O porto de La Guaira, no litoral da Venezuela, foi transformado em um necrotério improvisado diante da quantidade de vítimas provocadas pelos fortes terremotos que atingiram o país há seis dias. A região é considerada a mais afetada pelos tremores, e equipes de medicina legal trabalham sem interrupção para identificar os corpos retirados dos escombros.
Os terremotos, que registraram magnitudes de 7,2 e 7,5 em um intervalo de poucos segundos, devastaram diversas áreas do estado de La Guaira, vizinho à capital Caracas. Segundo o balanço oficial mais recente, o desastre já deixou 1.719 mortos, número que continua aumentando à medida que as operações de busca avançam.
No porto, dezenas de sacos mortuários e caixões ocupam grandes áreas enquanto médicos legistas realizam exames e emitem certidões de óbito. A estrutura foi montada porque os necrotérios dos hospitais da região ficaram rapidamente sobrecarregados com o elevado número de vítimas.
Famílias enfrentam longa espera
Centenas de familiares permanecem em filas aguardando a oportunidade de reconhecer parentes desaparecidos. Muitos carregam flores e vivem momentos de profunda angústia enquanto aguardam informações.
Entre eles está Wilker Molalla, de 25 anos, que acredita ter perdido a irmã, sobrinhos e outros familiares que moravam próximos ao porto. Das 11 pessoas da família, apenas ele e um irmão sobreviveram porque estavam trabalhando no momento dos tremores.
A demora no atendimento também tem gerado críticas. Familiares reclamam da falta de profissionais para atender à grande demanda e afirmam que, em muitos casos, as buscas por sobreviventes e corpos têm sido realizadas principalmente por moradores voluntários.
Identificação das vítimas emociona familiares
O reconhecimento dos corpos tem sido marcado por cenas de forte comoção. Antony Marcano, de 41 anos, contou que passou horas procurando pela filha entre os corpos até conseguir identificá-la por um anel que havia lhe dado.
Além da identificação das vítimas, o porto também concentra a emissão das certidões de óbito e das autorizações para cremação. Equipes especializadas recolhem amostras para exames periciais, enquanto funerárias particulares disponibilizam gratuitamente serviços de traslado e cremação para as famílias atingidas.
Conjuntos habitacionais sofreram destruição
Grande parte da destruição ocorreu em conjuntos habitacionais construídos por programas do governo venezuelano. Muitos edifícios desabaram completamente, enquanto outros apresentam grandes rachaduras e correm risco de colapso.
Darwin Silva, de 37 anos, conseguiu recuperar o corpo da mãe, encontrada sob uma viga após horas de buscas realizadas com a ajuda de moradores que improvisaram iluminação utilizando geradores.
Já Jenny Contreras, de 28 anos, relata que ela, o marido e o filho de quatro anos passaram a dormir em um colchão na rua desde que parte do conjunto residencial onde moravam desabou. Segundo ela, os cerca de 3.400 apartamentos do complexo foram evacuados, e os moradores ainda não puderam retornar para retirar seus pertences.
Situação continua crítica
As equipes de resgate seguem trabalhando entre os escombros em busca de sobreviventes e novas vítimas. Enquanto isso, milhares de famílias enfrentam o luto, a incerteza e os desafios causados por uma das maiores tragédias naturais da história recente da Venezuela.
As autoridades mantêm as operações de emergência na região, mas a dimensão da destruição evidencia as dificuldades para atender rapidamente toda a população afetada.














