Mais da metade das mulheres brasileiras com mais de 40 anos convive com algum grau de incontinência urinária. É o que aponta uma pesquisa realizada pela Ipsos, a pedido da Apsen, que identificou que 56% das entrevistadas relatam perda involuntária de urina.

Apesar da frequência do problema, a maioria ainda não procura atendimento especializado. Segundo o levantamento, 87% das mulheres que apresentam incontinência urinária nunca receberam tratamento específico para a condição.

Realizada entre o fim de junho e o início de julho de 2026, a pesquisa ouviu 1,5 mil mulheres de todas as regiões do Brasil. Os resultados mostram que, além de afetar uma parcela significativa da população feminina, a incontinência ainda é cercada por vergonha, desinformação e dificuldade para falar sobre o assunto.

Sintomas mudam hábitos e rotina

A perda involuntária de urina pode interferir diretamente na rotina. Entre as mulheres que relatam o problema, 52% afirmam ter mudado hábitos por medo de sofrer escapes.

As mudanças incluem carregar absorventes ou protetores por precaução, procurar locais que tenham banheiros próximos e modificar a rotina para evitar situações constrangedoras.

Cerca de um terço das entrevistadas utiliza algum tipo de proteção no dia a dia. Algumas também relatam evitar atividades físicas ou mudar a maneira de se vestir.

Em muitos casos, o esforço para esconder os sintomas acaba substituindo a busca por orientação médica.

Impacto também é emocional

Os efeitos da incontinência urinária não ficam restritos ao aspecto físico. A condição também pode afetar a autoestima, a vida social e o bem-estar emocional.

Entre as mulheres que apresentam incontinência urinária mista, quase três em cada dez relatam ansiedade, estresse, vergonha ou tristeza. Um terço das entrevistadas afirma ainda que já evitou conversar sobre o problema até mesmo com pessoas próximas.

Para a psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, da Universidade de São Paulo (USP), é importante que as mulheres tenham espaços seguros para falar sobre a condição e procurar ajuda.

Quando os sintomas passam a limitar atividades cotidianas, como sair de casa, trabalhar, praticar exercícios ou conviver socialmente com tranquilidade, o acolhimento e a orientação profissional podem fazer diferença.

Assunto ainda é pouco discutido nos consultórios

A dificuldade de falar sobre incontinência urinária também aparece durante as consultas médicas. Entre as mulheres com mais de 50 anos, 64% afirmam ter dificuldade para abordar o problema, inclusive com profissionais de saúde.

Mais da metade das entrevistadas também afirma que nunca foi questionada sobre episódios de perda involuntária de urina durante consultas de rotina.

Para a urologista Rebeka Cavalcanti, do Hospital dos Servidores do Estado, a falta de diálogo pode fazer com que muitas pacientes convivam durante anos com os sintomas antes de buscar avaliação.

O diagnóstico é importante porque existem diferentes tipos de incontinência urinária e cada caso pode exigir uma abordagem específica.

Informação não significa necessariamente tratamento

A pesquisa mostra ainda uma distância entre saber que a condição pode ser tratada e efetivamente buscar acompanhamento.

Segundo o levantamento, 58% das mulheres sabem que a incontinência urinária pode ser tratada, mas apenas 13% fazem algum tipo de acompanhamento.

Também existem lacunas de informação sobre a própria condição. Parte das entrevistadas desconhecia que existem diferentes tipos de incontinência e que mulheres também podem ser atendidas por médicos urologistas.

Mesmo diante desse cenário, 79% consideram a incontinência urinária um problema de saúde que precisa de atenção.

Quebrar o silêncio é parte do cuidado

Os números reforçam que a incontinência urinária é uma condição comum, mas que ainda permanece escondida para muitas mulheres. Vergonha, medo de julgamento e falta de informação podem atrasar a procura por diagnóstico e tratamento.

A orientação de profissionais de saúde é importante para identificar a causa dos escapes e avaliar as opções disponíveis para cada paciente. A condição não deve ser encarada simplesmente como uma consequência inevitável do envelhecimento.

Os dados fazem parte da iniciativa “Escape do Tabu”, voltada à conscientização sobre saúde urinária. A proposta é ampliar o diálogo sobre o tema e estimular mulheres que convivem com os sintomas a procurarem informação e atendimento adequado.

Falar sobre incontinência urinária, portanto, também é uma forma de cuidado: reconhecer o problema, buscar ajuda e entender que existem possibilidades de tratamento pode contribuir para recuperar segurança e qualidade de vida.