A libido feminina não precisa permanecer igual durante todo o mês. Ter mais vontade de fazer sexo em determinados períodos e menos interesse em outros pode fazer parte das mudanças naturais que acompanham o ciclo menstrual. Oscilações hormonais podem influenciar não apenas o desejo sexual, mas também o humor, a disposição, o sono e a forma como o corpo reage aos estímulos.

Isso significa que uma mulher que percebe alterações no interesse por relações sexuais ao longo do ciclo não necessariamente está enfrentando um problema de libido. O padrão varia bastante de uma pessoa para outra. Algumas mulheres relatam aumento do desejo próximo à ovulação, enquanto outras percebem mudanças discretas ou até diferentes.

Para a ginecologista Grazielly Teles, especialista em saúde integral da mulher, mais importante do que comparar o próprio desejo com um suposto padrão ideal é observar o comportamento habitual do organismo.

A atenção deve estar principalmente em mudanças persistentes em relação ao que aquela mulher costumava sentir e que estejam provocando sofrimento ou interferindo negativamente em sua vida.

O ciclo menstrual e as mudanças hormonais

O primeiro dia do sangramento menstrual é considerado o início de um novo ciclo. A partir desse momento, o organismo começa uma série de processos coordenados pelos hormônios para preparar o corpo para uma possível ovulação.

Na fase folicular, que começa com a menstruação e segue até a ovulação, ocorre o desenvolvimento de um folículo ovariano. Esse processo é estimulado pelo hormônio folículo-estimulante, conhecido como FSH.

Ao longo dessa fase, os níveis de estrogênio aumentam. Para algumas mulheres, essa mudança pode estar associada a uma sensação de maior disposição, bem-estar e interesse sexual.

Entretanto, a própria menstruação pode produzir efeitos diferentes. Cólicas, dor de cabeça, cansaço, desconforto abdominal e alterações emocionais podem fazer com que algumas mulheres tenham menos vontade de manter relações sexuais durante os dias de sangramento.

Outras, porém, não percebem redução do desejo. Há ainda quem relate aumento da libido nesse período. Não existe, portanto, uma resposta única que possa ser aplicada a todas as mulheres.

A proximidade da ovulação

À medida que a ovulação se aproxima, novas alterações hormonais acontecem. Estrogênio, testosterona e hormônio luteinizante, o LH, participam de uma sequência de mudanças que culmina na liberação do óvulo pelo ovário.

É justamente nesse período que algumas mulheres percebem um aumento mais evidente do desejo sexual.

Além da libido, o corpo pode apresentar outros sinais relacionados à fase fértil. Entre eles estão o aumento da umidade vaginal e a presença de um muco cervical mais transparente e elástico, muitas vezes comparado à clara de ovo.

Essas características fazem parte da fisiologia do período fértil e estão relacionadas às alterações hormonais que ocorrem antes e durante a ovulação.

Apesar da tendência observada por especialistas de que algumas mulheres tenham maior interesse sexual nessa fase, isso não significa que toda mulher necessariamente passará por essa mudança.

Cada organismo possui uma dinâmica própria, e fatores físicos, emocionais e sociais também interferem na experiência da sexualidade.

O que acontece depois da ovulação?

Depois que o óvulo é liberado, começa a chamada fase lútea. Nesse período, a progesterona passa a exercer papel importante e o organismo prepara o endométrio, camada interna do útero, para uma possível gestação.

Quando a gravidez não acontece, os níveis hormonais diminuem gradualmente e o ciclo se encaminha para uma nova menstruação.

É principalmente nos dias que antecedem o sangramento que algumas mulheres percebem mudanças físicas e emocionais mais intensas. Podem surgir inchaço, sensibilidade nas mamas, cansaço, alterações no humor, mudanças no sono, aumento da oleosidade da pele e acne.

Esses sintomas também podem repercutir na sexualidade.

Dor, irritabilidade, indisposição e desconforto físico naturalmente podem reduzir a disponibilidade para uma relação sexual. Nesse contexto, uma queda temporária do desejo não significa necessariamente que exista uma disfunção sexual.

Entenda as principais fases

Fase menstrual: começa no primeiro dia do sangramento. A queda dos hormônios provoca a descamação do endométrio. Cólicas, cansaço e outros desconfortos podem interferir na disposição e no desejo.

