Governo afirma que o fenômeno climático deve ser mais intenso do que o esperado e prepara uma revisão da previsão de inflação para 2026, que deve ficar acima da meta do Banco Central.
O Ministério da Fazenda deverá revisar para cima a projeção oficial da inflação brasileira para 2026. A informação foi confirmada nesta quarta-feira (2) pela secretária de Política Econômica da pasta, Débora Freire, que atribuiu a mudança principalmente aos efeitos mais intensos do fenômeno climático El Niño.
Atualmente, a previsão oficial do governo para a inflação em 2026 é de 4,5%, divulgada em maio deste ano. No entanto, segundo a secretária, novos estudos indicam que o impacto do fenômeno climático poderá ser mais forte do que o inicialmente esperado, pressionando os preços de diversos produtos, especialmente alimentos.
“A gente já esperava um El Niño mais agressivo, mas agora esse cenário está se consolidando de forma mais robusta. Então, devido a isso, a gente entende que há um risco, há um vetor altista para a inflação neste ano”, afirmou Débora Freire em entrevista ao portal Jota.
El Niño preocupa economia
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, capaz de alterar os padrões de chuva e temperatura em várias regiões do planeta. No Brasil, seus efeitos costumam impactar a produção agrícola, influenciando diretamente os preços dos alimentos e contribuindo para a elevação da inflação.
De acordo com a secretária, a desaceleração dos preços esperada para o segundo semestre deste ano pode ocorrer de forma mais lenta do que o previsto inicialmente, justamente em razão dos efeitos climáticos.
A nova estimativa do governo deverá ficar acima do teto da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central, que é de 4,5%, embora ainda permaneça abaixo da projeção do mercado financeiro. Nesta semana, o Boletim Focus apontou expectativa de inflação de 5,33% para 2026.
Juros elevados também preocupam
Além dos impactos climáticos, o Ministério da Fazenda acompanha com atenção o cenário internacional. Segundo Débora Freire, a manutenção de juros elevados nas principais economias do mundo pode dificultar o crescimento econômico brasileiro nos próximos anos.
A expectativa de uma taxa Selic mais alta também é vista como um fator que pode reduzir o ritmo da atividade econômica em 2027, uma vez que juros maiores tendem a encarecer o crédito, reduzir investimentos e desacelerar o consumo.
Governo mantém projeção de crescimento
Apesar das preocupações relacionadas à inflação, a equipe econômica mantém, por enquanto, a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para este ano.
A estimativa divulgada em maio aponta expansão de 2,3% da economia nacional. No entanto, a secretária ressaltou que os números estão passando por revisão e poderão sofrer ajustes antes da divulgação oficial do próximo relatório econômico.
Arcabouço fiscal segue no radar
Durante a entrevista, Débora Freire também comentou sobre a situação das contas públicas e defendeu o papel do arcabouço fiscal, conjunto de regras criado para controlar o crescimento das despesas do governo.
Segundo ela, o objetivo da política fiscal é promover uma melhora gradual das finanças públicas e garantir a sustentabilidade da dívida brasileira no médio prazo.
“Nossa expectativa é que o arcabouço fiscal faça a convergência da dívida pública no médio prazo, não no próximo ano”, destacou.
A secretária reconheceu, contudo, que ainda existem desafios importantes para o equilíbrio das contas públicas. Entre eles estão o controle das despesas obrigatórias, como aposentadorias e benefícios sociais, além da necessidade de ampliar a formalização do mercado de trabalho, aumentando a arrecadação previdenciária.
Cenário exige atenção
A revisão das projeções reforça o cenário de cautela para os próximos meses. Enquanto o governo acompanha os possíveis efeitos do El Niño sobre a inflação, economistas e investidores também monitoram a evolução dos juros no Brasil e no exterior, fatores que poderão influenciar diretamente o crescimento econômico e o custo de vida da população em 2026.
A expectativa é que as novas projeções oficiais da equipe econômica sejam divulgadas ainda neste mês.

















