A Venezuela começou a restabelecer o acesso a diversos sites de notícias que estavam bloqueados havia anos no país. A medida foi anunciada nesta quinta-feira (17) pela Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) e alcançou veículos nacionais e internacionais que, durante períodos prolongados, só podiam ser acessados por usuários venezuelanos por meio de ferramentas como VPN.
O anúncio ocorreu poucas horas antes do início de uma nova rodada de negociações políticas entre representantes do governo interino e da oposição venezuelana. A liberdade de expressão está entre os assuntos discutidos no processo de diálogo, o que colocou o desbloqueio dos portais no centro das atenções.
Em comunicado, a Conatel informou o “restabelecimento formal do acesso a diversas plataformas e veículos de comunicação digitais nacionais e internacionais”. A medida foi confirmada por organizações que monitoram a internet no país e por veículos que voltaram a ser acessíveis aos usuários.
Entre os portais liberados estão El Nacional, Efecto Cocuyo, El Pitazo, Runrunes e TalCual, além do NTN24, que apresentou instabilidade em alguns momentos. Monitoramentos independentes, porém, indicam que o desbloqueio ainda não alcançou todos os sites que permanecem restritos no país.
Acesso volta após anos de restrições
Durante anos, usuários venezuelanos enfrentaram dificuldades para acessar determinados veículos de comunicação diretamente pela internet. Em muitos casos, era necessário utilizar VPNs ou outras alternativas para conseguir abrir as páginas.
A situação foi denunciada por jornalistas e organizações de direitos digitais, que classificaram os bloqueios como mecanismos de censura. O governo venezuelano, por sua vez, contestou essas caracterizações ao longo dos anos.
A organização VE Sin Filtro, que acompanha as restrições digitais na Venezuela, verificou o acesso a diversos portais por meio de diferentes provedores de internet. Segundo o monitoramento divulgado nesta quinta-feira, 17 sites puderam ser acessados após o início do processo de desbloqueio, embora ainda existam dezenas de veículos e centenas de domínios com algum tipo de restrição.
A situação também não foi uniforme para todos os veículos. Alguns portais passaram a funcionar normalmente em determinadas operadoras, enquanto outros apresentaram instabilidade ou continuaram inacessíveis para parte dos usuários.
Jornalistas comemoram, mas mantêm cautela
Entre os profissionais que reagiram à medida está Víctor Amaya, diretor do TalCual, portal que estava bloqueado desde julho de 2024.
O jornalista celebrou a possibilidade de o veículo voltar a ser acessado diretamente por leitores venezuelanos, destacando o período de dificuldades enfrentado pelo meio de comunicação.
Amaya também demonstrou cautela diante da possibilidade de o desbloqueio não alcançar todos os provedores ou não ser aplicado de maneira permanente. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o TalCual chegou a registrar perda de cerca de 60% do tráfego após o bloqueio, além de afastamento de anunciantes que temiam possíveis consequências por manter publicidade no veículo.
Para os veículos afetados, a retomada do acesso representa mais do que uma mudança técnica. O bloqueio dificultava a chegada das informações aos leitores e criava obstáculos para a atividade cotidiana das redações.
O próprio Efecto Cocuyo relatou que jornalistas do portal precisavam utilizar VPNs ou alternativas técnicas para acessar o próprio site a partir da Venezuela. O veículo descreveu o fim da restrição como uma mudança importante na rotina profissional.
Ainda existem muitos sites bloqueados
Apesar do anúncio da Conatel, organizações independentes ressaltam que o desbloqueio não representa o fim das restrições digitais na Venezuela.
A VE Sin Filtro informou que ainda identificava 188 sites bloqueados no país, sendo 79 relacionados a veículos de notícias. Os números reforçam que a medida alcançou apenas uma parcela dos domínios que enfrentavam restrições.
Esse cenário levou representantes da oposição e organizações ligadas à defesa da liberdade de expressão a defenderem que o processo seja ampliado.
A dirigente oposicionista Dinorah Figuera classificou a medida como um primeiro passo e afirmou que outros veículos ainda precisam recuperar o acesso integral e permanente.
A diferença entre o anúncio oficial e a situação encontrada em diferentes provedores também é um dos pontos acompanhados pelas organizações de monitoramento digital.
Desbloqueio ocorre durante negociações políticas
A decisão foi anunciada em um momento particularmente importante da política venezuelana.
