A reta final de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) costuma ser acompanhada por uma mistura de expectativa, ansiedade e dúvidas. Entre todas as áreas avaliadas pela prova, a redação ocupa um espaço especial na preparação dos estudantes, principalmente porque o tema só é conhecido no momento do exame. Mesmo quem já domina a estrutura do texto dissertativo-argumentativo pode se perguntar se está realmente preparado para alcançar uma pontuação elevada.

A diferença entre uma redação considerada boa e um texto que ultrapassa os 900 pontos, porém, nem sempre está em escrever palavras difíceis ou apresentar referências extremamente sofisticadas. Para especialistas, o desempenho está principalmente na capacidade de desenvolver argumentos com clareza, utilizar repertórios de maneira pertinente, manter o domínio da língua portuguesa e apresentar uma proposta de intervenção completa.

Para Fernando Andrade, professor de redação do Estratégia Vestibulares, um dos principais caminhos para melhorar o desempenho é praticar com frequência e, principalmente, entender quais são as próprias dificuldades.

“O aluno deve escrever pelo menos uma vez por semana. Além disso, deve focar em seus pontos fracos e ser realista em relação a quais competências podem ser melhoradas em pouco tempo”, explica o professor.

A recomendação mostra que, na reta final, não é necessariamente o volume de textos produzidos que determina a evolução. Mais importante do que simplesmente escrever várias redações é identificar os erros e trabalhar especificamente para corrigi-los.

Escrever é importante, mas revisar também

Para quem já possui um domínio intermediário da estrutura da redação, uma produção semanal pode ser suficiente para manter e aperfeiçoar a prática. Já estudantes que ainda apresentam dificuldades mais significativas precisam aumentar a frequência.

Segundo Andrade, alunos que estão abaixo dos 700 pontos podem se beneficiar de pelo menos duas atividades semanais, combinando diferentes tipos de produção textual.

A revisão deve fazer parte desse processo. Depois de escrever, o estudante pode observar se repetiu palavras, utilizou conectivos de maneira adequada, apresentou argumentos suficientes e cometeu erros gramaticais recorrentes.

Essa autoanálise permite transformar cada redação em uma espécie de diagnóstico. Em vez de simplesmente descobrir uma nota, o aluno passa a identificar exatamente onde está perdendo pontos.

O que separa uma redação de 900 de uma nota 1.000?

Uma das diferenças apontadas por Fernando Andrade está no chamado “traço autoral”.

Segundo o professor, uma redação que alcança aproximadamente 900 pontos pode atender corretamente às exigências do Enem, apresentar boa organização, repertório adequado e argumentos coerentes. No entanto, ainda pode apresentar uma construção considerada mais burocrática.

Nas redações que chegam à pontuação máxima, o candidato tende a demonstrar maior profundidade na análise do tema.

Isso não significa simplesmente utilizar palavras mais complexas ou inserir uma grande quantidade de citações. O diferencial está na maneira como o estudante desenvolve suas ideias.

Um exemplo citado pelo professor está relacionado à edição anterior do Enem. Em vez de apenas mencionar genericamente a expressão “tradição africana”, textos de alto desempenho conseguiram especificar o conceito, apresentando elementos como culinária, religião e música.

A diferença pode parecer pequena, mas demonstra ao corretor que o candidato não está apenas repetindo uma expressão decorada. Ele compreende o repertório e consegue utilizá-lo para construir uma discussão relacionada ao tema.

Repertório não é sinônimo de decorar citações

Outro ponto importante é o uso do repertório sociocultural.

Filmes, livros, acontecimentos históricos, conceitos filosóficos, estudos sociológicos e referências culturais podem ser utilizados na redação. Entretanto, simplesmente citar uma personalidade famosa ou uma obra conhecida não garante uma boa pontuação.

Maria de Lourdes Cunha, professora de Língua Portuguesa da rede Objetivo, destaca justamente a importância de procurar repertórios que possam ser aplicados adequadamente ao contexto apresentado.

Isso significa que o estudante deve evitar transformar a redação em uma coleção de citações. O repertório precisa cumprir uma função dentro do argumento.

Uma referência histórica, por exemplo, deve ajudar a explicar ou sustentar determinada ideia. Quando a conexão não fica clara, a citação pode parecer artificial e não contribuir para o desenvolvimento da argumentação.

Por isso, uma estratégia interessante durante os estudos é criar um caderno de repertórios.

Caderno pode ajudar na preparação

Fernando Andrade recomenda que o estudante registre informações relevantes durante os estudos de História, Sociologia e Filosofia e associe esses conteúdos a grandes eixos temáticos.

Meio ambiente, saúde, tecnologia, desigualdade social, educação, cultura e cidadania são exemplos de áreas que podem aparecer relacionadas a diferentes temas de redação.

Ao estudar determinado acontecimento histórico, o aluno pode registrar não apenas a data ou o nome do evento, mas também refletir sobre quais discussões contemporâneas podem ser relacionadas àquele conhecimento.

