O segundo e último debate presidencial de 2026, realizado nesta sexta-feira (23), na TV Globo, começou com a apresentação de propostas para áreas importantes do país, mas terminou marcado por uma intensa troca de acusações e ofensas entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). No encontro que antecede o segundo turno das eleições, os candidatos discutiram temas como segurança pública, economia, salário mínimo, programas sociais, infraestrutura e combate à criminalidade.

A mudança mais significativa de postura ocorreu no quarto e último bloco, quando os candidatos tiveram liberdade para escolher os assuntos que gostariam de abordar. Nesse momento, o debate deixou em segundo plano a apresentação de propostas e passou a concentrar acusações relacionadas a episódios que marcaram a campanha eleitoral, incluindo o caso do Banco Master, as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, e uma disputa judicial envolvendo uma mansão relacionada ao jogador Richarlison e a Willer Tomaz, advogado e amigo de Flávio.

Nos três primeiros blocos, apesar dos ataques e das provocações, as regras do programa direcionaram os candidatos para temas sorteados ou escolhidos previamente. A estrutura também limitou a movimentação dos participantes pelo cenário, reduzindo a possibilidade de confrontos físicos ou aproximações utilizadas no debate anterior, realizado pela TV Bandeirantes.

Segurança pública e caso Ana Clara provocam confronto

A segurança pública foi um dos assuntos mais tensos do terceiro bloco. Flávio Bolsonaro afirmou que, caso seja eleito, pretende devolver à população territórios dominados pelo crime organizado. Lula, por sua vez, questionou quais medidas o adversário pretende adotar para garantir segurança sem ampliar os riscos para a população.

O presidente levou ao debate o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta com um tiro de fuzil durante uma ação policial no Rio de Janeiro, em 2021. A mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, atribui a Flávio responsabilidade política por sua atuação na defesa do policial acusado de efetuar o disparo e pela decisão judicial de adiar o julgamento.

Questionado sobre a defesa do agente, Flávio afirmou que não existem provas de que o policial tenha cometido o crime. Durante a resposta, o senador cometeu uma gafe ao chamar a mãe pelo nome da filha.

O policial militar Bruno Dias Delaroli foi acusado pelo Ministério Público de realizar o disparo. Flávio integrou a defesa do agente e assinou, em 2024, um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra a decisão de submetê-lo a júri popular.

O episódio evidenciou a divergência entre os candidatos sobre segurança pública, atuação policial e responsabilização criminal. Enquanto Lula utilizou o caso para questionar a postura do adversário, Flávio sustentou a necessidade de respeitar a presunção de inocência e contestou a acusação.

Pedido de desculpas marca o segundo bloco

Outro momento de destaque ocorreu no segundo bloco, quando Flávio Bolsonaro pediu desculpas a Lula por tê-lo chamado de “nove dedos” durante o confronto inicial.

O presidente afirmou que não aceitaria ser tratado daquela maneira e relembrou o acidente de trabalho que provocou a perda de um dos dedos de sua mão esquerda, quando tinha 17 anos e trabalhava em uma metalúrgica no ABC paulista.

Flávio declarou que lamentava ter utilizado uma expressão que pudesse ter ofendido o adversário, mas aproveitou a oportunidade para cobrar desculpas do presidente por problemas enfrentados pela população, citando dificuldades financeiras das famílias e preocupações com a segurança das mulheres.

O bloco também retomou a discussão sobre a licença-maternidade das servidoras públicas do Rio de Janeiro. Questionado sobre seu voto contrário a um projeto que ampliava o benefício de 120 para 180 dias, Flávio afirmou que se arrependeu da decisão. Segundo ele, à época, imaginava que a ampliação poderia prejudicar as mulheres na busca por emprego.

Na discussão sobre políticas sociais, Lula questionou ainda o uso da expressão “bolsa-farelo” por Flávio para se referir ao Bolsa Família.

O senador apresentou uma proposta de renegociação de dívidas para pessoas físicas e empresas, com adiamento dos pagamentos por seis meses para o primeiro grupo e por um ano para o segundo. Lula afirmou que iniciativas semelhantes já estavam em discussão por seu governo e que dependiam da tramitação legislativa.

