Endometriose é uma condição que pode transformar atividades comuns do dia a dia em experiências marcadas pela dor. Cólicas menstruais intensas, dor pélvica persistente, desconforto durante as relações sexuais e dificuldades para engravidar estão entre os problemas que podem fazer parte da rotina de muitas pacientes. A partir de outubro, mulheres com indicação médica para determinados tratamentos terão uma nova possibilidade de acesso pela saúde suplementar: os planos de saúde deverão cobrir o DIU hormonal, incluindo o procedimento de inserção, nos casos definidos pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

A mudança foi publicada nesta terça-feira (22) e entra em vigor em 1º de outubro de 2026. A nova regulamentação estabelece critérios para que a cobertura seja obrigatória, incluindo situações em que houver indicação prevista em bula ou quando a paciente não puder utilizar contraceptivos orais combinados ou não aderir a esse tipo de tratamento.

A atualização representa uma mudança nas regras de cobertura que estavam em vigor desde 2021. O dispositivo já fazia parte do rol de procedimentos da ANS, mas a nova diretriz detalha as condições relacionadas ao tratamento da endometriose e estabelece de maneira mais específica quando a operadora deverá autorizar o procedimento.

O que muda para as pacientes

Na prática, a nova regra não significa que toda pessoa diagnosticada com endometriose terá automaticamente direito à colocação de um DIU hormonal. A cobertura está vinculada aos critérios estabelecidos pela ANS e à indicação médica correspondente.

Quando os requisitos forem atendidos, a cobertura deverá contemplar tanto o dispositivo intrauterino hormonal quanto sua inserção.

A definição é relevante porque o tratamento da endometriose precisa levar em consideração as características de cada paciente. A doença pode apresentar diferentes formas e níveis de comprometimento, e a escolha terapêutica depende de fatores como sintomas, extensão da doença, histórico clínico e objetivos reprodutivos.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) destaca que o tratamento deve ser individualizado. Entre as opções clínicas estão diferentes terapias hormonais, enquanto procedimentos cirúrgicos podem ser considerados em situações específicas.

Entenda o que é a endometriose

A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o interior do útero, está presente em outras regiões do organismo. Essas lesões podem atingir estruturas como ovários, intestino e bexiga e provocar processos inflamatórios.

A doença pode afetar significativamente a qualidade de vida. Segundo a FEBRASGO, entre os sintomas estão cólicas menstruais intensas, dor pélvica persistente, dor durante as relações sexuais e alterações intestinais e urinárias que podem apresentar relação com o ciclo menstrual. A endometriose também pode estar associada à infertilidade.

Nem todas as pacientes apresentam os mesmos sintomas. Algumas convivem durante anos com dores que são inicialmente atribuídas a cólicas menstruais consideradas comuns, enquanto outras descobrem a doença durante uma investigação relacionada à dificuldade para engravidar.

Por isso, a avaliação médica é fundamental para estabelecer o diagnóstico e definir a estratégia de tratamento.

Como funciona o DIU hormonal

O DIU hormonal é um dispositivo colocado dentro do útero que libera levonorgestrel, um hormônio semelhante à progesterona. A substância atua principalmente no ambiente uterino e pode reduzir o fluxo menstrual e, em algumas mulheres, levar à ausência de menstruação.

A FEBRASGO aponta o sistema intrauterino liberador de levonorgestrel entre as opções hormonais utilizadas no manejo de sintomas relacionados à endometriose.

No caso da endometriose, o objetivo do tratamento hormonal não é simplesmente impedir uma gravidez. Ele também pode ser utilizado como parte da estratégia para controlar sintomas, especialmente a dor.

A escolha, porém, precisa considerar as necessidades individuais da paciente. Uma mulher que deseja engravidar, por exemplo, necessita de uma abordagem diferente daquela que busca prioritariamente o controle da dor e não pretende engravidar naquele momento.

A própria FEBRASGO ressalta que tratamentos hormonais não devem ser utilizados com o objetivo de aumentar a fertilidade natural. Em mulheres que desejam engravidar, a estratégia precisa levar em conta idade, reserva ovariana, características da doença e outros fatores reprodutivos.

Tratamento não é igual para todas

A endometriose é uma doença complexa e pode se manifestar de maneiras diferentes. Por isso, não existe um único tratamento considerado adequado para todas as pacientes.

Além do DIU hormonal e de outros medicamentos, o acompanhamento pode envolver diferentes profissionais de saúde. Em determinados casos, a cirurgia pode ser indicada, especialmente quando há comprometimento de órgãos, dor persistente apesar do tratamento clínico ou outras situações específicas.

Especialistas da FEBRASGO ressaltam que a cirurgia também precisa ser avaliada individualmente, principalmente quando envolve os ovários, já que determinados procedimentos podem afetar a reserva ovariana.

Essa individualização é importante para evitar que uma opção terapêutica seja adotada apenas por causa do diagnóstico, sem considerar o quadro completo da paciente.

Uma mudança na saúde suplementar

A nova regra da ANS aproxima a saúde suplementar de uma realidade que já vinha sendo discutida no sistema público de saúde. O sistema intrauterino de levonorgestrel é uma das alternativas consideradas no tratamento hormonal de determinadas pacientes com endometriose.

A inclusão de critérios específicos para cobertura pelos planos pode representar uma mudança importante para mulheres que dependem da rede privada e enfrentam dificuldades para acessar tratamentos.

Para muitas pacientes, a endometriose não representa apenas uma questão relacionada ao ciclo menstrual. A dor pode interferir no trabalho, nos estudos, na vida sexual, nos relacionamentos e na saúde emocional. A FEBRASGO destaca justamente o impacto amplo da doença sobre a qualidade de vida e a importância de reconhecer os sintomas para iniciar uma investigação adequada.

O que a paciente deve fazer

Com a entrada da nova regra em vigor, a paciente que possui diagnóstico de endometriose e considera o DIU hormonal como parte do tratamento deve conversar com o ginecologista responsável pelo acompanhamento.

O profissional poderá avaliar se o método é indicado para aquele caso e se os critérios previstos pela regulamentação da ANS estão presentes. Caso exista indicação dentro das condições estabelecidas, a solicitação de cobertura poderá ser feita à operadora do plano.

Também é importante lembrar que o DIU hormonal não elimina necessariamente as lesões provocadas pela endometriose. Seu papel está relacionado ao controle hormonal e dos sintomas dentro de uma estratégia terapêutica individualizada.

A partir de 1º de outubro, portanto, a principal mudança será a definição mais clara das situações em que os planos de saúde deverão garantir o dispositivo e sua inserção para pacientes com endometriose.

Para mulheres que convivem há anos com dores e limitações provocadas pela doença, a medida amplia uma possibilidade de acesso ao tratamento. Mas, como acontece em qualquer decisão médica, a escolha pelo DIU hormonal deve partir de uma avaliação individual, considerando sintomas, histórico de saúde, contraindicações, objetivos reprodutivos e as demais alternativas disponíveis.

Mais do que a inclusão de um procedimento na cobertura dos planos, a mudança reforça a importância de tratar a endometriose de forma adequada e personalizada. Em uma doença que pode afetar diferentes áreas da vida, o acesso ao cuidado e o acompanhamento contínuo são fundamentais para buscar melhor qualidade de vida.