Apenas 14,7% dos estudantes que ingressaram em cursos de licenciatura em 2025 estavam entre os 20% dos participantes com melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do ano anterior. O dado faz parte do Anuário da Educação Básica 2026, divulgado nesta terça-feira (22) pelo Todos Pela Educação, e chama atenção para um dos principais desafios enfrentados pelo sistema educacional brasileiro: tornar a carreira docente mais atrativa para jovens com diferentes perfis e, especialmente, para estudantes de alto desempenho acadêmico.

O levantamento considera os alunos que fizeram o Enem no ano anterior ao ingresso no Ensino Superior. A comparação com outras áreas de formação evidencia a diferença na escolha dos estudantes com melhores resultados na avaliação. Entre os ingressantes em Direito, 32,6% estavam entre os 20% com melhor desempenho no exame. Na Medicina, esse percentual chegou a 81,2%.

Os números ajudam a dimensionar o desafio de atrair novos profissionais para a educação básica. A formação de professores está diretamente ligada à qualidade do ensino oferecido nas escolas, mas os dados mostram que as licenciaturas têm perdido espaço entre estudantes que apresentam desempenho elevado no Enem.

Queda na presença de estudantes de alto desempenho

O cenário também revela uma mudança ao longo dos últimos anos. Em 2018, 23,9% dos estudantes que ingressaram em licenciaturas estavam entre os 20% com melhor desempenho no Enem.

O percentual caiu para aproximadamente 14% em 2023 e chegou a 14,7% em 2024, considerando os dados apresentados pelo anuário para a série histórica.

Embora a variação mais recente represente uma pequena recuperação em relação ao período imediatamente anterior, o índice permanece distante do registrado no início da série analisada.

A questão não envolve apenas números de ingresso nas universidades. A composição dos cursos de formação docente pode influenciar, no futuro, o perfil dos profissionais que chegarão às salas de aula brasileiras.

Professores têm papel central no desenvolvimento dos estudantes. São eles que acompanham crianças e adolescentes durante etapas fundamentais da formação acadêmica, social e profissional. Por isso, a qualidade da formação inicial e as condições oferecidas para o exercício da profissão são fatores importantes para o funcionamento de todo o sistema educacional.

Desafios aparecem também na formação

O Anuário da Educação Básica 2026 apresenta outro dado preocupante relacionado às licenciaturas.

Entre os concluintes dos cursos avaliados em 2025, apenas 20,2% alcançaram o nível considerado adequado no exame utilizado pelo levantamento. Ao mesmo tempo, 42,2% ficaram abaixo do nível básico.

A situação é ainda mais expressiva entre estudantes matriculados em cursos de licenciatura a distância. Nesse grupo, 53,1% ficaram abaixo do nível básico, enquanto entre aqueles que frequentaram cursos presenciais o percentual foi de 26,1%.

Os números não significam que todos os cursos ou estudantes estejam submetidos às mesmas condições. No entanto, revelam diferenças importantes na formação inicial e reforçam a necessidade de analisar a qualidade dos cursos, as condições de aprendizagem e o acompanhamento oferecido aos futuros professores.

A expansão do ensino superior a distância ampliou o acesso à formação em diferentes regiões do país, especialmente para pessoas que enfrentam dificuldades para frequentar aulas presenciais. Ao mesmo tempo, os dados apresentados no anuário mostram a importância de garantir que essa ampliação de acesso seja acompanhada por qualidade acadêmica e suporte adequado aos estudantes.

Mais professores têm formação superior

Apesar dos desafios, o levantamento também registra avanços importantes na formação dos docentes que já atuam na Educação Básica.

O percentual de professores sem curso superior caiu de 23,6%, em 2015, para 12,3%, em 2025.

A redução mostra que o país avançou na escolarização dos profissionais responsáveis pelo ensino de crianças, adolescentes e jovens.

Entretanto, ainda existem desafios relacionados à correspondência entre formação e área de atuação.

No Ensino Médio, por exemplo, aproximadamente um em cada três professores com diploma não leciona na área em que se formou.

A situação pode afetar a relação entre o conhecimento específico adquirido durante a graduação e os conteúdos trabalhados em sala de aula. A formação adequada para cada componente curricular é considerada uma das dimensões importantes para garantir qualidade ao processo de ensino e aprendizagem.

Educação Infantil ainda é marcada pela desigualdade

O anuário também apresenta números relacionados ao acesso das crianças à Educação Infantil.

