O dólar iniciou os negócios desta quinta-feira (17) em queda, em uma manhã marcada pela repercussão das decisões de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos e pela movimentação dos preços do petróleo no mercado internacional. Perto das 9h, a moeda norte-americana recuava 0,38%, sendo negociada a R$ 5,1318, segundo os dados divulgados na abertura do mercado.

O movimento acontece um dia depois de uma chamada “superquarta”, marcada por decisões importantes dos bancos centrais das duas maiores economias das Américas. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu novamente a taxa Selic. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) fez o movimento contrário e elevou os juros.

A combinação dessas decisões influencia diretamente as expectativas dos investidores, o fluxo de recursos internacionais e a percepção de risco nos mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Banco Central reduz a Selic pela quinta vez consecutiva

O principal acontecimento no cenário doméstico foi a decisão do Banco Central de cortar a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano.

Essa foi a quinta redução consecutiva da Selic. A decisão foi unânime e estava alinhada às expectativas predominantes do mercado financeiro. Com o novo corte, a taxa atingiu o menor nível desde março de 2025.

O ciclo de redução dos juros ocorre em um momento de desaceleração da inflação e de sinais de perda de ritmo em algumas áreas da atividade econômica brasileira.

Em agosto, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou queda de 0,32%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ajudou a criar espaço para a continuidade do processo de flexibilização monetária.

Apesar disso, o Banco Central manteve uma postura de cautela. A autoridade monetária indicou que os próximos passos dependerão da evolução dos indicadores econômicos, especialmente das expectativas de inflação, da atividade econômica e dos fatores externos.

Entre os riscos monitorados estão justamente a trajetória do petróleo e os efeitos das tensões geopolíticas sobre os preços internacionais.

Corte de juros pode afetar crédito e investimentos

A Selic é a principal taxa de referência da economia brasileira e influencia diversas operações financeiras.

Quando os juros básicos caem, empréstimos e financiamentos podem, gradualmente, ficar menos caros, embora a transmissão para o consumidor não aconteça de forma imediata. Bancos e instituições financeiras também consideram risco de crédito, inadimplência e outros custos antes de definir as taxas cobradas dos clientes.

O movimento também afeta os investimentos.

Aplicações de renda fixa ligadas à taxa básica tendem a oferecer retornos menores conforme os juros recuam. Ao mesmo tempo, a redução da Selic pode aumentar o interesse por ativos de maior risco, como ações, dependendo das condições gerais do mercado.

Para empresas, juros menores podem representar melhores condições para financiar investimentos e ampliar operações, mas o impacto depende também da confiança dos empresários e das perspectivas para a economia.

Fed aumenta juros nos Estados Unidos

Enquanto o Brasil reduziu os juros, o Federal Reserve decidiu elevar a taxa básica americana em 0,25 ponto percentual.

Com a decisão, a taxa dos Estados Unidos passou para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano. A medida foi aprovada por unanimidade pelo Comitê Federal de Mercado Aberto, o Fomc.

Foi a primeira elevação dos juros americanos desde 2023. O Fed justificou a decisão pelo cenário de inflação ainda elevada e afirmou que a atividade econômica continua avançando em ritmo sólido.

O banco central americano também destacou a resiliência dos gastos domésticos e a permanência de um ambiente de incerteza provocado, entre outros fatores, pelos acontecimentos geopolíticos.

A decisão tem reflexos internacionais porque os títulos americanos são considerados importantes referências para os investidores globais. Quando os juros dos Estados Unidos sobem, aplicações em ativos americanos podem se tornar mais atrativas, influenciando o fluxo de capital em países emergentes.

Brasil e Estados Unidos seguem caminhos diferentes

A diferença entre as decisões dos dois bancos centrais chama atenção.

Enquanto o Banco Central brasileiro está reduzindo a Selic, o Federal Reserve elevou os juros para combater pressões inflacionárias. Essa divergência pode interferir no chamado diferencial de juros entre os dois países.

Em condições normais, taxas brasileiras mais altas em relação às americanas podem contribuir para atrair recursos estrangeiros para ativos denominados em reais. Quando essa diferença diminui, alguns investidores podem rever suas posições.

