O banqueiro Daniel Vorcaro participou dos bastidores da campanha que levou o deputado paraibano Hugo Motta (Republicanos-PB) à presidência da Câmara dos Deputados, segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (2) pelo UOL, com base em mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do empresário. Os registros apontam que Vorcaro acompanhou discussões relacionadas à sucessão da presidência da Casa e manteve contato direto com Motta durante o período que antecedeu a eleição.
As conversas também indicam que o banqueiro disponibilizou ao deputado um imóvel em Brasília e uma aeronave durante o período de articulação política. Os registros mostram ainda diálogos sobre estratégias para a disputa, encontros com outros políticos e a movimentação necessária para consolidar a candidatura de Motta.
A eleição ocorreu em fevereiro de 2025, quando Hugo Motta foi escolhido presidente da Câmara para o biênio 2025-2026. O deputado recebeu 444 votos e venceu Marcel van Hattem (Novo-RS) e Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ).
Como Hugo Motta entrou na disputa
A sucessão na Câmara começou a ganhar forma meses antes da eleição. Até setembro de 2024, o principal nome apoiado pelo então presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), era o deputado baiano Elmar Nascimento (União Brasil-BA).
Outro nome que estava no cenário era Marcos Pereira (Republicanos-SP), que acabou retirando sua candidatura no início de setembro. Com a saída de Pereira e as restrições do governo federal ao nome de Elmar, Hugo Motta passou a ser considerado uma alternativa capaz de reunir diferentes setores políticos.
A ascensão do deputado paraibano foi acompanhada por articulações envolvendo lideranças do chamado Centrão. Segundo as mensagens analisadas pela PF e divulgadas pelo UOL, Daniel Vorcaro acompanhava as movimentações e conversava com pessoas próximas ao processo.
Em uma mensagem de setembro de 2024, após a desistência de Marcos Pereira, Fábio Faria comunicou a Vorcaro que a candidatura de Hugo Motta parecia ter avançado. O banqueiro respondeu demonstrando entusiasmo com a possibilidade.
As conversas mostram que o assunto já vinha sendo tratado antes de Motta aparecer oficialmente como candidato. Em maio de 2024, por exemplo, Vorcaro recebeu mensagens de Fábio Faria sobre movimentações relacionadas à eleição da Câmara.
Contatos entre Vorcaro e Hugo Motta
Os registros obtidos pela Polícia Federal também revelam uma relação próxima entre Daniel Vorcaro e Hugo Motta.
Segundo as mensagens divulgadas pelo UOL, os dois mantiveram contatos frequentes antes e depois da consolidação da candidatura. Em setembro de 2024, o banqueiro enviou uma mensagem de aniversário ao deputado, afirmando ter orgulho de chamá-lo de amigo e irmão.
Motta respondeu agradecendo e também utilizou uma linguagem de proximidade na mensagem enviada ao empresário. Os diálogos continuaram nos meses seguintes, inclusive durante o período de preparação para a eleição da presidência da Câmara.
As mensagens também indicam que Motta utilizou uma residência pertencente a Vorcaro em Brasília. Em determinado momento, o deputado perguntou se poderia receber Arthur Lira no imóvel. O banqueiro respondeu autorizando a utilização da casa.
Segundo outra reportagem do UOL, publicada anteriormente, registros apontam pelo menos seis visitas de Motta ao imóvel entre junho e novembro de 2025, quando Vorcaro não estava na capital federal.
Aeronave também aparece nas mensagens
Além do imóvel, uma aeronave ligada a Vorcaro aparece nas conversas entre o banqueiro e Hugo Motta.
Em dezembro, Motta perguntou ao empresário se poderia utilizar um helicóptero que estaria em Congonhas, em São Paulo, para seguir viagem até Brasília. Vorcaro respondeu autorizando o uso.
O episódio aparece nos registros como parte de uma relação que incluía não apenas discussões políticas, mas também questões logísticas e pessoais entre os dois.
As mensagens, segundo o UOL, também mostram que Motta e Vorcaro discutiram a participação do deputado em um evento em Portugal. O parlamentar demonstrou preocupação com uma possível exposição durante a campanha e avaliou se deveria comparecer.
