A retatrutida, medicamento experimental desenvolvido para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, apresentou resultados expressivos em um estudo clínico de fase 3. Entre os participantes com obesidade mais grave, com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 35, aqueles que receberam a dose mais alta da medicação chegaram a perder, em média, 23,4% do peso corporal ao longo de 80 semanas.

Os resultados foram apresentados nesta terça-feira (29) durante o encontro da Associação Europeia para o Estudo da Diabetes (EASD) e publicados posteriormente na revista científica The Lancet. A pesquisa avaliou adultos com diabetes tipo 2, sobrepeso ou obesidade e analisou tanto a redução de peso quanto os efeitos sobre o controle da glicemia e alguns indicadores relacionados à saúde cardiovascular.

Na dose de 12 miligramas, considerada a mais alta testada no estudo, os participantes perderam, em média, 22,5 quilos, o equivalente a 20,8% do peso corporal. Entre aqueles que apresentavam IMC a partir de 35, a redução média chegou a 27,5 quilos, correspondente a 23,4% do peso.

Apesar dos resultados considerados promissores pelos pesquisadores, a retatrutida ainda não está disponível para prescrição. O medicamento permanece em fase de estudos clínicos e não foi aprovado para comercialização em nenhum país.

Medicamento atua em três vias hormonais

A retatrutida é desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly e possui uma característica que a diferencia de medicamentos atualmente utilizados para controle do peso e do diabetes.

O composto atua simultaneamente em três receptores hormonais: GIP, GLP-1 e glucagon. Por esse motivo, a substância é classificada como um agonista triplo.

Essas três vias estão relacionadas a mecanismos importantes do metabolismo, do controle da glicose e da regulação do apetite.

Os medicamentos que atuam sobre o GLP-1, por exemplo, podem contribuir para aumentar a sensação de saciedade e reduzir a ingestão de alimentos. A combinação com outras vias hormonais busca ampliar os efeitos sobre o metabolismo energético e o controle glicêmico.

A estratégia faz parte de uma nova geração de tratamentos estudados para obesidade e diabetes tipo 2, doenças que atingem milhões de pessoas e estão associadas a diferentes complicações cardiovasculares e metabólicas.

No entanto, a atuação simultânea em três receptores também exige acompanhamento rigoroso durante os estudos para avaliar não apenas a eficácia, mas principalmente a segurança do tratamento em diferentes grupos de pacientes.

Perda de peso foi observada ao longo de 80 semanas

O estudo acompanhou os participantes durante 80 semanas, período no qual foram avaliadas diferentes doses da retatrutida e comparados os resultados com os observados no grupo que recebeu placebo.

Na maior dose analisada, a redução média de peso foi de 22,5 quilos, equivalente a 20,8% do peso corporal.

O resultado foi ainda mais expressivo entre os participantes que já apresentavam obesidade de maior grau. Nesse grupo, formado por pessoas com IMC de pelo menos 35, a perda média chegou a 27,5 quilos, ou 23,4% do peso corporal.

Ao final do período analisado, os participantes que receberam a dose máxima e apresentavam obesidade no início do estudo chegaram, em média, a uma faixa de IMC inferior a 30, deixando de se enquadrar na classificação de obesidade.

É importante destacar, porém, que os resultados representam médias observadas no grupo estudado. A resposta individual a medicamentos para perda de peso pode variar de acordo com características como alimentação, atividade física, metabolismo, idade, condições de saúde e outros fatores.

Efeito também apareceu no controle do diabetes

Além da redução de peso, a pesquisa avaliou a capacidade da retatrutida de melhorar o controle da glicemia em pessoas com diabetes tipo 2.

Um dos principais indicadores utilizados foi a hemoglobina glicada, conhecida como A1C. O exame mostra uma média aproximada dos níveis de glicose no sangue ao longo dos últimos meses e é utilizado tanto para acompanhar o diabetes quanto para avaliar a resposta ao tratamento.

Entre os participantes que receberam as doses mais altas da retatrutida, a redução média da hemoglobina glicada ficou entre 1,5 e 1,6 ponto percentual.

Em alguns grupos, até 40% dos participantes chegaram a níveis de A1C inferiores a 5,7%, faixa considerada normal para esse exame.

O resultado chama atenção porque mostra que o medicamento pode apresentar efeitos simultâneos sobre o peso corporal e o metabolismo da glicose.

