A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em um novo momento de tensão após o governo do presidente Donald Trump revogar, nesta terça-feira (4), o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida representa mais um capítulo da crise diplomática entre os dois países e foi interpretada como uma resposta ao impasse envolvendo a indicação do novo embaixador norte-americano para o Brasil.
Segundo informações divulgadas pela BBC News Brasil, a diplomata não foi declarada persona non grata nem expulsa dos Estados Unidos. No entanto, caso deixe o território americano, precisará solicitar um novo visto para retornar ao país.
De acordo com uma fonte do governo dos EUA, a administração Trump avalia adotar novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro não autorize a nomeação de Daniel Perez, indicado pela Casa Branca para assumir a embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Governo americano critica demora do Brasil
Em nota, um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que o presidente Donald Trump tem o direito de escolher os representantes diplomáticos do país e criticou qualquer tentativa de interferência estrangeira nos processos internos norte-americanos.
A decisão foi motivada pela demora do governo brasileiro em conceder o chamado agrément, autorização diplomática necessária para que um embaixador possa assumir oficialmente o cargo em outro país.
Contudo, o Itamaraty argumenta que os Estados Unidos romperam o protocolo diplomático ao anunciar publicamente Daniel Perez antes mesmo de solicitar formalmente a autorização ao Brasil.
Itamaraty reage e acusa EUA de medidas hostis
Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores classificou a decisão americana como parte de uma escalada de ações hostis contra o Brasil.
Em nota oficial, o governo brasileiro afirmou que as justificativas apresentadas pelo Departamento de Estado são falsas e acusou Washington de tentar interferir no processo político brasileiro.
O Itamaraty também ressaltou que não existe prazo obrigatório para a concessão do agrément e afirmou que a postura americana rompeu uma tradição diplomática historicamente respeitada entre os dois países.
Especialistas veem precedente inédito
Para o diplomata aposentado Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, a revogação do visto da representante brasileira cria um precedente considerado incomum nas relações bilaterais.
Segundo ele, nunca houve um episódio semelhante envolvendo um embaixador brasileiro nos Estados Unidos e o episódio evidencia o agravamento da crise diplomática.
Já o professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, avalia que a reação da Casa Branca foi desproporcional e aumenta a pressão sobre o governo brasileiro. Na avaliação do especialista, é pouco provável que o Brasil acelere a autorização para Daniel Perez assumir a embaixada em Brasília.
Quem é Maria Luiza Ribeiro Viotti
Natural de Belo Horizonte, Maria Luiza Ribeiro Viotti tornou-se, em 2023, a primeira mulher a ocupar o cargo de embaixadora do Brasil nos Estados Unidos.
Diplomata de carreira desde 1976, possui uma trajetória consolidada na política externa brasileira. Entre suas principais funções estão:
- Representante permanente do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU);
- Presidente do Conselho de Segurança da ONU;
- Embaixadora do Brasil na Alemanha;
- Chefe de Gabinete do secretário-geral da ONU, António Guterres, entre 2017 e 2021.
Ao assumir a embaixada em Washington, destacou que Brasil e Estados Unidos compartilham valores democráticos e possuem uma agenda ampla de cooperação nas áreas política, econômica, ambiental e de direitos humanos.
Quem é Daniel Perez
Indicado por Donald Trump para comandar a embaixada americana no Brasil, Daniel Perez, de 38 anos, preside atualmente a Câmara dos Representantes da Flórida.
Filho de imigrantes cubanos, advogado e integrante do Partido Republicano, Perez é considerado um aliado próximo de Trump e costuma defender publicamente as principais pautas do movimento Make America Great Again (MAGA).
Antes de assumir o posto em Brasília, sua indicação ainda precisa ser aprovada pelo Senado dos Estados Unidos.
Negativa de vistos também elevou tensão
A crise entre os dois governos já havia sido intensificada após o Brasil negar vistos diplomáticos aos funcionários do Departamento de Estado Riley Barnes e Samuel Samson.
Segundo o governo brasileiro, havia preocupação de que a visita pudesse alimentar questionamentos sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Os Estados Unidos negaram essa interpretação e classificaram as acusações como infundadas.
Relação vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos
Especialistas apontam que a sequência de decisões adotadas pelos dois governos evidencia um endurecimento das relações diplomáticas entre Brasília e Washington.
Enquanto a Casa Branca pressiona pela rápida aprovação de seu novo embaixador, o governo brasileiro mantém a defesa do respeito aos protocolos diplomáticos e rejeita qualquer tentativa de influência externa sobre questões políticas e eleitorais do país.
O episódio amplia a tensão entre as duas maiores democracias do continente e pode trazer novos desdobramentos nas relações políticas e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos nos próximos meses.