Isso não significa, porém, que o câmbio dependa apenas dos juros. O preço do dólar também é influenciado por fatores como cenário fiscal, atividade econômica, comércio exterior, fluxo de investimentos, expectativas políticas e condições internacionais.

Por isso, o mercado acompanha simultaneamente vários indicadores.

Petróleo recua no mercado internacional

Outro fator que entrou no radar dos investidores nesta quinta-feira foi o petróleo.

Os preços da commodity registraram queda depois de notícias de que a Arábia Saudita estaria oferecendo cargas adicionais de petróleo por meio de Omã, reduzindo parte das preocupações relacionadas a possíveis interrupções no abastecimento.

No início do pregão, o Brent, referência internacional, era negociado próximo de US$ 103 por barril. O WTI, referência nos Estados Unidos, também operava acima de US$ 100, mas em queda.

A Reuters informou que os preços chegaram a recuar cerca de 3% durante a sessão, diante da redução dos temores sobre uma interrupção prolongada da oferta. Ainda assim, o petróleo permanece em níveis elevados devido às incertezas envolvendo o Oriente Médio.

A trajetória do petróleo é importante para o Brasil porque influencia os custos de produção, transporte e energia. Movimentos persistentes de alta podem pressionar a inflação e dificultar a trajetória de redução dos juros.

Mercado acompanha cenário político

Além dos indicadores econômicos, os investidores brasileiros também acompanham o ambiente político nacional.

A proximidade das eleições de 2026 aumenta a atenção sobre decisões que possam afetar as contas públicas, a inflação e as expectativas para a economia.

A situação do Supremo Tribunal Federal (STF) também permanece no radar do mercado. A crise envolvendo integrantes da Corte e o julgamento relacionado ao caso Moraes-Vorcaro aumentaram a percepção de incerteza institucional ao longo da semana.

Em ambientes de maior incerteza, investidores costumam avaliar com mais cuidado os riscos associados aos ativos brasileiros, o que pode provocar oscilações no câmbio, nos juros futuros e no mercado acionário.

Bolsas internacionais têm desempenho misto

O cenário externo também apresentou movimentos diferentes entre as principais bolsas.

Na Ásia, os mercados chineses terminaram a sessão em baixa. O índice de Xangai e o CSI 300 recuaram cerca de 0,4%, enquanto o Hang Seng, de Hong Kong, também caiu 0,4%.

No Japão, o Nikkei registrou alta de 0,33%. Já o Kospi, da Coreia do Sul, teve leve queda de 0,04%.

O desempenho dos mercados asiáticos refletiu parte da reação à decisão do Federal Reserve de elevar os juros americanos e às preocupações sobre os impactos dessa política sobre os fluxos internacionais de capital.

O que o mercado deve acompanhar nos próximos dias

A combinação entre juros menores no Brasil, juros maiores nos Estados Unidos, petróleo ainda elevado e incertezas geopolíticas deixa o ambiente financeiro particularmente sensível.

No Brasil, os investidores deverão acompanhar os próximos indicadores de inflação e atividade econômica, além das discussões relacionadas à política fiscal e ao cenário eleitoral.

O Banco Central, por sua vez, deverá avaliar se a desaceleração da inflação será suficiente para permitir novos cortes da Selic ou se os riscos externos exigirão uma postura mais cautelosa.

No exterior, a trajetória dos juros americanos continuará sendo um dos principais fatores para os mercados globais. O comportamento do petróleo também poderá influenciar as expectativas de inflação em diferentes países.

Para o consumidor brasileiro, as decisões tomadas pelos bancos centrais podem parecer distantes, mas seus efeitos chegam ao cotidiano. Juros influenciam financiamentos, empréstimos e investimentos, enquanto o dólar interfere nos preços de produtos importados e o petróleo pode afetar combustíveis e diversos custos da economia.

Assim, a abertura do dólar nesta quinta-feira representa apenas uma parte de um cenário financeiro mais amplo. O mercado segue tentando equilibrar os sinais de melhora da inflação brasileira com os riscos externos e as incertezas que devem marcar a economia nos próximos meses.