Samba ganha um novo olhar sobre uma de suas histórias menos lembradas fora das rodas tradicionais com o lançamento de “Banzo batucada – Marina Iris canta Wilson Moreira”. O álbum chega ao público nesta sexta-feira (25), pela gravadora Biscoito Fino, e presta homenagem a um dos grandes compositores do samba carioca, Wilson Moreira, que completaria 90 anos em dezembro.

Nascido em 12 de dezembro de 1936 e morto em 6 de setembro de 2018, Wilson Moreira construiu uma trajetória marcada pela riqueza de suas composições, pela ligação com as tradições afro-brasileiras e pela parceria com nomes importantes da música popular brasileira. Apesar da relevância de sua obra, seu nome ainda não ocupa o mesmo espaço de reconhecimento alcançado por outros mestres de sua geração, como Candeia, Martinho da Vila e Nei Lopes.

É justamente nesse ponto que o trabalho de Marina Iris ganha importância. Em vez de recorrer apenas aos sucessos mais conhecidos associados ao compositor, a cantora mergulha em um repertório menos explorado e recupera músicas que, embora fundamentais para compreender a dimensão artística de Wilson Moreira, acabaram ficando à margem do grande público.

“Banzo batucada” nasce, portanto, como um trabalho de pesquisa, memória e reverência. Mais do que um simples álbum de releituras, o projeto procura aproximar novas gerações de uma produção musical que permanece atual pela força de seus temas, pela riqueza melódica e pela profunda conexão com a cultura negra brasileira.

Um tributo que foge do repertório mais conhecido

Sob direção artística da própria Marina Iris e com produção musical de Alaan Monteiro e Alessandro Cardozo, o álbum reúne 18 sambas distribuídos em 14 faixas, além de um texto. A seleção evidencia a intenção de apresentar um Wilson Moreira que vai além das canções mais populares de sua parceria com Nei Lopes.

Músicas como “Coisa da antiga”, “Candongueiro”, “Goiabada cascão”, “Gostoso veneno” e “Senhora liberdade” ajudaram a eternizar a parceria entre Wilson e Nei Lopes e ganharam interpretações marcantes de artistas como Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione e Zezé Motta.

No entanto, essas canções não são o centro do novo projeto. Marina escolheu outro caminho: revisitar composições menos lembradas e mostrar ao público a dimensão de uma obra que não pode ser resumida aos seus grandes sucessos.

Entre as preciosidades está “Coité, cuia”, composta por Wilson Moreira e Nei Lopes em 1977. A música aparece em um medley com “Meu baio e meus balaios”, de 1975, recuperando dois sambas que foram lançados originalmente na voz de Roberto Ribeiro.

A escolha também funciona como homenagem a Roberto Ribeiro, cantor de enorme importância na história do samba e cuja discografia continua sendo redescoberta por intérpretes das novas gerações.

Marina canta sem descaracterizar a obra

Um dos principais méritos do projeto está na maneira como Marina Iris se aproxima das composições. Em vez de buscar uma atualização artificial ou transformar os sambas para adequá-los a tendências contemporâneas, a cantora preserva a identidade das músicas.

O resultado é um trabalho que respeita a tradição sem transformá-la em peça de museu.

Marina conhece o universo em que a obra de Wilson Moreira foi construída e demonstra isso na interpretação. O canto se coloca a serviço das composições, permitindo que as palavras, os ritmos e as histórias contadas pelas músicas permaneçam no centro da experiência.

Essa escolha aproxima “Banzo batucada” da própria essência das rodas de samba, onde a memória dos compositores é mantida viva por meio da transmissão de repertórios entre diferentes gerações.

A participação de Teresa Cristina reforça essa conexão. Convidada de Marina, ela interpreta “Alegria perdida (Yoyô de yayá)”, partido alto de Wilson Moreira e Candeia lançado originalmente pelo próprio Candeia em 1974.

A presença de Teresa Cristina acrescenta ao projeto uma intérprete profundamente ligada à tradição do samba e à valorização de compositores que ajudaram a construir a história do gênero.

Zeca Pagodinho e Jorge Aragão entre os convidados

O álbum também reúne nomes importantes do samba brasileiro. Zeca Pagodinho participa de “Moenda velha”, composição de 1993 assinada por ele e Wilson Moreira. A faixa recebe arranjo de Pretinho da Serrinha e estabelece uma ponte entre diferentes gerações do samba.

Zeca já havia trabalhado com Wilson em “Judia de mim”, de 1986, mostrando a relação artística construída entre os dois compositores.

Outro encontro especial acontece em “Quintal do céu”, samba de 1986 composto por Jorge Aragão e Wilson Moreira. A canção ganha nova interpretação na voz de Marina, acompanhada pelo próprio Aragão.