Em 2025, 43,3% das crianças de 0 a 3 anos estavam matriculadas nessa etapa da educação. Porém, o acesso não ocorre de maneira uniforme entre diferentes grupos sociais.

Entre as crianças pertencentes às famílias mais pobres, o percentual de atendimento era de 34,7%. Entre aquelas das famílias mais ricas, chegava a 54,7%.

A diferença revela como as condições econômicas continuam influenciando o acesso às oportunidades educacionais desde os primeiros anos de vida.

Na faixa de 4 e 5 anos, entretanto, o cenário apresenta um resultado mais elevado. A taxa de matrícula chegou a 96,1% em 2025, o maior percentual registrado na série histórica apresentada pelo anuário.

A ampliação do acesso à Educação Infantil é considerada estratégica porque os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças.

Desigualdade racial permanece na trajetória escolar

Outro indicador apresentado pela publicação está relacionado às diferenças raciais na conclusão das etapas da educação básica.

Em 2025, 92,1% dos jovens brancos e amarelos haviam concluído o Ensino Fundamental aos 16 anos. Entre jovens pretos, pardos e indígenas, o percentual era de 86,3%.

A diferença também aparece na conclusão do Ensino Médio.

Aos 19 anos, 81,7% dos jovens brancos e amarelos haviam concluído essa etapa, enquanto o índice entre pretos, pardos e indígenas era de 69,5%.

Os números mostram que, embora o acesso à escola tenha avançado no país, ainda existem desigualdades importantes na trajetória escolar. Permanência, aprendizagem e conclusão são desafios que vão além da simples matrícula.

Aprendizagem continua sendo um dos principais desafios

Quando o assunto é aprendizagem, os resultados apresentados pelo anuário também chamam atenção.

Na rede pública, apenas 18,8% dos estudantes do 9º ano apresentavam aprendizagem adequada em Matemática em 2025.

No Ensino Médio, o índice era ainda menor: 8,5%.

Em Língua Portuguesa, os percentuais eram de 38,3% no 9º ano e 35,2% no Ensino Médio.

Os dados mostram que uma parcela significativa dos estudantes chega às etapas finais da Educação Básica sem dominar conhecimentos considerados essenciais.

A situação ganha ainda mais importância quando relacionada à formação dos professores. Uma educação de qualidade depende de diversos fatores, mas profissionais bem preparados e valorizados estão entre os elementos fundamentais para melhorar a aprendizagem.

Educação profissional cresce no país

O Anuário da Educação Básica 2026 também registra expansão da Educação Profissional e Tecnológica.

As matrículas em cursos de nível médio dessa modalidade passaram de 764 mil em 2015 para 1,58 milhão em 2025.

Somente no último ano, foram registradas 244 mil novas matrículas.

O crescimento mostra uma procura maior por caminhos de formação que combinam educação básica e preparação para o mundo do trabalho. Para muitos jovens, os cursos técnicos representam uma possibilidade de adquirir conhecimentos específicos e ampliar as oportunidades de inserção profissional.

Um retrato dos avanços e dos desafios

A 13ª edição do Anuário da Educação Básica reúne indicadores sobre acesso, aprendizagem, infraestrutura, gestão, educação inclusiva e equidade étnico-racial. A publicação é elaborada pelo Todos Pela Educação em parceria com a Fundação Santillana e a Editora Moderna.

Além dos dados mais recentes, o documento apresenta comparações entre diferentes períodos, incluindo indicadores de 2005 e 2025. Dessa maneira, permite observar avanços conquistados ao longo de duas décadas, mas também identificar problemas que permanecem presentes.

O baixo percentual de estudantes de alto desempenho escolhendo licenciaturas é um desses sinais de alerta. O dado não deve ser analisado isoladamente, mas dentro de um cenário mais amplo que envolve formação inicial, condições de trabalho, valorização profissional, aprendizagem dos alunos e desigualdades educacionais.

A educação brasileira avançou em diferentes frentes nos últimos anos, mas os números mostram que ainda existe um caminho significativo pela frente.

Atrair novos talentos para a carreira docente, garantir formação de qualidade e criar condições para que esses profissionais permaneçam na sala de aula são desafios que ultrapassam as universidades. Eles envolvem políticas públicas, escolas, famílias e toda a sociedade.

No fim, os números do anuário representam mais do que estatísticas. Eles ajudam a contar a história de milhões de estudantes e professores que, diariamente, constroem a educação brasileira. E mostram que melhorar o ensino passa necessariamente por olhar para quem aprende, mas também para quem dedica sua vida a ensinar.