto esportivo e outro de letramento digital para tirar crianças da rua, para ensinar crianças, jovens e adolescentes a se desenvolverem intelectualmente”, afirmou.
Frias também procurou explicar o funcionamento das emendas parlamentares e argumentou que os recursos não são entregues diretamente aos deputados responsáveis pela indicação.
Segundo ele, depois da indicação parlamentar, o dinheiro segue os procedimentos previstos para chegar ao órgão responsável pela execução do projeto, que deve analisar o plano de trabalho e posteriormente acompanhar a aplicação dos recursos.
“Emenda parlamentar não é dinheiro que passa pela mão do deputado. Ela vai do Tesouro para o órgão executor, que aprova um plano de trabalho previamente e fiscaliza prestação de contas”, disse.
A declaração faz parte da estratégia do parlamentar de contestar qualquer eventual relação direta entre sua atuação como autor das emendas e possíveis irregularidades na execução dos projetos investigados.
Investigação mira recursos de emendas
A apuração conduzida pela Polícia Federal envolve duas emendas de autoria de Mário Frias que, segundo as informações da investigação, destinaram R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil (ICB).
A entidade é presidida por Karina Ferreira da Gama. Os recursos foram utilizados para financiar dois termos de fomento que passaram a ser analisados pelos investigadores.
A investigação busca esclarecer se houve irregularidades na destinação, execução ou movimentação dos valores e se os recursos públicos foram empregados de acordo com as finalidades previstas nos respectivos projetos.
Como se trata de uma investigação em andamento, eventuais suspeitas ainda precisam ser comprovadas. A realização de busca e apreensão, por si só, não significa que o investigado tenha sido considerado culpado.
O objetivo desse tipo de medida é permitir que os investigadores tenham acesso a documentos, equipamentos e outras informações que possam ajudar na apuração dos fatos.
PF também encontrou movimentações para produtora
Além das emendas, os investigadores identificaram movimentações financeiras relacionadas à empresa Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, produção associada à trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo informações presentes no relatório policial, Mário Frias teria transferido R$ 645,4 mil para a empresa em um período inferior a 60 dias.
A Polícia Federal questionou a origem e o chamado “lastro financeiro” desses valores. De acordo com os investigadores, os rendimentos mensais informados pelo parlamentar, de R$ 44.008,52, levantaram dúvidas sobre a capacidade financeira para realizar as transferências apontadas na investigação.
Esse ponto aparece como uma das questões analisadas pelos investigadores e deverá ser esclarecido durante o andamento do procedimento.
No vídeo publicado após a operação, entretanto, Frias não apresentou uma resposta específica ao questionamento relacionado à origem dos R$ 645,4 mil transferidos para a produtora.
O parlamentar concentrou sua manifestação principalmente na defesa da regularidade das emendas parlamentares e na disposição de colaborar com as autoridades.
Operação ocorre em meio ao ambiente eleitoral
A reação de Mário Frias também foi marcada por críticas à realização da operação durante um período de forte movimentação política.
Ao classificar a ação como uma “cortina de fumaça” e mencionar o ano eleitoral, o deputado levantou dúvidas sobre o momento escolhido para o cumprimento das medidas.
A avaliação, porém, faz parte da manifestação política do próprio parlamentar e não representa uma conclusão da investigação.
Do outro lado, a autorização judicial para a realização das buscas demonstra que o caso está sendo tratado dentro de uma investigação formal, conduzida pelas autoridades competentes.
A partir dos materiais recolhidos, os investigadores deverão analisar documentos, arquivos digitais, movimentações financeiras e outras informações que possam ajudar a esclarecer as suspeitas.
Busca e apreensão não significa condenação
Casos envolvendo operações policiais e autoridades públicas costumam gerar grande repercussão antes mesmo da conclusão das investigações. Por isso, especialistas e instituições costumam destacar a necessidade de diferenciar suspeitas, diligências e provas de uma eventual responsabilidade criminal.
No caso de Frias, a operação representa uma etapa da investigação. Não há, a partir da busca e apreensão, uma condenação do parlamentar.
O avanço do procedimento poderá indicar se as suspeitas apresentadas pelos investigadores possuem elementos suficientes para novas medidas ou se os esclarecimentos apresentados pelos envolvidos serão considerados suficientes.
O deputado, por sua vez, afirma que está disposto a colaborar e fornecer os documentos solicitados.
Caso deve continuar sob análise do STF
Por envolver um parlamentar federal e fatos que estão sendo apurados no âmbito de uma investigação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, o caso deverá continuar sendo acompanhado pela Corte.
A análise dos materiais apreendidos poderá ser importante para reconstruir o caminho dos recursos e verificar se houve compatibilidade entre os valores movimentados, os projetos apresentados e os serviços efetivamente realizados.
Também será necessário esclarecer a relação financeira apontada entre Mário Frias e a Go Up Entertainment, incluindo a origem dos recursos transferidos e a finalidade dos pagamentos identificados pela Polícia Federal.
Essas questões ainda estão sob investigação e deverão ser avaliadas com base nos documentos e demais elementos reunidos pelas autoridades.
Deputado afirma confiar no arquivamento
Após a operação, Mário Frias adotou um tom de defesa e afirmou acreditar que o caso será arquivado depois que os esclarecimentos forem apresentados.
O parlamentar também reiterou que não teme colaborar com a investigação e que pretende fornecer às autoridades todos os documentos necessários para explicar sua atuação.
A partir de agora, a expectativa é que a Polícia Federal avance na análise do material recolhido durante as buscas e aprofunde a apuração sobre os recursos das emendas e as movimentações financeiras mencionadas no relatório.
O caso coloca novamente no centro do debate a fiscalização das emendas parlamentares, a transparência na utilização de recursos públicos e os mecanismos utilizados pelos órgãos de controle para acompanhar a execução dos projetos financiados com dinheiro público.
Enquanto a investigação segue, permanece a versão apresentada por Mário Frias de que não houve irregularidade em sua atuação e de que os questionamentos poderão ser esclarecidos por meio da documentação. A conclusão sobre eventual responsabilidade, contudo, dependerá do resultado das apurações e das decisões tomadas pelas autoridades responsáveis pelo caso.














