Crianças serão atingidas de maneira desproporcional pelos efeitos do El Niño, segundo alerta divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nesta quinta-feira (8). O relatório chama atenção para os riscos que o fenômeno climático representa especialmente para crianças e adolescentes, grupo considerado mais vulnerável diante do aumento das temperaturas, das mudanças no regime de chuvas e da ocorrência de eventos climáticos extremos.

De acordo com o documento, entre os principais riscos estão o aumento dos casos de desnutrição aguda grave, surtos de doenças como cólera, dengue e malária, além da possibilidade de interrupção de serviços essenciais de saúde e de problemas nas cadeias de refrigeração utilizadas para conservar vacinas e outros insumos médicos.

A preocupação do Unicef está relacionada não apenas aos impactos imediatos do fenômeno, mas também às consequências que podem permanecer por meses ou até anos. Crianças estão em fase de desenvolvimento físico e cognitivo e, por isso, podem apresentar maior sensibilidade ao calor extremo, à desidratação, à fumaça provocada por incêndios, à falta de alimentos adequados e a doenças favorecidas pelas alterações de temperatura e dos padrões de chuva.

O cenário exige preparação antecipada, especialmente em regiões que já enfrentam dificuldades de acesso à saúde, água potável, alimentação e educação.

Mudanças climáticas podem afetar saúde e alimentação

Um dos principais efeitos associados ao El Niño é a alteração dos padrões climáticos em diferentes partes do planeta. Dependendo da região, o fenômeno pode provocar excesso de chuvas ou períodos prolongados de seca, criando condições capazes de afetar diretamente a rotina das famílias.

No campo da saúde, o aumento das temperaturas e as mudanças na distribuição das chuvas podem favorecer a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya. O risco de aumento das arboviroses preocupa especialmente em comunidades que enfrentam problemas de saneamento ou dificuldades para eliminar locais com água parada.

Outro ponto destacado é a possibilidade de perdas agrícolas. Quando plantações são prejudicadas por secas, chuvas intensas ou temperaturas extremas, a oferta de alimentos pode diminuir, contribuindo para o aumento dos preços e ampliando a insegurança alimentar.

Para as crianças, as consequências podem ser ainda mais graves. A falta de acesso regular a alimentos nutritivos pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento, além de aumentar a vulnerabilidade a doenças.

A disponibilidade de água segura também pode ser afetada. Secas prolongadas reduzem os recursos hídricos, enquanto chuvas intensas e inundações podem contaminar fontes de abastecimento e danificar estruturas de saneamento.

Educação também está entre os setores ameaçados

Os efeitos do El Niño não se limitam à saúde e à alimentação. O relatório alerta que eventos climáticos extremos também podem interromper o funcionamento das escolas e prejudicar serviços importantes oferecidos às crianças.

Inundações, deslizamentos, tempestades, incêndios florestais e outros eventos podem dificultar o deslocamento de estudantes e profissionais da educação. Em algumas comunidades, os danos à infraestrutura podem obrigar escolas a suspender temporariamente as atividades.

A interrupção das aulas representa uma preocupação adicional porque a escola não é apenas um espaço de aprendizagem. Para muitas crianças, ela também garante alimentação, proteção, convivência social e acesso a outros serviços.

Em situações de emergência prolongada, a perda desses serviços pode aumentar desigualdades já existentes e afetar principalmente famílias que possuem menos condições de encontrar alternativas.

Meninas estão entre as mais vulneráveis

O Unicef também destaca que os impactos não atingem todas as crianças da mesma maneira. As meninas podem enfrentar riscos adicionais durante períodos de crise climática e insegurança econômica.

Em comunidades afetadas pela escassez de água, por exemplo, meninas podem assumir uma parcela maior das tarefas domésticas, incluindo a busca e o transporte de água para suas famílias. Essa sobrecarga pode reduzir o tempo disponível para estudar e aumentar o risco de abandono escolar.

