Juliana Linhares viveu uma noite especial neste domingo (20), no Teatro da UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro. Durante uma apresentação gratuita do espetáculo “Até cansar o cansaço”, dentro da programação da 15ª edição do festival Interculturalidades, a cantora potiguar dividiu o palco com Anastácia, uma das grandes referências da música nordestina.
O encontro reuniu duas artistas separadas por cinco décadas de diferença de idade, mas aproximadas por uma mesma linguagem musical. Aos 36 anos, Juliana Linhares vem consolidando uma trajetória marcada pela força da interpretação, pela teatralidade e pela pesquisa da música brasileira. Anastácia, aos 86, carrega mais de seis décadas de carreira e um repertório que atravessou gerações.
Mais do que uma participação especial, a presença de Anastácia representou uma espécie de reconhecimento entre artistas de diferentes momentos da música brasileira. O encontro colocou frente a frente uma cantora que ajudou a construir parte da história da música nordestina e outra que vem renovando essa tradição com personalidade própria.
Um espetáculo que já nasceu grandioso
Desde o início da turnê, em 16 de julho, “Até cansar o cansaço” vem sendo apresentado como um espetáculo de forte presença cênica.
Juliana Linhares não se limita a interpretar as músicas. Seu desempenho combina canto, gestos, movimentos e inflexões que transformam cada apresentação em uma experiência que vai além da execução do repertório.
A artista potiguar constrói no palco uma personagem que dialoga com diferentes referências da música brasileira, mas sem abandonar sua própria identidade.
O repertório também ajuda a criar essa atmosfera. Há espaço para ritmos nordestinos, canções contemporâneas e composições que tratam de sentimentos, cotidiano, desejo, resistência e liberdade.
Foi dentro desse universo que Anastácia apareceu como uma convidada especialmente significativa.
Anastácia representa uma ponte entre gerações
Nascida Lucinete Ferreira, em Recife, em 30 de maio de 1940, Anastácia construiu uma carreira diretamente ligada à música nordestina.
A cantora vive em São Paulo desde os 20 anos e permaneceu em atividade artística por mais de seis décadas. Seu repertório inclui algumas das canções que ajudaram a popularizar ritmos e narrativas nordestinas em diferentes regiões do Brasil.
Sua trajetória também está profundamente relacionada a nomes fundamentais da música brasileira, entre eles Dominguinhos e Luiz Gonzaga.
Por isso, quando Anastácia sobe ao palco de Juliana Linhares, o momento ganha uma dimensão que ultrapassa a simples participação de uma convidada.
É também uma conversa entre diferentes gerações.
Juliana cresceu artisticamente em um cenário no qual artistas como Anastácia, Marinês e Elba Ramalho já haviam aberto caminhos para novas intérpretes nordestinas.
A influência dessas mulheres pode ser percebida na maneira como Juliana utiliza o corpo, a voz e a interpretação para apresentar suas canções.
“Vida virada” abriu o encontro
A participação de Anastácia começou com “Vida virada”, composição de Juliana Linhares, Josyara e Elisio Freitas, lançada em 2026.
A música integra o álbum “Até cansar o cansaço” e foi gravada originalmente por Juliana em parceria com a própria Anastácia.
No palco, as duas retomaram a canção em clima descontraído. Anastácia chegou a brincar com um momento de esquecimento da letra, sendo auxiliada por Juliana durante a apresentação.
A situação, em vez de interromper a performance, acabou aproximando ainda mais as duas artistas do público.
O episódio mostrou uma característica que acompanha Anastácia ao longo de sua carreira: a capacidade de transformar a experiência do palco em uma conversa espontânea com quem está assistindo.
O encontro avançou pelo repertório de Anastácia
Depois de “Vida virada”, Anastácia apresentou “Sanfona sentida”, uma de suas parcerias com Dominguinhos.
A música foi lançada originalmente em versão instrumental por Dominguinhos no álbum “Tudo azul”, de 1973. Alguns anos depois, Luiz Gonzaga gravou a composição com letra escrita por Anastácia no álbum “Capim novo”, lançado em 1976.
A canção carrega, portanto, uma história que passa por alguns dos principais nomes da música nordestina.
No espetáculo, a interpretação ganhou um novo contexto ao ser apresentada por Anastácia ao lado de Juliana Linhares.
A cantora mais jovem assumiu não apenas o papel de convidada, mas também o de artista que recebe uma referência importante de sua própria tradição musical.
“Tenho sede” e “Eu só quero um xodó”
O encontro prosseguiu com duas das músicas mais conhecidas da parceria entre Anastácia e Dominguinhos.
