Aos 76 anos, cantora aposta em novos arranjos, clássicos da carreira e músicas de diferentes gerações em espetáculo dirigido por Ronaldo Fraga

Aos 76 anos, Simone mostra que ainda há muito espaço para se reinventar. A cantora estreou no Rio de Janeiro, na noite desta quinta-feira (7), o espetáculo “Que mulher é essa?”, em uma apresentação lotada no Vivo Rio e marcada por novos arranjos, encontros entre diferentes gerações da música brasileira e uma forte presença feminina.

Com direção musical de Ana Frango Elétrico, o show apresenta uma nova sonoridade para a trajetória de Simone, que está nos palcos desde 1973. A proposta consegue renovar canções conhecidas sem apagar a identidade da cantora, dona de um timbre marcante e de uma presença cênica que atravessa décadas.

A direção artística é assinada pelo estilista Ronaldo Fraga, responsável também pelo figurino elegante usado por Simone. A cenografia e a iluminação, de Mari Pitta, completam o ambiente criado para valorizar a artista e deixar que sua experiência conduza o espetáculo.

O repertório combina músicas que fazem parte da história de Simone com escolhas mais recentes e inesperadas. Entre os clássicos estão “Face a face”, “Jura secreta” e “Yolanda”, esta última interpretada na versão original em espanhol.

O título do espetáculo já revela o eixo central da apresentação: a mulher. Ao longo da carreira, Simone sempre esteve ligada a canções que abordam liberdade, desejo, sentimentos e força feminina. Agora, essas questões ganham uma nova perspectiva a partir da experiência de uma mulher de 76 anos que se apresenta no palco com vitalidade, autonomia e disposição para continuar experimentando.

A abertura com “Se você pensa”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, ganha novo significado na voz de Simone. A canção apresenta uma mulher que assume o controle da própria história e deixa claro que ainda existe muito para viver, aprender e experimentar.

Outro momento simbólico é a interpretação de “Velha roupa colorida”, de Belchior, música que fala justamente sobre a chegada do novo. No espetáculo, a ideia se torna ainda mais significativa: Simone, uma artista com mais de cinco décadas de carreira, veste uma nova sonoridade sem abandonar suas raízes.

A banda formada por Chico Lira, Filipe Coimbra, Giordano Bruno e Vitor Cabral contribui para essa renovação. Guitarras, teclados, baixo e bateria dão ao repertório uma energia mais jovem e roqueira, criando uma atmosfera distante dos formatos tradicionais associados à cantora.

O espetáculo também reserva momentos de delicadeza. Um dos destaques é “Baby”, de Caetano Veloso, interpretada por Simone apenas com sua voz e o violão. A escolha carrega uma forte carga emocional e remete à memória de Gal Costa, transformando a canção em um momento de intimidade e saudade.

A cantora também revisita músicas de artistas como Dona Onete, Marina Lima, Rita Lee, Roberto de Carvalho e Erasmo Carlos. O medley de “Cor de rosa choque” e “Bem me quer” aparece entre os momentos mais vibrantes da apresentação, encerrado com uma guitarra em destaque.

Outro momento especial é a homenagem a Lô Borges, morto em 2025, com a interpretação de “Tudo que você podia ser”, parceria de Lô com Márcio Borges e uma das canções que acompanham a trajetória de Simone desde os primeiros anos de carreira.

No bis, “Maria Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, amplia ainda mais a homenagem às mulheres brasileiras. Já “Quando eu estiver cantando”, de João Rebouças e Cazuza, funciona como uma espécie de declaração de permanência: Simone continua cantando, se reinventando e encontrando novas formas de dialogar com o público.

“Que mulher é essa?” representa, assim, mais do que uma nova turnê. O espetáculo revela uma Simone disposta a experimentar, sem abrir mão da história construída ao longo de mais de cinco décadas.

Ao incorporar a linguagem musical de Ana Frango Elétrico, a cantora encontra uma espécie de nova roupa artística — colorida, contemporânea e cheia de personalidade. E, aos 76 anos, mostra que o novo não tem idade para chegar.