Salário mínimo, alimentos e transporte público

No primeiro bloco, Lula e Flávio discutiram infraestrutura, exportações, saneamento básico e políticas econômicas. O presidente acusou o adversário de desconhecer a realidade brasileira, enquanto o senador procurou apresentar propostas para um eventual governo.

Flávio prometeu concluir obras paralisadas e estabelecer pedágio gratuito para motocicletas em novas rodovias. Também defendeu a continuidade de projetos de concessão iniciados durante o governo de Jair Bolsonaro.

Lula afirmou que pretende concluir obras da transposição do Rio São Francisco e da Ferrovia Transnordestina.

A discussão ganhou outro rumo quando o presidente questionou o senador sobre o salário mínimo e a política de reajustes acima da inflação. Lula afirmou que, sem essa política, o valor seria de aproximadamente R$ 900, em comparação aos R$ 1.621 mencionados no debate como valor vigente.

Flávio não respondeu diretamente à pergunta e declarou que, se eleito, também pretende garantir aumentos reais do salário mínimo.

O preço dos alimentos voltou a ocupar espaço importante. O senador criticou o custo da alimentação e afirmou que o governo havia frustrado expectativas relacionadas à promessa de acesso à carne bovina. Lula respondeu destacando as medidas de seu governo para combater a fome e reduzir as dificuldades econômicas.

O endividamento das famílias também foi discutido. O presidente reconheceu a gravidade do problema e citou programas de renegociação de dívidas implementados por sua administração.

Apostas on-line e políticas sociais entram na discussão

As apostas esportivas on-line, conhecidas como bets, também foram tema do terceiro bloco. Lula defendeu sua decisão de vetar uma medida relacionada ao setor, enquanto Flávio criticou a iniciativa e afirmou que a decisão poderia prejudicar clubes de futebol patrocinados por empresas de apostas.

Os candidatos também apresentaram posições sobre o Bolsa Família e o Sistema Único de Saúde (SUS). Flávio prometeu manter o programa de transferência de renda e mencionou o atendimento recebido por seu pai, Jair Bolsonaro, após o atentado sofrido durante a campanha presidencial de 2018, para destacar a importância da rede pública de saúde.

Lula, por sua vez, defendeu as políticas sociais de seu governo e questionou como o adversário pretende promover cortes de aproximadamente R$ 200 bilhões em despesas sem prejudicar os programas destinados à população de menor renda.

Flávio rejeitou a interpretação apresentada pelo presidente e classificou as críticas como informações falsas.

Último bloco transforma debate em confronto direto

No quarto bloco, a possibilidade de escolher livremente os temas permitiu que os candidatos direcionassem as perguntas para assuntos politicamente sensíveis. O Banco Master, as investigações envolvendo o filho de Lula e a disputa judicial relacionada à mansão mencionada durante a campanha passaram a integrar o confronto.

As acusações elevaram o tom da discussão e reduziram o espaço dedicado à apresentação de propostas concretas. O embate terminou com os dois candidatos trocando críticas e tentando associar o adversário a episódios negativos.

A dinâmica contrastou com os blocos anteriores, nos quais as regras exigiam maior concentração nos temas definidos pelo programa.

Debate antecede decisão dos eleitores

O encontro na TV Globo foi o último debate presidencial antes do segundo turno das Eleições 2026, marcado para domingo (25). O programa ofereceu aos eleitores a oportunidade de acompanhar as posições dos candidatos sobre economia, segurança pública, infraestrutura e políticas sociais, além de observar como cada um respondeu às críticas do adversário.

A troca de acusações no encerramento mostrou o peso da disputa política na reta final da campanha. Ao mesmo tempo, as propostas apresentadas sobre salário mínimo, transporte público, endividamento e combate ao crime permanecem entre os assuntos que exigem atenção dos eleitores.

Com a votação se aproximando, cabe à população avaliar as declarações, comparar as propostas e buscar informações confiáveis sobre os compromissos apresentados pelos candidatos.

O debate encerrou a série de confrontos televisivos entre Lula e Flávio Bolsonaro antes da votação decisiva, em uma campanha marcada por divergências sobre os rumos econômicos, sociais e institucionais do Brasil.