A primeira foi “Tenho sede”, lançada em 1975. Depois, as cantoras interpretaram “Eu só quero um xodó”, xote de 1973 que se tornou conhecido nacionalmente na voz de Gilberto Gil.
As duas canções possuem uma trajetória particular na música brasileira.
“Eu só quero um xodó”, especialmente, ultrapassou as fronteiras do Nordeste e se transformou em uma das composições mais reconhecidas do repertório de Anastácia e Dominguinhos.
Na voz de Juliana e Anastácia, a música ganhou outro significado: passou a representar também a continuidade de uma tradição.
A apresentação não buscou reproduzir simplesmente gravações antigas. O objetivo foi colocar as canções novamente em circulação por meio de duas intérpretes de gerações diferentes.
O significado das flores no bis
A emoção do encontro ganhou outro momento no bis.
Depois de interpretarem novamente “Tenho sede” e “Eu só quero um xodó”, Juliana Linhares entregou flores a Anastácia no palco.
O gesto funcionou como uma homenagem pública à trajetória da cantora pernambucana.
As flores também simbolizaram o reconhecimento de uma geração mais jovem à artista que ajudou a construir caminhos para que outras mulheres nordestinas ocupassem espaços importantes na música brasileira.
Não se tratou apenas de uma homenagem formal.
Ao longo da apresentação, ficou evidente uma relação de admiração mútua entre as duas artistas. Juliana reconhece em Anastácia uma referência histórica, enquanto Anastácia demonstra carinho e entusiasmo pela trajetória da cantora potiguar.
A força feminina na música nordestina
O encontro também chama atenção para a presença feminina na construção da música nordestina.
Durante décadas, mulheres como Anastácia e Marinês enfrentaram um cenário musical predominantemente masculino para estabelecer suas próprias vozes.
Elas ajudaram a ampliar a presença feminina em gêneros como baião, xote e forró e contribuíram para que essas manifestações musicais alcançassem públicos cada vez maiores.
Juliana Linhares pertence a outra geração, marcada por novas possibilidades de produção, circulação e representação artística.
Ainda assim, a conexão entre as duas mostra que determinadas tradições permanecem vivas porque são constantemente reinterpretadas.
Juliana não tenta ocupar o lugar de Anastácia. Sua trajetória segue outro caminho. O que existe é uma continuidade construída a partir da influência, da admiração e da capacidade de transformar referências em uma linguagem própria.
“Até cansar o cansaço” ganha novo significado
O título do espetáculo pode ser interpretado como uma espécie de declaração de resistência e movimento.
Ao longo da apresentação, Juliana transforma o palco em espaço para falar sobre a vida e seus diferentes estados, utilizando a música e a performance como ferramentas de expressão.
A presença de Anastácia acrescentou uma camada histórica ao espetáculo.
De um lado, uma artista de 86 anos que permanece ativa e conectada ao público. Do outro, uma cantora de 36 anos que vem construindo sua própria identidade artística e levando a música nordestina para novos espaços.
O encontro mostrou que a tradição não precisa permanecer parada no tempo.
Ela pode ser revisitada, reinterpretada e apresentada novamente a diferentes públicos.
Uma noite de memória e continuidade
A apresentação de Niterói deixou como principal imagem o encontro entre duas artistas que representam momentos diferentes da música brasileira.
Anastácia chegou ao palco carregando décadas de histórias, parcerias e canções que atravessaram gerações. Juliana Linhares recebeu essa presença com respeito, mas também com a segurança de quem já construiu sua própria trajetória.
“Vida virada”, “Sanfona sentida”, “Tenho sede” e “Eu só quero um xodó” formaram uma pequena viagem pela história da música nordestina.
No final, as flores entregues por Juliana simbolizaram aquilo que talvez seja o elemento mais bonito daquele encontro: o reconhecimento de uma artista por outra.
Anastácia não apareceu apenas como uma convidada. Sua participação funcionou como uma ponte entre passado e presente, mostrando que a música popular brasileira continua sendo construída por diferentes gerações.
Juliana Linhares, por sua vez, mostrou que receber uma herança artística não significa simplesmente reproduzi-la. Significa conhecer suas raízes, dialogar com elas e encontrar novas formas de fazê-las florescer.
No palco do Teatro da UFF, a música nordestina ganhou uma noite de celebração, memória e continuidade. Um encontro entre duas cantoras que, cada uma a seu tempo, escolheram fazer da própria voz um caminho de liberdade, identidade e expressão.