Fase folicular: ocorre desde o início da menstruação até a ovulação. O folículo se desenvolve e os níveis de estrogênio aumentam. Algumas mulheres relatam mais energia, bem-estar e interesse sexual.

Fase ovulatória: corresponde ao período em que o ovário libera o óvulo. Alterações hormonais podem favorecer o aumento do desejo em algumas mulheres, além de provocar mudanças no muco cervical e na lubrificação.

Fase lútea: acontece após a ovulação e termina com a chegada da próxima menstruação. A progesterona ganha maior importância e sintomas pré-menstruais podem influenciar o humor, a disposição e o desejo sexual.

Libido não depende apenas dos hormônios

Embora o ciclo menstrual tenha influência sobre o corpo, ele está longe de ser o único fator relacionado à libido.

Estresse, noites maldormidas, rotina intensa, sobrecarga mental, ansiedade, relacionamento, autoestima, imagem corporal e condições de saúde podem modificar significativamente o interesse sexual.

A gravidez, o período pós-parto, a amamentação e determinados medicamentos também podem provocar mudanças.

Segundo o ginecologista e obstetra Alexandre Pupo, membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês, existe uma ciclicidade relacionada ao organismo feminino, mas ela sofre influência direta de fatores externos, internos, psicológicos e físicos.

Por isso, observar apenas o calendário menstrual pode não ser suficiente para entender uma alteração na libido.

A sexualidade também é influenciada pela qualidade da relação, pelo nível de intimidade, pela segurança emocional e pelas experiências vividas no cotidiano.

O desejo pode surgir durante a intimidade

Outro ponto importante é que nem toda mulher experimenta o desejo sexual da mesma maneira.

Existe o chamado desejo espontâneo, quando a vontade de fazer sexo surge antes de qualquer estímulo. Mas também existe o desejo responsivo, que pode aparecer a partir da intimidade, do toque, da conexão emocional e da própria estimulação sexual.

Isso significa que não sentir vontade espontaneamente em determinado momento não representa, por si só, ausência de libido.

A expectativa de que uma mulher deveria estar constantemente interessada em sexo pode gerar cobranças desnecessárias e até transformar uma variação normal do desejo em motivo de preocupação.

Quando a redução do desejo merece atenção?

Apesar de as oscilações serem comuns, algumas situações precisam ser avaliadas por um profissional de saúde.

Uma queda persistente do desejo, especialmente quando representa uma mudança importante em relação ao padrão habitual e provoca sofrimento pessoal, merece investigação.

Também é recomendável buscar avaliação quando a alteração vem acompanhada de dor durante as relações, secura vaginal significativa, alterações menstruais importantes ou mudanças intensas de humor.

Sintomas como sangramento muito abundante, presença de coágulos grandes, cólicas persistentes ou alterações emocionais intensas antes da menstruação também podem justificar uma consulta médica.

Não é necessário esperar meses para procurar orientação quando os sintomas são importantes ou estão prejudicando a qualidade de vida. O acompanhamento profissional pode ajudar a identificar se existe uma causa hormonal, ginecológica, medicamentosa, psicológica ou relacionada a outros aspectos da rotina.

Conhecer o próprio corpo faz diferença

Acompanhar o ciclo menstrual pode ser uma ferramenta útil para entender melhor o próprio organismo. Registrar datas da menstruação, sintomas, alterações de humor, dores, disposição e mudanças no desejo pode ajudar a identificar padrões.

Esse conhecimento também facilita a percepção de mudanças que fogem do comportamento habitual.

Mais do que buscar uma libido constante, o importante é compreender o funcionamento do próprio corpo e reconhecer quando determinada mudança causa desconforto ou sofrimento.

A sexualidade feminina é influenciada por uma combinação de fatores biológicos, emocionais e sociais. Por isso, não existe uma quantidade “certa” de desejo que todas as mulheres deveriam apresentar.

As oscilações ao longo do ciclo podem fazer parte da fisiologia normal. Quando há sofrimento, dor ou uma mudança persistente, entretanto, procurar orientação profissional é a melhor maneira de entender o que está acontecendo.

Conhecer o próprio ciclo, respeitar os limites do corpo e abandonar a ideia de que o desejo precisa ser igual todos os dias são passos importantes para uma relação mais saudável com a própria sexualidade.