A Portela reuniu algumas das principais vozes do samba brasileiro em uma gravação especial para o Carnaval 2027. Na tarde desta quarta-feira (30), Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Diogo Nogueira, Teresa Cristina, integrantes da Velha Guarda Show e familiares de Monarco estiveram no estúdio Century, na Barra Olímpica, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, para registrar o samba-enredo que homenageará um dos maiores símbolos da história da escola.

Intitulado “Ao mestre, com carinho”, o samba foi desenvolvido a partir do enredo criado pelo carnavalesco Paulo Barros e tem como principal proposta celebrar a trajetória, a obra e a importância de Hildmar Diniz, conhecido artisticamente como Monarco. Morto em dezembro de 2021, aos 88 anos, o compositor deixou uma marca profunda na Portela e na própria história do samba brasileiro.

A gravação contou ainda com Marquinhos de Osvaldo Cruz, Mauro Diniz, filho de Monarco, além de João Diniz e Juliana Diniz, netos do compositor. O intérprete oficial da Portela, Bruno Ribas, assumiu a voz principal do samba, que foi composto por Wanderley Monteiro, Vinicius Ferreira, Jefferson Oliveira, Hélio Porto, Orlando Ambrosio, W. Correa e Rafael Gigante.

A presença de nomes tão representativos do samba transformou a sessão em um momento de memória e celebração. Mais do que registrar uma faixa para um álbum, o encontro reuniu diferentes gerações ligadas à música brasileira em torno da trajetória de um artista que dedicou grande parte de sua vida à Portela.

Paulinho da Viola, um dos maiores nomes da música popular brasileira e figura historicamente ligada à Velha Guarda da Portela, destacou o significado da homenagem. Para ele, a gravação representa uma oportunidade de celebrar o legado deixado por Monarco e sua relação com a escola.

Zeca Pagodinho também participou do tributo e reforçou a dimensão histórica do compositor. A relação entre os dois artistas atravessa décadas e está ligada à própria tradição do samba de raiz, marcada pela transmissão de conhecimentos entre diferentes gerações.

Diogo Nogueira também carregou para o estúdio uma relação pessoal com Monarco. Filho do saudoso João Nogueira, o cantor cresceu próximo de referências fundamentais do samba e encontrou no homenageado uma espécie de elo entre diferentes momentos de sua trajetória familiar e musical.

A relação entre Monarco e a família Nogueira foi especialmente importante. Segundo Diogo, foi o próprio Monarco quem o levou para a ala de compositores da Portela. A lembrança ajuda a dimensionar a influência que o compositor exerceu não apenas por meio de suas músicas, mas também pelo incentivo e pela convivência com novos artistas.

Teresa Cristina, outra das grandes referências contemporâneas do samba, também destacou a dimensão nacional da obra de Monarco. Para a cantora, falar sobre o compositor é falar sobre a própria história do samba brasileiro.

Um legado que ultrapassa a Portela

Embora Monarco tenha construído uma trajetória profundamente ligada à Portela, sua contribuição para a música brasileira ultrapassa os limites da escola de samba. Nascido em 17 de agosto de 1933, ele se tornou um dos principais guardiões da memória e das tradições do samba carioca.

Sua ligação com a Portela começou ainda na juventude. Aos dez anos, Monarco passou a morar em Oswaldo Cruz, região que se tornaria fundamental para sua formação cultural e musical. Foi naquele ambiente que ele entrou em contato com os grandes nomes do samba e passou a construir uma relação que permaneceria durante toda a sua vida.

Em 1952, despontou na escola com o samba “O passado da Portela”. Poucos anos depois, em 1955, passou a integrar a ala de compositores da agremiação, criada naquele período. Ao longo das décadas, tornou-se uma das figuras mais respeitadas da escola.

Monarco também foi um dos principais integrantes da Velha Guarda da Portela. O grupo ganhou ainda mais projeção a partir dos anos 1970 e se consolidou como uma referência de preservação da memória do samba tradicional.

Sua trajetória foi marcada por uma maneira particular de compor. As letras combinavam simplicidade, poesia e observação do cotidiano, mantendo uma linguagem próxima das pessoas e, ao mesmo tempo, carregada de sofisticação musical.

Sucessos que atravessaram gerações

A obra de Monarco ganhou reconhecimento para além dos limites da Portela. Entre suas composições mais conhecidas estão sambas que se tornaram populares nas vozes de grandes intérpretes brasileiros.

Entre eles estão “Coração em desalinho” e “Vai vadiar”, parcerias com Alcino Correia Ferreira, conhecido como Ratinho. As duas músicas ganharam enorme repercussão especialmente nas interpretações de Zeca Pagodinho, um dos artistas que mais demonstraram admiração pela obra de Monarco.

O reconhecimento também veio de outros grandes nomes da música brasileira. Artistas como Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Marisa Monte estão entre aqueles que reverenciaram a produção musical do compositor.

Monarco construiu ainda uma carreira solo consistente. Seu primeiro álbum, intitulado “Monarco”, foi lançado em 1976, depois de o compositor conquistar maior visibilidade no mercado fonográfico. Um dos momentos importantes dessa trajetória foi o sucesso de “Tudo menos amor”, samba composto em parceria com Walter Rosa e gravado por Martinho da Vila.

Em 1980, Monarco lançou o álbum “Terreiro”. Posteriormente, também gravou um disco voltado ao mercado japonês, reunindo músicas inéditas. Já em 2018, lançou “Monarco de todos os tempos”, seu último álbum solo, com novas composições.

Portela prepara homenagem para 2027

A homenagem que chegará à avenida no Carnaval 2027 representa, portanto, mais do que uma celebração de um compositor. A Portela pretende apresentar ao público a história de um homem que ajudou a preservar uma maneira de fazer, cantar e viver o samba.

O título “Ao mestre, com carinho” sintetiza essa proposta. Monarco foi mestre para diferentes gerações de sambistas, seja pela obra que deixou, seja pela convivência com artistas que passaram pela Portela ao longo das décadas.

A gravação realizada no Rio de Janeiro também fará parte do álbum “Rio Carnaval”, projeto previsto para ser lançado no último trimestre de 2026 e que reunirá os sambas das 12 escolas do Grupo Especial do Carnaval carioca.

Com a participação de Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Diogo Nogueira, Teresa Cristina, familiares e integrantes da Velha Guarda, a gravação ganha um significado especial. São artistas de diferentes gerações reunidos para manter viva a memória de um compositor cuja história se confunde com a própria trajetória da Portela.

No Carnaval 2027, quando a escola azul e branca atravessar a Marquês de Sapucaí, a homenagem a Monarco deverá levar para a avenida não apenas suas músicas, mas também lembranças, afetos e histórias construídas ao longo de décadas.

A trajetória do compositor mostra que o samba é também uma forma de preservar a memória. E, ao escolher Monarco como personagem central de seu enredo, a Portela transforma a avenida em espaço de reencontro entre passado e presente, aproximando novas gerações de uma obra que permanece viva.

Cinco anos após sua morte, Monarco continua sendo lembrado não apenas como um dos grandes nomes da Portela, mas como um artista que ajudou a construir e preservar a identidade do samba brasileiro. Sua voz pode ter deixado os palcos, mas suas composições e ensinamentos continuam ecoando nas rodas de samba, nas novas gerações e, agora, na avenida que durante tantos anos foi uma de suas maiores casas.