Ainda assim, os resultados de um estudo clínico não significam que a substância poderá substituir automaticamente outros tratamentos utilizados atualmente. Essa avaliação depende de estudos adicionais, análise das autoridades regulatórias e definição das indicações aprovadas.

Indicadores cardiovasculares também melhoraram

A pesquisa também identificou mudanças em alguns marcadores relacionados à saúde cardiovascular e metabólica.

Entre os participantes que receberam a retatrutida, foram observadas reduções nos níveis de triglicerídeos, colesterol não-HDL e proteína C-reativa, além de uma diminuição importante na circunferência da cintura.

Na análise apresentada pelos pesquisadores, os triglicerídeos tiveram redução de até 39,5%, enquanto o colesterol não-HDL caiu 19,6%.

A circunferência da cintura apresentou redução de 16,9 centímetros, enquanto a proteína C-reativa, marcador utilizado para avaliar processos inflamatórios no organismo, caiu 58,3%.

Esses resultados são relevantes porque obesidade e diabetes tipo 2 estão associadas a um conjunto de fatores que podem aumentar o risco cardiovascular.

No entanto, uma melhora em marcadores laboratoriais não deve ser interpretada automaticamente como prova de que o medicamento reduz eventos cardiovasculares, como infarto ou acidente vascular cerebral. Para responder a essa questão, são necessários estudos específicos de desfechos cardiovasculares.

Efeitos colaterais foram observados

Como acontece com outros medicamentos que atuam sobre mecanismos relacionados ao apetite e ao sistema gastrointestinal, os participantes também apresentaram efeitos adversos durante o estudo.

Os sintomas mais frequentes associados à retatrutida, quando comparada ao placebo, incluíram diarreia, náusea, prisão de ventre, redução do apetite e vômitos.

Também foram relatadas alterações na sensibilidade da pele e infecções urinárias.

Segundo os dados divulgados, os eventos adversos foram predominantemente classificados como leves a moderados e, na maioria dos casos, desapareceram ao longo do tratamento.

A segurança é um dos pontos fundamentais da fase 3 dos estudos clínicos. Nessa etapa, os pesquisadores procuram avaliar o desempenho do medicamento em grupos maiores de pessoas e identificar possíveis efeitos adversos que precisam ser acompanhados antes de uma eventual aprovação.

Retatrutida ainda não está aprovada

Apesar dos resultados expressivos apresentados no estudo, a retatrutida ainda não pode ser comercializada como medicamento para obesidade ou diabetes.

A substância continua sendo investigada em ensaios clínicos e, até o momento, não recebeu autorização para venda em nenhum lugar do mundo.

A Eli Lilly informou que pretende solicitar a aprovação do medicamento à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, no primeiro trimestre de 2027.

Antes de uma eventual autorização, os órgãos reguladores deverão analisar os resultados dos estudos disponíveis, considerando critérios como eficácia, segurança, qualidade de fabricação, benefícios e riscos do tratamento.

Uma nova etapa na busca por tratamentos para obesidade

A retatrutida surge em um momento de forte avanço na pesquisa de medicamentos destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.

A doença é considerada uma condição crônica e complexa, influenciada por fatores genéticos, metabólicos, ambientais e comportamentais. Por isso, o desenvolvimento de novos tratamentos busca oferecer alternativas capazes de promover perda de peso significativa e, ao mesmo tempo, melhorar condições associadas à obesidade.

Os resultados apresentados pela retatrutida chamam atenção principalmente pela combinação de redução de peso, melhora da glicemia e alterações favoráveis em diferentes marcadores metabólicos.

Mas os próprios resultados precisam ser interpretados dentro dos limites de um estudo clínico. A medicação ainda precisa passar por novas avaliações antes de qualquer eventual chegada ao mercado.

Para pacientes que convivem com obesidade ou diabetes tipo 2, a recomendação continua sendo buscar acompanhamento médico individualizado e não utilizar medicamentos experimentais por conta própria.

A retatrutida representa uma possibilidade em investigação, mas ainda não é uma terapia aprovada. Os próximos estudos e a análise das autoridades regulatórias serão fundamentais para determinar se os resultados observados nos ensaios clínicos poderão se transformar, no futuro, em uma nova opção de tratamento para milhões de pessoas.