O professor cita como exemplo a abolição da escravatura. A ausência de indenização aos ex-escravizados após a Lei Áurea pode ser utilizada como repertório para discutir aspectos históricos da desigualdade social.

Esse método ajuda o estudante a compreender o repertório em vez de simplesmente memorizá-lo.

Cuidado com períodos muito longos

O domínio da norma-padrão é outro fator importante para quem busca uma pontuação elevada.

Maria de Lourdes Cunha recomenda que os estudantes tenham cuidado especialmente com períodos muito longos. Quanto maior e mais complexa for uma frase, maior pode ser a dificuldade para manter corretamente a concordância e a pontuação.

Uma alternativa, segundo a professora, é dividir períodos excessivamente longos em frases menores, mantendo a conexão lógica entre as ideias.

A estratégia pode contribuir para tornar o texto mais claro e reduzir a possibilidade de erros gramaticais.

Também é importante evitar expressões excessivamente informais. Termos como “tipo”, “acho” e outras marcas da linguagem cotidiana não são adequados ao registro esperado em uma redação do Enem.

As cinco competências avaliadas

A redação do Enem é corrigida a partir de cinco competências independentes. Conhecer cada uma delas pode ajudar o estudante a entender onde precisa concentrar seus esforços.

Competência 1 – Norma-padrão: avalia o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. A orientação é identificar erros recorrentes, como problemas de concordância, pontuação, regência e acentuação, e trabalhar especificamente essas dificuldades.

Competência 2 – Compreensão do tema e repertório: não basta escrever sobre um assunto próximo ao tema proposto. É necessário compreender exatamente o recorte apresentado e desenvolver o texto dentro dele. O repertório sociocultural também precisa ser pertinente e bem relacionado à discussão.

Competência 3 – Argumentação: avalia a seleção, organização e desenvolvimento das informações utilizadas para defender o ponto de vista. É justamente nessa competência que o chamado traço autoral pode fazer diferença, pois exige uma argumentação consistente e aprofundada.

Competência 4 – Coesão: observa como as ideias são conectadas ao longo do texto. Conectivos como “em primeiro lugar”, “além disso”, “portanto” e “dessa forma” podem ajudar, desde que sejam utilizados de maneira adequada e sem repetições excessivas.

Competência 5 – Proposta de intervenção: exige que o estudante apresente uma solução para o problema discutido. A proposta deve contemplar elementos como agente, ação, meio ou modo, finalidade e detalhamento.

Evite repetir argumentos e conectivos

Outro cuidado destacado pelos especialistas é evitar a repetição.

Repetir o mesmo argumento ao longo do texto pode transmitir a impressão de que o candidato não conseguiu desenvolver suficientemente sua linha de raciocínio. O mesmo vale para o uso constante dos mesmos conectivos.

Uma redação bem construída apresenta progressão de ideias. Cada parágrafo deve cumprir uma função e contribuir para o desenvolvimento da tese apresentada na introdução.

Isso não significa tentar utilizar palavras extremamente sofisticadas. Clareza continua sendo uma das principais características de um bom texto.

Reta final deve ser de aperfeiçoamento

À medida que o Enem se aproxima, o estudante não precisa tentar aprender absolutamente tudo de uma vez. O período final de preparação pode ser mais produtivo quando utilizado para corrigir erros que já foram identificados.

Quem costuma perder pontos por problemas gramaticais deve priorizar a revisão da norma-padrão. Quem tem dificuldade com argumentação pode treinar o desenvolvimento de teses. Já quem apresenta problemas na proposta de intervenção deve praticar a construção dos cinco elementos exigidos.

Também é importante não depender de um único modelo pronto. Estruturas decoradas podem ajudar a compreender a organização do texto, mas precisam ser adaptadas ao tema apresentado na prova.

Mais do que buscar uma fórmula, é preciso compreender o texto

A busca pela nota 1.000 pode aumentar a pressão sobre os estudantes, mas os especialistas reforçam que uma boa redação não nasce de uma fórmula mágica.

O desempenho é resultado de prática, leitura, capacidade de análise e domínio das características exigidas pelo exame.

Na hora da prova, o candidato terá diante de si um tema que ainda não conhece. Por isso, mais importante do que memorizar uma redação inteira é estar preparado para pensar, selecionar informações pertinentes e construir uma argumentação coerente.

A preparação na reta final, portanto, pode ser encarada como um processo de refinamento. Cada redação escrita deve servir para descobrir um ponto que ainda pode ser melhorado.

Para quem busca superar os 900 pontos, esse olhar atento aos próprios erros pode ser tão importante quanto o conhecimento acumulado durante meses de estudo. No Enem, a diferença entre uma redação correta e uma redação de desempenho excepcional pode estar justamente nos detalhes: na precisão das palavras, na profundidade dos argumentos, na conexão entre as ideias e na capacidade de transformar conhecimento em uma análise própria e bem estruturada.

No fim, escrever bem não significa apenas cumprir uma estrutura. Significa demonstrar que é possível compreender um problema, refletir sobre ele e apresentar uma resposta organizada, consistente e socialmente responsável.