A relação de Caetano Veloso com a obra dos Beatles ganhou mais um capítulo. O cantor e compositor baiano participa da gravação de “Because”, clássico do grupo britânico, no álbum “Bajañí”, lançado em 9 de outubro pelo violonista espanhol Niño Josele. A parceria aproxima duas trajetórias musicais de origens diferentes e evidencia como as canções da banda inglesa continuam atravessando gerações e estilos.
A gravação chama a atenção especialmente do público brasileiro pela participação de Caetano, um dos nomes mais importantes da música popular brasileira. Ao interpretar a composição ao lado de Niño Josele, o artista retoma uma relação antiga com o repertório dos Beatles, grupo que marcou profundamente a história do rock e influenciou músicos de diferentes partes do mundo.
Lançada originalmente no álbum “Abbey Road”, em setembro de 1969, “Because” é uma das canções conhecidas pela construção vocal e pela atmosfera sonora delicada. A nova versão, apresentada no trabalho do violonista espanhol, coloca novamente a composição em evidência e reforça a permanência de sua força artística.
“Because” amplia o repertório dos Beatles gravado por Caetano
A participação em “Bajañí” representa o sexto registro fonográfico oficial de uma música dos Beatles na voz de Caetano Veloso, considerando as gravações mencionadas em sua trajetória. Antes de “Because”, o artista já havia interpretado cinco composições associadas à dupla John Lennon e Paul McCartney.
Embora a influência dos Beatles estivesse presente em diferentes momentos da carreira de Caetano, a aproximação nem sempre apareceu por meio de regravações diretas. Em muitos casos, ela pode ser percebida na maneira como o músico absorveu referências do universo pop internacional e as incorporou à própria linguagem artística.
Um exemplo frequentemente associado a essa fase é o álbum “Transa”, gravado em Londres em 1971 e lançado no ano seguinte. O disco reúne experimentações sonoras e elementos de diferentes tradições musicais, refletindo o ambiente cultural em que Caetano desenvolvia sua produção durante o período em que esteve fora do Brasil.
A influência dos Beatles, entretanto, ficou mais explícita em 1975, quando o cantor lançou dois álbuns importantes de sua discografia: “Joia” e “Qualquer Coisa”. Os trabalhos apresentaram interpretações de quatro músicas do grupo, demonstrando de maneira direta a importância daquele repertório para o artista brasileiro.
Os Beatles em “Joia” e “Qualquer Coisa”
No álbum “Joia”, lançado em 1975, Caetano gravou “Help”, composição que havia sido apresentada pelos Beatles em 1965 e que se tornou um dos grandes sucessos da banda.
Já “Qualquer Coisa” reuniu outras três músicas do grupo no lado B da edição original em LP: “Eleanor Rigby”, “For No One” e “Lady Madonna”. A sequência ajudou a consolidar a presença das composições de Lennon e McCartney na obra fonográfica de Caetano.
As escolhas também mostram como o artista se aproximou de diferentes fases da carreira dos Beatles. Enquanto algumas canções são marcadas por arranjos e estruturas mais ligados ao rock, outras exploram caminhos melódicos e temáticos que ampliaram as possibilidades da música popular produzida pelo grupo britânico.
A interpretação de Caetano não se limita à reprodução das gravações originais. Como acontece com outros artistas que revisitam canções conhecidas, suas versões oferecem a oportunidade de observar como uma composição pode ganhar novas características quando apresentada em outro contexto musical.
A relação entre o repertório dos Beatles e a música brasileira também evidencia a circulação internacional das referências culturais. Canções criadas no Reino Unido passaram a integrar a memória musical de públicos de diferentes países, sendo reinterpretadas por artistas com identidades e experiências próprias.
“Eleanor Rigby” voltou ao repertório em 1986
A música “Eleanor Rigby” teve outro momento importante na trajetória de Caetano Veloso. Onze anos depois da gravação incluída em “Qualquer Coisa”, a canção voltou a aparecer em um álbum do artista lançado em 1986 para o mercado norte-americano, pelo selo Nonesuch.
