Luiz Carlos Sá atravessa uma nova etapa de sua trajetória musical sem abandonar as histórias que ajudaram a construir sua carreira. Um ano após a despedida de Guarabyra, seu parceiro durante mais de cinco décadas, o cantor, compositor e violonista dá continuidade ao trabalho solo com o lançamento, previsto para outubro, do álbum e do livro “Eu, caçador de mim”. Os dois projetos chegam ao público pela gravadora Kuarup e representam momentos diferentes, mas complementares, da trajetória de um dos nomes importantes da música popular brasileira.

O novo disco reúne dez faixas e traz participações de artistas como Almir Sater, Ivan Lins e Zeca Baleiro, além de trabalhos em parceria com Chico César e outros compositores. O projeto também recupera músicas lançadas anteriormente por Sá e apresenta novas composições produzidas especialmente para essa fase de sua carreira.

O título “Eu, caçador de mim” remete diretamente a uma das composições mais conhecidas do artista. A expressão é retirada de “Caçador de mim”, música que teve letra escrita por Luiz Carlos Sá sobre melodia de Sérgio Magrão. A composição foi lançada pelo grupo mineiro 14 Bis em 1980 e ganhou ainda mais projeção no ano seguinte, quando foi regravada por Milton Nascimento e utilizada como título do álbum lançado pelo cantor em 1981.

A escolha do nome para o novo projeto carrega, portanto, um forte significado. Ao mesmo tempo em que recupera uma obra importante de sua história como compositor, Sá utiliza a expressão para refletir sobre o próprio caminho, especialmente em um momento de transformação artística e pessoal.

Uma nova fase depois de Guarabyra

A carreira de Luiz Carlos Sá está profundamente ligada à parceria com Guarabyra. Durante 53 anos, os dois construíram uma trajetória marcada por canções que atravessaram gerações e ajudaram a consolidar a presença da música brasileira de raiz em diferentes momentos da indústria fonográfica.

A ausência de Guarabyra, que morreu em 2025, abriu uma nova etapa na vida artística de Sá. O compositor passou a investir de maneira mais intensa em projetos individuais, sem deixar de lado a experiência acumulada ao longo das décadas.

O novo álbum surge justamente nesse contexto. Mais do que apenas uma coleção de músicas, “Eu, caçador de mim” representa uma espécie de fotografia de um artista que revisita sua própria trajetória enquanto continua produzindo e estabelecendo novas parcerias.

A carreira solo de Sá havia começado oficialmente três anos antes, com o lançamento do álbum “Solo e bem acompanhado”, de 2023. O trabalho marcou uma nova fase e abriu espaço para que o músico apresentasse uma identidade própria fora da parceria histórica.

Dez músicas reunidas em um novo álbum

“Eu, caçador de mim” chega ao formato físico com dez faixas. O disco reúne cinco músicas da safra de 2026 de Luiz Carlos Sá e outras cinco que haviam sido apresentadas anteriormente no EP “Sambas de mato”, lançado em 2025.

A estrutura faz com que o projeto funcione simultaneamente como novidade e retrospectiva recente. Para quem acompanha a produção solo do artista, o álbum reúne diferentes momentos de sua caminhada após o início dessa nova etapa.

Entre as composições mais recentes estão duas músicas que já haviam sido apresentadas ao público em formato de single.

“Ávida”, parceria de Luiz Carlos Sá com Chico César, foi lançada em 31 de julho. A música aproxima dois compositores de trajetórias distintas, mas ligados pela capacidade de transformar experiências e observações em canções.

Outro destaque é “Jabuticaba flor”, parceria de Sá com Gabriel Sater e João Gaspar. O single chegou ao público em 4 de setembro e antecipou mais uma das facetas do novo álbum.

As duas músicas ajudaram a preparar o terreno para o lançamento do disco completo, que apresenta outras três faixas inéditas.

Encontros com grandes nomes da música brasileira

Entre as novidades de “Eu, caçador de mim” estão três parcerias que chamam atenção pela reunião de diferentes gerações e estilos da música brasileira.

“Eu sou mais do que sou” é uma composição feita em parceria com Almir Sater. A aproximação entre os dois artistas estabelece um diálogo com a música brasileira de raiz e com a tradição de compositores que valorizam o violão, a narrativa e a simplicidade melódica.

Outra novidade é “Foi bem lá”, parceria de Luiz Carlos Sá com Ivan Lins. Reconhecido por uma obra marcada por melodias sofisticadas e canções que ganharam projeção nacional e internacional, Lins acrescenta ao projeto uma colaboração que amplia ainda mais o alcance musical do disco.

Já “Tanto que te vi partir” é uma parceria de Sá com Zeca Baleiro. A participação do compositor maranhense acrescenta outra perspectiva ao repertório e reforça uma das características centrais do projeto: o encontro entre diferentes gerações e linguagens da música brasileira.

As três faixas funcionam como elementos inéditos dentro do álbum e ajudam a apresentar a fase atual de Sá sem romper com sua identidade construída ao longo de décadas.

Livro recupera memórias e reflexões

O projeto “Eu, caçador de mim” não se limita à música. Ao mesmo tempo em que lança o álbum, Luiz Carlos Sá também apresenta um livro com o mesmo título.

A publicação reúne crônicas escritas pelo artista para a revista “Backstage” entre 2021 e 2025. Os textos têm caráter autobiográfico e permitem ao leitor conhecer experiências, lembranças e reflexões acumuladas durante diferentes momentos da vida do compositor.

O livro conta com prefácio do jornalista e crítico musical Tárik de Souza, nome ligado à história da imprensa especializada em música brasileira.

A publicação amplia a dimensão pessoal do projeto. Enquanto o álbum apresenta Sá por meio de canções e parcerias, o livro permite que o próprio artista conte histórias e compartilhe lembranças a partir de sua perspectiva.

Essa combinação também explica a escolha do título. “Eu, caçador de mim” pode ser entendido como uma síntese de um momento de busca e revisitação da própria história.

Uma trajetória que continua em movimento

Aos olhos do público, Luiz Carlos Sá poderia naturalmente se dedicar apenas a revisitar os grandes momentos de uma carreira que já atravessa várias décadas. O artista, porém, segue produzindo material novo e estabelecendo parcerias com nomes de diferentes gerações.

O novo álbum demonstra essa disposição. Ao lado de composições recentes, Sá recupera músicas lançadas no EP “Sambas de mato” e estabelece encontros com artistas como Chico César, Almir Sater, Ivan Lins e Zeca Baleiro.

O resultado é um projeto que conecta passado e presente sem transformar a memória em algo estático.

A história construída ao lado de Guarabyra continua sendo parte fundamental da identidade de Luiz Carlos Sá. No entanto, a carreira solo mostra que existe também uma produção própria a ser explorada.

“Eu, caçador de mim” chega ao mercado em outubro pela Kuarup, reunindo música e literatura em um mesmo momento. O álbum apresenta dez faixas, enquanto o livro recupera crônicas autobiográficas produzidas ao longo de quatro anos.

Mais do que marcar uma nova etapa, o projeto representa uma oportunidade para Luiz Carlos Sá olhar para a própria trajetória, revisitar experiências e continuar escrevendo novas páginas de sua história.

Aos 53 anos de parceria com Guarabyra somam-se agora novos capítulos de uma carreira individual que segue encontrando espaço para criação, memória e encontros. Em “Eu, caçador de mim”, o artista transforma essa busca pessoal em música e palavra, reafirmando que uma longa trajetória também pode ser ponto de partida para novos caminhos.