A desistência da ex-presidente do Chile Michelle Bachelet da disputa pela Secretaria-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) abriu uma nova etapa na corrida para definir quem sucederá António Guterres no comando da entidade. Diante da retirada da candidatura, o governo brasileiro reafirmou a defesa de que a América Latina tenha participação central no processo e destacou que a região possui mulheres com experiência e qualificação para ocupar o posto.
Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty afirmou que Bachelet representa um exemplo da capacidade de liderança feminina existente na América Latina. A ex-presidente chilena anunciou sua retirada da disputa no sábado (19), depois de perder o apoio oficial do próprio Chile e enfrentar dificuldades para avançar nas consultas realizadas entre os integrantes do Conselho de Segurança.
A candidatura de Bachelet havia recebido apoio do Brasil e do México depois que o governo chileno decidiu retirar seu respaldo à ex-presidente. O movimento ocorreu após a mudança de governo no Chile, com a chegada de Antonio Kast à Presidência.
Brasil mantém defesa de uma mulher latino-americana
Desde o início da disputa, o governo brasileiro vem defendendo que a América Latina e o Caribe tenham espaço relevante na escolha do próximo secretário-geral da ONU. A argumentação brasileira considera o princípio de rotatividade regional tradicionalmente observado no preenchimento do cargo.
O Brasil também defende que a próxima pessoa a ocupar a Secretaria-Geral seja uma mulher. Em mais de oito décadas de existência da ONU, nenhuma mulher ocupou o posto máximo da organização.
A própria ONU registra atualmente um processo de seleção com candidaturas de diferentes regiões e perfis. Entre os nomes oficialmente apresentados estão Rebeca Grynspan, da Costa Rica; Carolyn Rodrigues Birkett, da Guiana; María Fernanda Espinosa, do Equador; Rafael Grossi, da Argentina; Macky Sall, do Senegal; e outros candidatos que participaram das etapas formais de apresentação de suas propostas.
Com a retirada de Bachelet, a disputa entra em uma nova fase justamente no momento em que representantes dos países se reúnem em Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas.
Itamaraty destaca trajetória de Bachelet
Na manifestação oficial sobre a saída de Bachelet, o governo brasileiro ressaltou a trajetória internacional da ex-presidente chilena.
Bachelet foi presidente do Chile por dois períodos e também ocupou cargos de destaque no cenário internacional. Entre suas funções estiveram as de ministra da Saúde e ministra da Defesa do Chile. No sistema das Nações Unidas, foi a primeira diretora-executiva da ONU Mulheres e também exerceu o cargo de Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Para o Itamaraty, essa trajetória demonstra a existência de mulheres latino-americanas com experiência suficiente para disputar posições de grande responsabilidade no sistema multilateral.
O governo brasileiro, entretanto, ainda não anunciou qual candidato ou candidata pretende apoiar após a retirada de Bachelet. Segundo informações diplomáticas divulgadas sobre o processo, a definição ainda está em discussão.
A nota brasileira também mencionou a cooperação com o México durante a campanha de Bachelet e reafirmou a defesa de um processo de escolha considerado transparente e inclusivo.
Quais são as prioridades defendidas pelo Brasil?
Ao tratar do perfil que pretende apoiar, o governo brasileiro afirmou que a próxima liderança da ONU deve estar comprometida com os princípios da própria organização.
Entre os pontos destacados estão o multilateralismo baseado no direito internacional e os três pilares da Carta das Nações Unidas: paz e segurança, direitos humanos e desenvolvimento sustentável.
A posição brasileira está inserida em uma discussão mais ampla sobre o futuro do sistema multilateral, especialmente diante de conflitos armados, tensões entre grandes potências e desafios globais que exigem negociações entre diferentes países.
O processo de escolha do próximo secretário-geral ocorre em um período de forte pressão sobre a capacidade das instituições internacionais de produzir consensos.
A decisão final, portanto, envolve não apenas a escolha de um nome, mas também diferentes visões sobre o papel que a ONU deverá desempenhar nos próximos anos.
Disputa ganhou novas configurações
A saída de Bachelet ocorreu depois de uma rodada de consultas informais do Conselho de Segurança. Na terceira votação de sondagem, realizada em 18 de setembro, a costarriquenha Rebeca Grynspan apareceu à frente, com nove votos classificados como “encourage”, cinco como “discourage” e uma indicação de “no opinion”. Carolyn Rodrigues Birkett recebeu oito votos favoráveis, seis contrários e uma manifestação sem opinião.
Essas votações são informais e não representam a decisão definitiva do Conselho de Segurança. Elas servem para medir o grau de apoio dos integrantes do órgão e podem influenciar a dinâmica da disputa, mas o processo ainda depende de negociações entre os países.
A ONU explica que o secretário-geral é escolhido pela Assembleia Geral após uma recomendação do Conselho de Segurança. O mandato é de cinco anos, com possibilidade de uma segunda gestão.
O Conselho de Segurança tem 15 membros, incluindo cinco permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — que possuem poder de veto. Por isso, a construção de consenso entre essas potências é uma etapa decisiva para que um nome avance.
O papel do secretário-geral da ONU
O secretário-geral é o principal representante da Organização das Nações Unidas e exerce funções diplomáticas e administrativas.
Entre suas atribuições está coordenar o trabalho do sistema ONU, participar de negociações internacionais, dialogar com governos e chamar a atenção do Conselho de Segurança para situações que possam representar ameaças à paz e à segurança internacional.
Apesar da importância do cargo, o secretário-geral não possui autoridade para impor unilateralmente decisões aos países membros.
Sua atuação depende da capacidade de negociação, articulação diplomática e construção de consensos entre os Estados.
A escolha do sucessor de António Guterres, portanto, terá impacto sobre a condução diplomática da organização a partir de 2027.
Lula participa da Assembleia Geral em Nova York
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está em Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU. A agenda ocorre justamente em meio às discussões sobre a sucessão de António Guterres e sobre o futuro do multilateralismo.
Lula deve defender, em seu discurso, posições relacionadas ao fortalecimento da cooperação internacional e abordar conflitos e crises que estão no centro da agenda global.
A presença brasileira em Nova York também ocorre em um contexto de negociações diplomáticas envolvendo a sucessão na ONU.
A posição brasileira sobre a candidatura latino-americana e a possibilidade de uma mulher assumir pela primeira vez a Secretaria-Geral deverá continuar sendo discutida nos bastidores durante a Assembleia Geral.
Uma disputa ainda em aberto
A retirada de Michelle Bachelet modifica o cenário da sucessão, mas não encerra a disputa. A região latino-americana continua representada por candidaturas femininas, entre elas Rebeca Grynspan e Carolyn Rodrigues Birkett, que aparecem entre os nomes submetidos oficialmente ao processo da ONU.
Para o Brasil, a questão agora passa pela definição de um novo nome a ser apoiado, mantendo como referências a presença latino-americana e a defesa de uma mulher para o cargo.
Enquanto as negociações avançam, a escolha deverá envolver consultas entre os países e a busca por um nome capaz de obter apoio suficiente no Conselho de Segurança antes de chegar à Assembleia Geral.
A definição do próximo secretário-geral está prevista para este ano, com início do novo mandato em 1º de janeiro de 2027. António Guterres encerra seu segundo mandato em 31 de dezembro de 2026.
A disputa, portanto, entra em sua fase decisiva com uma questão histórica no centro das discussões: depois de mais de 80 anos de existência da ONU, a próxima liderança poderá representar uma mudança inédita na ocupação do principal cargo diplomático da organização.