Nessa versão, os arranjos foram construídos a partir de violão e percussão, destacando uma abordagem diferente daquela popularizada pelos Beatles. A releitura demonstra como o repertório do grupo pode ser adaptado a formações instrumentais mais enxutas sem perder a identidade melódica da composição.
O retorno à música também reforça a continuidade do interesse de Caetano pelas canções de Lennon e McCartney. Ao longo de sua carreira, o artista transitou entre diferentes gêneros, idiomas e tradições musicais, mantendo abertura para dialogar com obras de outros compositores.
Essa disposição para experimentar e reinterpretar referências internacionais faz parte de uma trajetória marcada pela combinação entre elementos da música brasileira e influências de diferentes partes do mundo.
“Hey Jude” tem significado especial na história do cantor
A quinta música dos Beatles gravada por Caetano, antes da participação em “Because”, foi “Hey Jude”. A interpretação foi lançada em 2020, em uma versão de voz e violão, como parte da trilha sonora do documentário “Narciso em férias”, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil.
A canção possui um significado particularmente marcante para o artista. Durante o período da ditadura militar brasileira, Caetano foi preso em 27 de dezembro de 1968 e permaneceu detido por 54 dias. Naquele contexto, “Hey Jude” se tornou uma referência de esperança.
Ao recordar essa experiência no documentário, o cantor explicou como a música o ajudava a manter a expectativa de que sua situação poderia melhorar.
“Eu me lembro nitidamente de que ‘Hey Jude’ era a canção positiva. Quando tocava, era sinal de que ia melhorar minha situação, de que os portões iam se abrir e a luz ia ser vista de novo”, relembrou Caetano.
A declaração mostra que a relação do artista com o repertório dos Beatles vai além da admiração musical. Em determinadas circunstâncias, uma canção pode adquirir um significado pessoal profundo, ligado à memória, às experiências vividas e à maneira como alguém enfrenta momentos difíceis.
No caso de “Hey Jude”, a música passou a representar uma lembrança de esperança em um dos períodos mais delicados da vida de Caetano.
Niño Josele aproxima tradição espanhola e repertório internacional
O novo registro de “Because” também destaca o trabalho de Niño Josele, violonista espanhol que participa da construção dessa interpretação ao lado do artista brasileiro.
O álbum “Bajañí” reúne a proposta musical do instrumentista e estabelece conexões com diferentes referências artísticas. A participação de Caetano amplia o alcance da obra junto ao público brasileiro e aproxima dois universos musicais que, embora tenham trajetórias distintas, compartilham o interesse pela experimentação e pela interpretação.
A escolha de “Because” também é significativa por se tratar de uma composição reconhecida pela delicadeza de sua construção musical. A canção exige atenção às vozes, às harmonias e à atmosfera criada pelos arranjos, características que ajudam a explicar sua permanência no repertório de artistas interessados em explorar novas possibilidades interpretativas.
Na nova gravação, o encontro entre Niño Josele e Caetano oferece outra perspectiva sobre uma obra que integra a história dos Beatles e continua despertando interesse décadas após seu lançamento original.
Uma relação musical que atravessa gerações
A gravação de “Because” reafirma a presença dos Beatles na trajetória de Caetano Veloso e mostra como determinadas obras permanecem relevantes mesmo depois de tantas décadas.
Desde as interpretações lançadas em 1975 até a versão de “Hey Jude”, em 2020, o cantor brasileiro encontrou diferentes maneiras de dialogar com o repertório de John Lennon e Paul McCartney. Cada gravação está inserida em um contexto próprio, seja pela proposta musical, seja pelo significado pessoal atribuído à composição.
Agora, com a participação em “Bajañí”, Caetano acrescenta mais um capítulo a essa relação artística. A parceria com Niño Josele mostra que as canções dos Beatles continuam oferecendo espaço para novas leituras e encontros entre músicos de diferentes culturas.
Mais do que revisitar um clássico, a interpretação de “Because” reforça a capacidade da música de atravessar fronteiras, conectar histórias e permanecer viva por meio de novas vozes e sonoridades.
















