Em 1976, Luiz Melodia lançou “Maravilhas contemporâneas”, seu segundo álbum de estúdio, em um momento importante de sua trajetória artística. Cinquenta anos depois, o disco continua despertando interesse por sua mistura de ritmos, pela personalidade de suas composições e pela maneira singular como o cantor e compositor carioca transitava entre diferentes referências da música brasileira e internacional.

O álbum chegou três anos depois de “Pérola negra”, trabalho de estreia lançado em 1973 e que havia conquistado reconhecimento da crítica, apesar das vendas consideradas modestas. O intervalo entre os dois discos foi maior do que o habitual para os padrões da indústria fonográfica brasileira dos anos 1970, quando artistas consagrados costumavam apresentar novos trabalhos praticamente todos os anos.

A demora, porém, não foi resultado de falta de criatividade. Luiz Melodia precisou enfrentar resistências dentro da própria indústria musical. Depois da repercussão de seu primeiro disco, o artista foi pressionado a gravar um álbum concentrado em sambas, seguindo uma expectativa comercial que não correspondia à diversidade de sua obra.

Melodia recusou a proposta e manteve sua liberdade artística. A decisão ajudou a preservar uma das características mais marcantes de sua carreira: a capacidade de combinar diferentes gêneros sem se prender a fórmulas.

Um artista que não aceitava rótulos

Luiz Carlos dos Santos, conhecido artisticamente como Luiz Melodia, nasceu em 7 de janeiro de 1951 e morreu em 4 de agosto de 2017. Criado no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, ele desenvolveu desde cedo uma relação profunda com o samba e com a cultura musical das comunidades cariocas.

Sua obra, no entanto, nunca ficou restrita ao gênero. Melodia incorporou ao próprio repertório elementos de blues, rock, soul, jazz, choro, baião e outras vertentes, construindo uma identidade que se tornou difícil de enquadrar em uma única categoria.

Foi justamente essa liberdade que esteve no centro do conflito vivido pelo artista após o lançamento de “Pérola negra”.

A gravadora Philips, responsável pelo primeiro álbum, esperava que o segundo trabalho seguisse uma direção mais tradicional. Melodia não aceitou limitar sua criação e acabou deixando a companhia.

Antes disso, ainda lançou em 1974 a música “Salve linda canção sem esperança”, incluída na coletânea “Máximo de sucessos”. Depois, passou por um período de transição até encontrar uma nova oportunidade.

“Ébano” abriu caminho para o segundo álbum

A retomada aconteceu em 1975, quando Luiz Melodia participou do festival “Abertura”, promovido pela TV Globo. Na ocasião, apresentou “Ébano”.

Embora a música não tenha conquistado uma premiação no festival, sua repercussão foi significativa. Posteriormente lançada em single pela Som Livre, “Ébano” alcançou o público e ajudou a abrir as portas para que Melodia ingressasse na gravadora.

Foi pela Som Livre que o cantor finalmente conseguiu gravar seu segundo álbum.

Lançado em 1976, “Maravilhas contemporâneas” teve produção sob a direção de Guto Graça Mello e produção artística de Marcio Antonucci. O disco reuniu 11 faixas, sendo dez compostas por Luiz Melodia.

A única exceção foi “Quando o Carnaval chegou”, samba de autoria creditada a Célio José, escolhido para encerrar o repertório.

O resultado foi um trabalho que manteve a liberdade artística do cantor e aprofundou a mistura de estilos que já aparecia em sua estreia.

“Juventude transviada” virou o grande sucesso

Entre as músicas do álbum, “Juventude transviada” ganhou uma dimensão especial. O samba-canção, marcado por uma letra de caráter surrealista e por uma melodia envolvente, alcançou grande repercussão nacional.

Parte desse sucesso veio antes mesmo do lançamento do álbum. A música integrou a trilha sonora da novela “Pecado capital”, exibida pela TV Globo a partir de novembro de 1975.

A presença na novela fez com que a composição chegasse a milhões de brasileiros e se tornasse uma das canções mais conhecidas da trajetória de Melodia.

O público teve contato com “Juventude transviada” meses antes de ouvir a faixa dentro do contexto de “Maravilhas contemporâneas”. Quando o álbum chegou às lojas, portanto, uma de suas principais músicas já possuía forte reconhecimento.