Melodioso e marcado pelo lirismo característico das composições de Jorge Aragão, o samba reforça a capacidade de Wilson Moreira de estabelecer parcerias com diferentes artistas e transitar por diferentes formas de expressão dentro do gênero.

A memória negra presente em todo o álbum

A dimensão da cultura negra é um dos elementos mais importantes da obra de Wilson Moreira e também ocupa espaço central no projeto de Marina Iris.

“Okolofé”, samba que deu nome ao álbum lançado por Wilson em 1989, reaparece agora em uma interpretação coletiva com integrantes do Coro de Artistas de Teatro. A música foi composta em homenagem ao ator Grande Otelo, uma das figuras mais importantes da história do cinema, do teatro e da cultura brasileira.

Do mesmo álbum também são recuperadas “Belo encontro” e “Formiga miúda”, esta última composta por Wilson Moreira e Sérgio Fonseca. “Formiga miúda” aparece em medley com “A brilhante velha guarda”, de 2002.

Outro momento de grande força é “Não foi ela”, composição de Wilson Moreira e Nei Lopes lançada em 1978. Embora tenha sido posteriormente regravada por Zeca Pagodinho, a música ainda é considerada uma das pérolas menos exploradas do repertório do compositor.

“Jongo do Irmão Café” ganha interpretação especial

Entre os momentos mais marcantes do álbum está “Jongo do Irmão Café”, de 1981. Marina Iris divide a interpretação com o grupo Terreiro de Crioulo e com o próprio Nei Lopes.

A faixa aproxima música, ancestralidade e memória, recuperando um repertório ligado às tradições negras brasileiras. A participação de Nei Lopes ganha ainda mais significado por sua longa parceria com Wilson Moreira e pelo papel que desempenhou na preservação e divulgação do samba.

O jongo também estabelece uma conexão temática com “Canteiro de obra”, composição de Wilson Moreira e Sérgio Fonseca, de 1986.

Música, migração e memória social

“Canteiro de obra” recebe as participações de Chico César e Juliana Linhares. A canção mistura elementos de samba, seresta, toada e baião para abordar a migração de nordestinos para o Sudeste brasileiro.

A faixa é apresentada em medley com o texto “Amanhã será melhor”, do poeta pernambucano Solano Trindade. A escolha amplia o significado do álbum, mostrando que a obra de Wilson Moreira também dialoga com questões sociais, identidade, deslocamento e experiência popular.

Nesse sentido, o projeto não se limita a apresentar antigas composições. Ele constrói relações entre músicas de diferentes épocas e temas que continuam presentes na sociedade brasileira.

Duas músicas inéditas completam a homenagem

O álbum também apresenta duas composições inéditas criadas especialmente para celebrar a memória de Wilson Moreira.

A abertura fica por conta de “Mestre Wilson soberano”, samba lento composto por Manu da Cuíca e Marina Iris em 2026. Já o encerramento acontece com “Moringa do Moreira”, partido alto de Marquinho China e Luiz Carlos Máximo.

Com arranjo de Ana Costa, a faixa final ganha versos improvisados de Gabrielzinho do Irajá, Marquinho China e Mosquito, convidados que ajudam a encerrar o projeto mantendo viva uma das características mais tradicionais das rodas de samba: a criação espontânea.

Antes do lançamento do álbum, Marina apresentou ao público o single “Nãna”, lançado em 3 de setembro. A música serviu como uma primeira amostra da proposta artística que agora chega ao público de forma completa.

Um legado que ganha nova luz

“Banzo batucada” surge em um momento simbólico: justamente quando Wilson Moreira se aproxima do aniversário de 90 anos que completaria em dezembro.

A homenagem ajuda a recolocar o compositor no centro de uma conversa necessária sobre a história do samba brasileiro. Sua produção reúne parcerias importantes, referências à cultura negra, experiências populares e uma capacidade singular de transformar cotidiano e ancestralidade em música.

Ao escolher pérolas menos conhecidas em vez de simplesmente repetir os grandes sucessos, Marina Iris amplia o alcance da homenagem e oferece ao público a possibilidade de descobrir diferentes facetas do compositor.

O resultado é um álbum construído com conhecimento e respeito. Um trabalho que não tenta reinventar Wilson Moreira, mas permitir que sua voz continue sendo ouvida.

Em tempos nos quais a música brasileira revisita constantemente seu próprio passado, “Banzo batucada” cumpre uma função importante: lembrar que a história do samba é muito maior do que os nomes mais conhecidos.

Marina Iris abre espaço para que Wilson Moreira seja novamente escutado, estudado e celebrado. E, ao fazer isso, transforma o tributo em um gesto de preservação cultural, entregando ao público não apenas um disco, mas uma oportunidade de reencontro com uma parte fundamental da memória do samba brasileiro.