Na quinta-feira (17), representantes do governo interino e da oposição iniciaram uma nova rodada de negociações políticas, apoiada pelos Estados Unidos. Entre os assuntos colocados em discussão está justamente a liberdade de expressão.
A coincidência entre o início do diálogo e o anúncio do desbloqueio chamou a atenção de representantes políticos e de organizações que acompanham o processo.
O vice-ministro de Gestão da Comunicação, Gustavo Villapol, afirmou em entrevista à televisão estatal que o país precisa superar a polarização e adotar uma relação diferente com a comunicação.
Segundo ele, não se deve utilizar a comunicação para atacar pessoas sem provas nem para interesses que estejam fora dos objetivos nacionais.
A declaração representa uma sinalização de mudança no discurso oficial sobre a relação entre governo e imprensa, embora ainda seja necessário observar como essas medidas serão aplicadas na prática.
Liberdade de expressão no centro do debate
A retomada do acesso aos portais ocorre em meio a discussões mais amplas sobre as condições para o funcionamento da imprensa venezuelana.
Em junho, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que parte da recuperação da Venezuela dependeria da criação de condições para uma imprensa livre e independente. A declaração foi feita antes da nova rodada de negociações entre governo e oposição.
O tema ganhou espaço nas conversas políticas porque o acesso à informação é considerado um dos elementos envolvidos no processo de abertura institucional discutido pelos diferentes setores.
Ao mesmo tempo, organizações de direitos digitais alertam que o desbloqueio de alguns sites, embora relevante, não resolve todas as restrições existentes no ambiente digital venezuelano.
Medida ainda é observada com cautela
A reação dos veículos liberados foi marcada por uma mistura de comemoração e prudência.
A experiência dos últimos anos faz com que jornalistas e organizações acompanhem de perto a estabilidade do acesso. Em alguns casos, páginas que inicialmente apareceram como desbloqueadas apresentaram problemas posteriormente.
O NTN24, por exemplo, confirmou que seu portal havia voltado a funcionar, mas relatou instabilidade no acesso. Outros veículos também tiveram diferenças de funcionamento dependendo da empresa responsável pela conexão.
Por isso, a expectativa entre os profissionais de imprensa é que a liberação não seja apenas temporária ou limitada a determinados provedores.
A continuidade do acesso poderá ser um dos principais indicadores para avaliar a extensão prática da decisão anunciada pela Conatel.
Caso de jornalista preso também gera preocupação
No mesmo dia em que os desbloqueios foram anunciados, a líder opositora María Corina Machado denunciou a prisão de Javier Oropeza, ex-prefeito de Torres.
Segundo Machado, Oropeza teria sido detido de maneira arbitrária. Ele havia retornado à Venezuela dois dias antes, depois de passar dois anos no exílio.
A denúncia ainda depende da apuração das autoridades e foi apresentada pela dirigente oposicionista em suas redes sociais. O episódio acrescentou tensão ao debate sobre direitos políticos e liberdade de expressão no país.
Organizações internacionais também continuam acompanhando a situação venezuelana. Nesta semana, investigadores das Nações Unidas afirmaram que estruturas de repressão no país permaneciam em funcionamento, enquanto o governo interino conduz medidas relacionadas à libertação de presos políticos.
O que muda para os venezuelanos
Para os leitores, o principal efeito do desbloqueio é a possibilidade de acessar diretamente informações produzidas por veículos que estavam restritos.
A mudança também pode facilitar o trabalho de jornalistas, pesquisadores e organizações que dependiam de ferramentas alternativas para consultar conteúdos publicados dentro ou fora da Venezuela.
No entanto, a existência de centenas de domínios ainda bloqueados mostra que o cenário digital permanece em transformação.
A medida anunciada pela Conatel representa, portanto, uma abertura parcial do acesso à informação. Seu alcance definitivo dependerá da manutenção dos desbloqueios, da inclusão de outros veículos e da evolução das negociações políticas.
Para os jornalistas que passaram anos trabalhando sob restrições digitais, o momento representa uma oportunidade de voltar a falar diretamente com seus leitores. Para a sociedade venezuelana, a possibilidade de acessar diferentes fontes de informação sem recorrer a ferramentas alternativas poderá significar uma mudança importante na rotina de consumo de notícias.
O próximo passo será acompanhar se o desbloqueio será ampliado e mantido de forma permanente. Enquanto as negociações políticas avançam, o acesso à imprensa e a liberdade de expressão permanecem entre os temas centrais do debate sobre o futuro institucional da Venezuela.