Outra composição importante do repertório foi “Congênito”. Curiosamente, a primeira gravação da música não foi feita pelo próprio Melodia.

A cantora Vanusa apresentou o samba em 1975, no álbum “Amigos novos & antigos”. A interpretação ajudou a antecipar uma das músicas que posteriormente integrariam o universo de “Maravilhas contemporâneas”.

Diversidade rítmica e grandes músicos

Se “Pérola negra” já havia demonstrado a capacidade de Luiz Melodia de combinar diferentes gêneros, “Maravilhas contemporâneas” aprofundou essa característica.

O disco pode ser compreendido como uma mistura de samba, rock, blues e jazz, com referências diretamente relacionadas à tradição musical do Estácio e à cultura carioca.

A sonoridade também foi beneficiada pela participação de músicos reconhecidos por sua qualidade instrumental.

Entre os profissionais envolvidos estavam Chico Batera, na bateria; Fredera, na guitarra; Jamil Joanes, no baixo; Luiz Carlos Batera, na bateria e percussão; Oberdan Magalhães, nos saxofones, flauta e arranjos; Márcio Montarroyos, no pistom; Maurício Einhorn, na gaita; e Perinho Santana, na guitarra e nos arranjos.

A presença desses músicos ajudou a construir um acabamento sofisticado para as composições de Melodia.

O resultado foi um álbum em que os instrumentos não aparecem apenas como acompanhamento, mas participam ativamente da construção da atmosfera de cada faixa.

Um disco marcado pelo groove

A música que dá nome ao álbum, “Maravilhas contemporâneas”, carrega elementos que lembram trabalhos anteriores do artista. Já “Baby rose” apresenta uma atmosfera psicodélica, especialmente perceptível no arranjo.

“Mary”, por sua vez, aproxima-se de uma sonoridade mais ligada ao jazz, enquanto outras faixas reforçam a presença do samba e do rock.

“Questão de posse” chama atenção pelo conteúdo emocional. Na música, Melodia se dirige ao filho Hiran, construindo versos que revelam uma dimensão mais íntima de sua produção.

Em “Amor”, aparecem imagens marcadas pela melancolia e por uma percepção inquieta da vida cotidiana. “Memórias modestas” também carrega esse tom reflexivo.

Já “Veleiro azul” cria uma paisagem mais onírica, mas apresenta, em meio à beleza das imagens, uma crítica à hipocrisia presente nas relações humanas.

Em “Paquistão”, o groove ganha ainda mais espaço e reforça uma característica importante do álbum: em várias faixas, o balanço e a construção rítmica se destacam tanto quanto as melodias.

Cinquenta anos depois

Embora a safra de composições de “Maravilhas contemporâneas” seja frequentemente colocada em comparação com a força autoral de “Pérola negra”, o segundo álbum possui importância própria dentro da trajetória de Luiz Melodia.

O disco registra um momento em que o artista já havia demonstrado sua capacidade de resistir às expectativas da indústria e construir uma identidade própria.

Cinquenta anos depois de seu lançamento, o trabalho continua relevante justamente por não se encaixar facilmente em uma única definição.

“Maravilhas contemporâneas” é um retrato de Luiz Melodia em um período de afirmação artística, reunindo poesia, experimentação, balanço e diferentes tradições musicais.

A obra também evidencia como o artista conseguiu transformar influências aparentemente distintas em uma linguagem pessoal, marcada pela voz, pelo suingue e pela maneira particular de escrever.

Para celebrar os 50 anos do álbum, “Maravilhas contemporâneas” ganhará uma edição comemorativa em LP pelo Noize Record Club, com previsão de entrega aos assinantes do clube em novembro.

A iniciativa ajuda a recolocar o disco em circulação e oferece a novas gerações a oportunidade de conhecer um trabalho fundamental para compreender a trajetória de Luiz Melodia.

Meio século depois, “Maravilhas contemporâneas” permanece como uma obra que atravessou o tempo sem perder sua personalidade. Mais do que uma lembrança da música brasileira dos anos 1970, o álbum continua sendo um registro da liberdade criativa de um artista que nunca aceitou caber em uma única definição.