Vorcaro respondeu sugerindo que o foco naquele momento deveria permanecer na articulação política para a eleição da Câmara.
Estratégia para conquistar apoio de deputados
As conversas também revelam detalhes sobre a estratégia de Hugo Motta para conquistar apoio entre os parlamentares.
Em novembro, o deputado teria explicado a Vorcaro que, depois de concluir as articulações com os partidos, pretendia conversar individualmente com os deputados. A avaliação era de que ainda havia alguns meses até a eleição e que esse período deveria ser utilizado para consolidar apoios.
A estratégia acabou resultando em uma ampla aliança em torno de Motta. Em fevereiro de 2025, o deputado paraibano foi eleito com 444 votos, assumindo o comando da Câmara para o biênio 2025-2026.
A eleição colocou Motta, então com 35 anos, no comando de uma das principais instituições do Poder Legislativo brasileiro.
Relação envolvia outros nomes da política
Daniel Vorcaro também mantinha relações com outras figuras políticas que participaram das articulações em torno da sucessão da Câmara.
As mensagens analisadas pela Polícia Federal mostram conversas envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o ex-ministro Fábio Faria e Hugo Motta.
Segundo reportagem do UOL publicada em setembro, os quatro chegaram a participar de um grupo de WhatsApp criado por Ciro Nogueira em abril de 2024. O grupo reunia Vorcaro, Motta, Faria e o senador piauiense para organizar encontros e tratar de diferentes assuntos.
A existência dessas conversas passou a ganhar relevância dentro das investigações que envolvem o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Motta afirma que contatos foram institucionais
Após a divulgação das informações, Hugo Motta se manifestou por meio de nota.
O presidente da Câmara afirmou que manter contato com empresários e representantes da sociedade faz parte da atividade parlamentar. Segundo ele, os diálogos divulgados não demonstram irregularidade em sua atuação.
Motta declarou ainda que todos os contatos mantidos com integrantes do setor privado foram pautados pela institucionalidade e pela probidade.
Na mesma manifestação, o deputado afirmou que a divulgação de conversas fora de contexto teria como objetivo produzir ataques pessoais em um período próximo às eleições nacionais de 2026.
A defesa de Daniel Vorcaro, de acordo com o UOL, não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.
O que as mensagens revelam sobre os bastidores
As informações divulgadas pela investigação ajudam a reconstruir parte dos bastidores da eleição para a presidência da Câmara de 2025.
Os registros mostram que a candidatura de Hugo Motta foi acompanhada de perto por Daniel Vorcaro e que o banqueiro manteve conversas com diferentes interlocutores sobre a sucessão da Casa.
Também indicam que a relação entre Motta e Vorcaro não se limitava a contatos ocasionais. Os dois conversavam diretamente sobre política, encontros, viagens e questões relacionadas à campanha pela presidência da Câmara.
Ao mesmo tempo, as mensagens divulgadas não significam, por si só, uma conclusão sobre eventual irregularidade na atuação parlamentar de Hugo Motta. O próprio deputado nega que os contatos tenham sido conduzidos fora dos parâmetros institucionais.
O conteúdo passa a integrar o conjunto de informações analisadas pelas autoridades dentro das investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Caso amplia atenção sobre relações entre política e setor privado
A divulgação das mensagens coloca novamente em evidência a relação entre empresários, banqueiros e integrantes do Poder Legislativo.
A atuação de empresários junto a autoridades e parlamentares não é, por si só, suficiente para caracterizar irregularidade. O ponto central das investigações é verificar se os contatos e eventuais benefícios ou negócios associados a essas relações ultrapassaram os limites legais e institucionais.
No caso de Vorcaro e Motta, os registros divulgados pelo UOL apresentam uma relação de proximidade que inclui articulações políticas, utilização de imóvel e aeronave, além de contatos frequentes.
Agora, as informações fazem parte do material que vem sendo analisado pelas autoridades. Eventuais conclusões sobre responsabilidades dependerão do avanço das investigações e das manifestações das pessoas citadas.
Enquanto isso, o episódio amplia o debate sobre transparência, relações institucionais e os limites entre contatos privados e atuação política, especialmente quando envolvem integrantes da cúpula do Congresso Nacional.