Também existe preocupação com o aumento da violência baseada em gênero e dos casamentos infantis em contextos de extrema vulnerabilidade.

Um exemplo citado pelo Unicef ocorreu durante a seca que atingiu o Chifre da África entre 2020 e 2023. Segundo o relatório, o casamento infantil aumentou 119% durante o período, evidenciando como crises climáticas podem aprofundar problemas sociais e ampliar a vulnerabilidade de crianças e adolescentes.

Brasil terá impactos diferentes entre as regiões

No Brasil, os efeitos associados ao El Niño podem variar significativamente de acordo com a região. O relatório aponta a possibilidade de chuvas intensas, inundações, danos a estruturas de saneamento e aumento do risco de surtos de doenças como dengue e cólera na região Sul.

As fortes chuvas podem provocar alagamentos e comprometer sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Quando esses serviços são danificados, cresce o risco de contaminação da água e de disseminação de doenças.

No Norte do país, por outro lado, a preocupação está relacionada a um cenário mais seco. A região pode enfrentar períodos de seca severa, temperaturas elevadas e maior risco de incêndios florestais.

A fumaça provocada pelas queimadas pode prejudicar a qualidade do ar e afetar especialmente crianças, que possuem maior sensibilidade aos efeitos da poluição atmosférica. Em comunidades isoladas, os problemas podem ser agravados pela dificuldade de acesso a unidades de saúde e outros serviços essenciais.

Unicef defende preparação antes da emergência

Diante dos riscos, o Unicef defende que governos e comunidades não esperem que os problemas aconteçam para começar a agir. A preparação antecipada é apontada como uma das principais estratégias para reduzir os impactos sobre crianças e famílias.

Entre as medidas recomendadas estão a revisão dos planos de emergência das escolas, a proteção das fontes de água, o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce e a preparação de profissionais e unidades de saúde.

Também é necessário antecipar a disponibilidade de medicamentos e insumos, organizar mecanismos de proteção social e apoio financeiro e identificar previamente as famílias e comunidades que apresentam maior vulnerabilidade.

Para Danilo Moura, especialista em Clima e Meio Ambiente do Unicef no Brasil, esperar que os serviços sejam interrompidos para somente então iniciar uma resposta significa agir tarde demais.

A avaliação reforça que os impactos climáticos são previsíveis em determinados cenários e que a preparação pode reduzir danos, acelerar a resposta das autoridades e proteger principalmente aqueles que possuem menos condições de enfrentar uma emergência.

Investir em prevenção pode reduzir prejuízos

O alerta do Unicef também aponta para a necessidade de pensar além da resposta imediata ao El Niño. No longo prazo, será necessário fortalecer os sistemas nacionais capazes de antecipar e enfrentar eventos climáticos extremos.

Isso inclui investimentos em infraestrutura de água, saúde e educação mais resistentes às mudanças do clima. Escolas, hospitais, sistemas de abastecimento e redes de saneamento precisam ser preparados para funcionar mesmo diante de situações adversas.

Segundo a estimativa apresentada pelo Unicef, cada dólar investido em prevenção e redução de riscos pode representar uma economia de até US$ 15 em gastos posteriores com recuperação.

A lógica é simples: prevenir custa menos do que reconstruir e, no caso das crianças, os benefícios vão muito além da economia financeira. Preparar uma escola, proteger uma fonte de água ou garantir o funcionamento de um posto de saúde pode significar preservar o acesso à educação, à alimentação, à vacinação e ao atendimento médico.

O alerta do Unicef reforça, portanto, que o El Niño não deve ser tratado apenas como um fenômeno climático. Seus efeitos podem chegar diretamente à vida cotidiana de milhões de crianças, interferindo na saúde, na alimentação, na educação e na segurança.

Antecipar riscos, fortalecer serviços públicos e identificar as famílias mais vulneráveis são medidas que podem fazer a diferença. Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais frequentes e intensas, proteger as crianças significa também preparar as comunidades para enfrentar o futuro com mais segurança e capacidade de resposta.